6 de Março, Sexta-feira farta e agridoce, não fossem os Gnarls Barkley regressar ao activo para lançar um novo álbum, que marca também o final de uma colaboração épica iniciada em 2006. Mas há também discos que simbolizam inícios (como os de The Scythe e Herlander) e vários outros que representam movimentos de continuidade (e inovação) em carreiras mais solidificadas. São oito os trabalhos sobre os quais nos debruçamos nos parágrafos que se seguem — quatro nacionais mais quatro internacionais. Ora sirvam-se.
Se a fome for muita, fiquem a saber que também há também novas e interessantes propostas musicais vindas de Pedro Ricardo (Oxalá Cante Com Tempo), alga (Terceiro Solstício), Unsafe Space Garden (O Melhor e o Pior da Música Biológica), Pupillo (Pupillo), Quelle Chris (Happy Place), Arima Ederra (A Rush to Nowhere), Terrace Martin (Purpose), Brian Jackson & Masters At Work (EP Two), Bad Gyal (Más Cara), Cobrah (Torn), Icewear Vezzo (Ladies Free ‘Til Midnight), Modeselektor (Classics Vol. 1), Joshua Idehen (I Know You’re Hurting, Everyone Is Hurting, Everyone Is Trying, You Have Got To Try), Tanya Tagaq (Saputjiji), Walter Smith III (Twio, Vol. 2), Ty Dolla $ign (Girl Music Vol. 1), Okkyung Lee & Explore Ensemble (Signals), Voices of Fire (OPHANIM), Vários Artistas (HELP(2)) e Vários Artistas (Bubbling Beats (Vol. 8)).
[Gnarls Barkley] Atlanta
Soul, R&B, gospel, hip hop, funk e alguma electrónica foram sendo os ingredientes utilizados por CeeLo Green e Danger Mouse na dupla que em 2006 elevou uma estética alternativa a vírus mainstream com o belíssimo single “Crazy”, que viria a fazer parte do álbum de estreia de Gnarls Barkley pouco depois, St. Elsewhere. The Odd Couple foi o segundo LP que lançaram dois anos a seguir antes de deixarem o projecto estagnar no éter de uma cada vez mais rápida indústria musical. Talvez muitos já não esperassem sequer vê-los de volta, mas seríamos incapazes de lhes negar uma última dança: Atlanta marca a despedida em definitivo de um par que ousou em criar novas fórmulas dentro do cancioneiro afro-americano.
[The Scythe] Strictly 4 The Scythe
Um novo projecto de rap alternativo centrado nas influências sulistas do hip hop norte-americano? Queremos. Assinado por um novo super-grupo liderado por Denzel Curry e que reune vozes como as de TiaCorine, FERG ou BKTHERULA? Necessitamos! Não dá para contornar a chegada de The Scythe, um colectivo que vem para decapitar cabeças e desviar atenções, elevando uma vez mais as sonoridades do underground às camadas mais superficiais da indústria. Na estreia em disco, Strictly 4 The Scythe totaliza oito electrizantes malhas que casam produções sombrias com prestações sólidas dos diferentes membros, bem como as de alguns convidados de renome — Juicy J, Smino, Luh Tyler…
[Herlander] CÁRIE
Antes de se apresentar ao mundo com um álbum de estreia, Herlander foi remover uma CÁRIE para que o seu sorriso brilhe em pleno aquando a chegada desse grande momento. Ainda assim, o rótulo de mixtape não danifica em nada a música contida nesta primeira incursão do artista num formato de longa-duração: CÁRIE demonstra que Herlander quer continuar a dobrar os limites da pop portuguesa e assenta num conjunto de 12 temas que deslizam bem pelo ouvido, mas que também primam pela complexidade e a aposta em explorações sónicas menos óbvias. Da kizmoba ao indie rock, o mutante natural do Seixal não deixa que nada lhe saia mal.
[AURORA KATANA] KATANA
Os cinco anos em que esteve afastada dos lançamentos fizeram-lhe bem e é fácil notarmos o quão mais polida a sua música se apresenta. KATANA é o trabalho mais ambicioso de AURORA KATANA até à data e serve como o culminar de uma identidade sonora e visual que vinha a germinar desde que se deu a conhecer ao mundo com Uterus (2019) e Flesh Against Flesh (2021). Com influências tão díspares que vão de SOPHIE a Britney Spears, AURORA ergue aqui um monumento à pop electrónica mais cerebral e visceral, invocando temas de libertação ou empoderamento sobre camadas e camadas de glitches e breakbets.
[DJs Di Guetto] DJs Di Guetto Vol. II
A Príncipe Discos volta a abrir uma janela que nos permite espreitar o momento em que os DJs Di Guetto plantaram a semente que fez explodir a batida de Lisboa. A editora foi até aos arquivos do sexteto formado por Marfox, Nervoso, N.K., Jesse, Fofuxo (hoje conhecido por F Flava) e Pausas para recuperar mais uma série de malhas — quase todas nunca antes editadas — que comprovam como as batidas de há 20 anos informaram as cadências que nos fazem dançar no presente. É uma dicotomia que oscila entre a doçura e a agressividade sem nunca precisar de recorrer a clichés da cultura da electrónica que alimenta as pistas dos grandes clubes, e também um testemunho de como a simplicidade pura na intenção pode gerar um legado amplamente duradouro.
[Flying Lotus] BIG MAMA
Vira o disco e toca diferente. Foi essa a mentalidade de Flying Lotus para evitar cair nas suas próprias formulas e procurar o caminho da inovação neste que é o primeiro lançamento que efectua pela Brainfeeder, editora criada por si há quase duas décadas e que tem servido, sobretudo, para lançar artistas como Thundercat, Samiyam, Kamasi Washington ou Daedelus. Após uma série de trabalhos selados pela Warp Records, o produtor californiano joga em casa com este BIG MAMA, um ode ao sound design que refuta a ideia da repetição e da utilização de loops, procurando prender o ouvinte num intrincado jogo de ritmos e melodias que nunca são iguais. Podem parecer “apenas” 13 minutos de música, mas estão recheados de informação pelo perfeccionismo aplicado por Flying Lotus na quantidade de detalhes.
[Shabaka] Of the Earth
Em Of the Earth, Shabaka faz-nos uma síntese de todo o seu trajecto e adiciona algumas pitadas de novidades, assumindo pela primeira vez o controle total sobre cada etapa do processo criativo — da composição à mistura — para nos dar o capítulo inaugural do seu recém-criado selo, Shabaka Records. Há aqui, por isso, um retomar dos sopros ao saxofone num alinhamento que não deixa de lado as flautas e acrescenta os skills de produção que adquiriu, bem como estreia uma nova faceta do músico enquanto MC. Inspirado por gente como André 3000 ou D’Angelo, Shabaka mostra-nos como é ser um artista de jazz na era digital através de um documento enraizado na tradição mas construído com as ferramentas do presente, indo de linguagens mais espirituais até ao hip hop.
[RHR] GÍRIA
De São Paulo, Brasil, para a Europa através da berlinense PAN. Entre o baile funk e as inúmeras ramificações da electrónica, RHR esculpe um manifesto que nos fala de identidade cultural como um campo aberto que oferece margem para a inovação. Essa ideia vem defendida logo no título do EP, GÍRIA, que aponta para a forma como o léxico evolui através da adição de novas palavras e expressões. Com os pés assentes na cultura local e a cabeça a divagar devido à curiosidade em explorar outros ritmos que animam o globo, RHR oferece-nos um olhar “abrasileirado” de linguagens como o dub, o techno, o dubstep ou o UK garage em cinco frenéticas faixas.