Aurora Pinho: “O meu objectivo não é atacar, é começar a implantar um sistema que ainda não existe e é urgente”

[TEXTO] Pedro João Santos [FOTO] Direitos Reservados

Algures no Intendente, arranca uma tarde de sol agonizante. A luz alva é emitida sobre a placa do edifício e ouve-se o intercomunicador: a estática dá autorização à espadaúda porta de madeira para revelar um piso delicado. A construção parece minguar a cada degrau, num sem-fim de andares em revolução, em castanho possante. Escancara-se outra porta e somos recebidos pela impossivelmente luminosa, angular, esculpida Aurora Pinho.

Atravessamos um corredor antes de nos instalarmos na sala de estar. The Diary of Alicia Keys é, apropriadamente, a banda sonora para a conversa cândida que aqui teremos (os assuntos incluem a jogabilidade “brutal” do último Mortal Kombat): uma clássica tapeçaria de harmonias embebidas na soul cálida que popularizou a cantora — nunca estaríamos a ouvir os seus últimos registos, que Pinho descreve como “preocupantes”. Seria talvez uma ambiência algo hostil, algo comprometida, se estivéssemos a ouvir Uterus — o álbum de estreia da artista e modelo que irrompeu pela música nacional como uma proposição irredutível e ímpar. Trata-se de um disco hermético e desconcertante, retomando o sabor pessoal das suas performances (a célebre Aurora de Areia já passou pela Rua das Gaivotas 6), mas numa exploração distinta das suas outras incursões artísticas.

Nascida há 28 anos no norte rural, Aurora Pinho configura um desafio e a sua solução; é o acelerador na fronteira entre arte e susceptibilidade. É uma mulher trans que na sua criação não expia, mas plasma os obstáculos e as violências transversais à sua comunidade, que a começa a reconhecer enquanto símbolo de uma luta ainda silente em Portugal. Foi há um ano que pediu ajuda, pela primeira vez, para arrecadar o dinheiro que lhe falta para a sua cirurgia de redesignação sexual — que completará a sua transformação corporal, acabando com a dissonância entre o seu verdadeiro género e o corpo que vê ao espelho.

Depois do êxito da festa Aurora Agora! no espaço Anjos70, a 25 de Abril, o evento é reposto na Galeria Zé dos Bois neste sábado (20), com Fado Bicha, Marinho ou Marco da Silva Ferreira. É o último grito de esperança de uma artista que equilibra o combate em público com os naturais atritos em privado. No processo, já foi ameaçada, comodificada pela televisão generalista e outros meios, mas o apoio que reúne ecoa mais alto. Aurora Pinho lança agora o seu derradeiro repto pela justiça individual, mas os seus esforços pela visibilidade trans continuam sem fim à vista.



Não é o meu objectivo desenhar esta entrevista de forma pessoal ou visceral, mas o ponto crucial de toda esta situação é a tua cirurgia de redesignação sexual — que já tens preparado há bastante tempo, incluindo a substituição hormonal que já fazes há dois anos e meio. Quando é que decidiste vir a público com a situação? 

A ideia surgiu porque estava a ser complicado conseguir reunir o dinheiro, são nove mil euros a cirurgia — isto em privado; em serviço público não havia hipótese, era por tempo indeterminado, nunca dá para fazer um plano sequer, e depois também bate com questões de saúde — eu tenho doença de Crohn, há um conjunto de factores que me levaram a fazer este crowdfunding, e eu pensei várias vezes em fazê-lo, porque teria de expor a minha vida privada, mas depois também comecei a ver [a iniciativa] no panorama geral e achei que isto também era uma oportunidade não só para mim mas para outros trans e outras possibilidades que poderiam surgir eventualmente com esta informação a passar para o sistema.

Tive um grupo de amigos que me ajudou na altura e foi assim que a coisa começou a surgir, isto em Outubro do ano passado; fizemos uma primeira festa no Rive Rouge, uma coisa muito mais pequenina; a segunda já foi nos Anjos70 e teve outro alcance; agora haverá esta terceira na ZdB.

E já passaste muito deste processo todo sem vires a público, só em privado.

Eu precisei mesmo de, pelo menos, um ano e tal de estar comigo própria, porque eu não conseguia comunicar, muito menos estar nos holofotes. [Risos]

Percebo. A verdade é que, desde que vieste a público, tens tido bastante apoio mediático: artigos em jornais, aparições na televisão generalista, que é uma coisa muito interessante — seguir o teu trabalho e depois ver-te no programa da Fátima Lopes.

Isso foi uma montanha-russa, porque quando tu vais para a boca do lobo, tu sabes as problemáticas todas que irão surgir antecipadamente — eu fui preparada para o circo que ia acontecer, mas achei mesmo que era a única possibilidade que eu tinha de chegar a outro tipo de pessoas que não sejam o meu público-alvo, ou que seja o tipo de pessoas que já conhecem, ou que já estejam na indústria e acabam por ter acesso. Queria chegar às pessoas “banais”, que tem um trabalho normal, normativo, whatever.

Depois, também tinha um bocado a ver com a reflexão que eu andava a fazer de várias entrevistas que vi na TV — vi pessoas que também são trans, e senti que a informação era errada, estava a ser passada de forma errada. Estavam a vender os traumas, a dor da pessoa, o tabu que tudo isto é, e eu gostava de ver uma mensagem positiva além dessas — isso nós já sabemos, cada um tem o seu percurso e é individual, todos os percursos são diferentes, por isso é que eu acho que nenhuma trans pode ser comparada a outra, porque cada uma tem o seu percurso. Mas depois de estar a ver tudo isto a acontecer, isto já é tão difícil de entranhar no sistema, no momento em que começa só a levantar a poeira toda negativa, como é que isto vai ser aceite um dia? Vai ser só um tabu maior.

Alimenta-se o estigma.

As pessoas começam a criar outro tipo de que eu acho que não corresponde de todo à verdade. Acho que isto é mesmo um processo de cura, é super bonito, porque eu vejo o lado positivo de tudo isto — claro que não é um mar de rosas, nós temos um processo hormonal que, queiramos ou não, nos incomoda a um nível emocional e físico, mas ter essa viagem é um processo, para mim, de cura. Eu vejo esse lado positivo, um renascer da fénix, sabes? Um reset qualquer, um fechar um ciclo e começar um ciclo que devia ter acontecido desde que nascemos. Há que passar essa parte boa, não a tristeza, porque nós estamos super danificadas. Pelas trans que eu fui vendo na televisão, elas estavam a ser engolidas vivas, basicamente.

Eu achei que tinha a força suficiente para lá estar — chorei, porque eles, mais uma vez, pronto, fizeram-me uma rasteira, com a minha avó, a minha mãe, e eu tinha deixado claro [à produção do programa A Tarde É Sua da TVI] que não queria envolver a minha família e, mesmo assim, foram para a frente. Mas isso também foi uma espécie de teste — eu estava em directo — e, de repente, aquilo incomodou-me, mas foi uma cena interior. Ver a minha avó, passado x tempo: já não a via há algum tempo, estar a falar na televisão, ir a público, para todos os telespectadores portugueses, é assim uma cena bué fora — a minha avó que é do campo e está completamente fora desta realidade, mas ver isso a acontecer, também vi que a mensagem foi boa, independentemente de tudo. Acabei por aceitar e acho que correu bem. [Risos]

Ia falar-te disso: foi bizarro ver a Aurora Pinho no A Tarde É Sua com a Fátima Lopes [Aurora dá uma gargalhada]. Vais dizer-me melhor do que ninguém, certamente: mesmo considerando a qualidade da exposição — é o vespertino mais visto ou perto disso —, tendo em conta a transgressividade e o quão crua és no teu trabalho, consideraste essa apresentação perante Portugal todo uma cedência, um apaziguamento do que és e da tua história?

Sim, sem dúvida. Acho que era uma forma de- a minha família, naturalmente, já está envolvida em tudo, e depois eu vejo esta análise também pela minha família. A minha avó consome estes programas de merda e, de repente, eu também pensei: foda-se, eu consigo fazer uma cena de jeito, mesmo neste panorama de merda. [risos] Eu vou, porque isto vai ficar para a história, é uma marca que ninguém apaga. Depois, cá está, eu estou sempre a criticar — mas se nós criticamos, temos que subverter o jogo, não é? Não é só criticar e abandonar, porque isso não vai fazer diferença nenhuma, então eu senti útil o facto de eu ter feito essa diferença. Por essa razão é que deixei acontecer uma coisa [pela qual] já me tinham procurado o ano passado.

Já te tinham convidado da TVI?

Sim, há cinco meses — eu é que não aceitei, e depois achei pertinente falar da festa e ter um alcance maior, e por essa razão escolhi precisamente o início de Abril par largar a bomba.

Mas é interessante que uma estação como a TVI te tenha ido buscar, tendo em conta aquilo que és e expões no teu trabalho.

É, eles foram logo. Foi por causa da primeira entrevista que eu dei, que eu acho que foi no Diário de Notícias, salvo erro; a partir daí, eu recebi [propostas da] TVI, da SIC, foram os canais todos a procurarem-me. Mesmo a RTP1 tinha sugerido fazer uma espécie de documentário e eu disse que não tinha interesse, porque eu estava a fazer o meu próprio documentário. Mas acho que é normal. O que me irrita aqui é eu ter consciência da imagem estética que eu tenho e o quão fácil é eu aparecer em todo o lado e é por isso que, claramente, no momento em que eu apareço, estas sanguessugas todas querem ir buscar a sua parte.

A tua história a ser vendida como um factor-surpresa no meio da programação habitual…

Exacto. Mas depois também, lá está, como é que se faz isto? Eu não tenho assim acesso a tantas trans que estejam neste momento a fazer alguma coisa a não ser as minhas amigas mais pessoais — como a Odete, por exemplo — mas não há assim um número tão grande de artistas trans, seja em que campo for, neste momento, activamente, a trabalhar ou a produzir.

E tenta espalhar-se a ideia de que a mensagem já está saturada e já se deu a evolução necessária, mas a verdade é que… efectivamente, o que é que está feito? Muito menos em Portugal.

Está a acontecer, mas, lá está, está a acontecer a nível mundial. Nós, em Portugal, somos muito pequeninos — eu, pelo menos, tenho essa perspectiva: o português parece que chega sempre em último [risos]. “Como é que se faz isto, de repente?” Nesta viagem, também há uma cena que eu não esperava, que foi: desde o momento em que eu tornei tudo isto público, os meus concertos, ou seja, eu estar na rua, ou num café, ou whatever, as pessoas abordarem-me — mas pessoas que também necessitam de ajuda. Eu comecei a tomar café com essas pessoas, desconhecidos que simplesmente querem começar um processo e estavam interessadas em saber qual a melhor forma de o fazer, e a apelar à ajuda também.

Eu percebi que, se eu tenho, neste momento, esta- não é responsabilidade, que para mim isto não é uma responsabilidade, mas ter este privilégio, esta imagem, um campo que me suporte na arte, uma voz, whatever. Interessa-me fazê-lo para rasgar esta merda toda, para isto deixar de ser um problema e outras pessoas começarem activamente a entrar. É preciso uma força gigante e estarmos realmente resolvidas para estar a falar da nossa [vida] privada e, além disso, todo este tabu e esta questão de identidade de género, “o que é que é isto?”. Nós parecemos uma espécie de professor que está ali a ensinar, porque as pessoas que estão ali a ouvir…

Não sabem.

A maior parte não sabe o que estamos a dizer. Se usarmos termos técnicos, ‘tás a ver, eles ficam a olhar para nós: “o que é que isso quer dizer?”

Medias bem entre teres de lidar com a tua história e o teu processo individuais e teres de ser um símbolo da luta em Portugal? Ao mesmo tempo que representas algo para alguém, ainda tens questões a resolver contigo mesma.

Eu senti mesmo que, à medida que eu vou fazendo, isso vai-me ajudando, sabes? Além de me sentir útil — a minha história e toda esta violência que eu senti acabam por ser úteis neste momento, porque é uma forma de eu fazer as pazes; uma espécie de desmame dessa violência, tornando-a em palavras ou em gestos, no que seja da minha postura. À medida que fui dando entrevistas, aquilo foi começando a distanciar-se. Senti que aquilo me estava a fazer bem, não me estava a atormentar — se assim fosse, eu parava. Temos de ter sempre essa consciência: primeiro nós, e depois toda a história, a luta, tudo o que vem…

Exacto, e ninguém tem a obrigação de se expor.

É legítimo uma pessoa passar por todo este processo e não [o] tornar público. Eu tenho esta consciência de que se tivesse que escolher entre os dois, se calhar tinha escolhido o meu ambiente privado, a passar por todo este processo com os meus e não com os outros. Mas não teria nenhum alcance em termos monetários e a coisa não teria efeito. Acabou por acontecer e, felizmente, correu bem — podia não ter corrido, mas, para já, não posso dizer algo negativo. Tem sido uma viagem louca, mas as pessoas são bastante calorosas e a recepção está a ser incrivelmente boa; não estava à espera, de todo. Estava preparada mesmo para a guerra e depois penso “afinal, não está a ser assim tão grave”.

No início foi, porque foi um embate: eu fui ameaçada, a minha mãe foi ameaçada, até a minha avó, quando eu comecei a aparecer em jornais, começámos a receber mensagens anónimas, contas fake para nos insultar… Mas, depois disso, mesmo quando eu fui à televisão, os comentários foram super positivos; recebi mensagens de pessoas que não faço ideia quem são, mas não houve nenhum conteúdo negativo a acontecer. É uma surpresa. Mesmo para a minha família que me rejeitou, comecei a receber mensagens… Foi fora. [Risos]

Se não quiseres falar sobre isso, tudo bem, mas a tua exposição também ajudou a nível familiar?

Não é que isso tenha algum valor para mim, porque quando precisei deles eles não estiveram, mas sim, isso aconteceu naturalmente.

Além de que foi muito interessante no final a Fátima Lopes aquele discurso de meia hora sobre “porque é que as pessoas têm tanto preconceito na cabeça?…” Por muito banal que isso seja, e que seja um lugar-comum…

Eles querem, eles vendem a tristeza, a desgraça — é isso que dá audiências, é isso que as pessoas consomem, e ela percebeu que comigo não tinha hipótese. Sempre que ela puxava o que quer que seja — o meu irmão… — ou sempre que ela via que eu ficava mais emocional, ela tentava pegar por aí, mas felizmente eu consigo ter um discurso bastante aceso se eu quiser, e essas pessoas não me comem. Não têm hipótese. Nem conseguiam, porque eu não tinha qualquer problema em sair da cadeira e bazar.

Isso podia acontecer em directo?

Sim, porque eu nunca quis ir para lá- eu fui para lá fazer o meu papel, puxar a sardinha para o meu lado, mas qualquer coisa que fosse too much, fosse uma palavra ou algo que eu achasse completamente disruptivo, eu bazava e nem dava justificações, simplesmente saía. Eu nunca tive interesse em aparecer na televisão, não era esse o meu objectivo, não era chegar ao maior número de pessoas para eu ficar famosa, percebes o que eu estou a dizer?

Sim, sim, totalmente.

É naturalizar esta merda, é deixar de ser um tabu, é fazer algo de produtivo para a minha comunidade e relatar uma história que é minha, em primeira pessoa, que não fosse tão dark. Para [não lhes dar] espaço para afirmarem o que têm afirmado até agora nos media.

Associa-se muito à tua música a ideia de subversão, mas aquilo de que falas agora está muito perto da definição de subversão. É atacar…

Onde tem que ser. Nós para derrubar o monstro temos que ir a esses sítios, e temos consciência de que ele nunca será derrubado, mas podemos causar algum estrago e já isso é alguma coisa.

A possibilidade que mencionaste de sair em directo desse programa televisivo faz sentido nesse quadro: como disseste, foste lá para chamar atenção para a causa e expor a situação a um número de pessoas não informadas…

E eu só ia se fosse em directo. Eu não podia dar espaço para eles editarem nada, tinha mesmo de ser em directo.

Ninguém te pode acusar de ires lá para fins de auto-promoção — suponho que não tenha sido levantada a questão de fazeres uma performance no ar. Até porque quando te convidaram, estavam cientes do teor do teu trabalho, e não apareces a cantar a “Get the Guns Out”…

Isso é uma música que lá não vende, eles queriam era a minha história. Nem era a história que eles queriam, eles estão-se a cagar para mim, estão-se a cagar se é a Aurora ou a Odete ou sabe-se lá quem…

Outra coisa que achei muito peculiar é a forma de se referirem a ti, só “Aurora”, como se fosses anónima.

É um bocado bizarro. Não temos como controlar… no momento em que decidimos agir, temos de estar prontas para as consequências.

Quando a tua situação se tornou mais mediática, houve um título que me impressionou um pouco: “Uma subscrição pública para o corpo de Aurora”.

Eu tive alguns issues com essa entrevista — não só com o título, mas com algumas coisas que a Fernanda Câncio escreveu.

Até porque o texto se torna gráfico desde muito cedo…

Cá está, eu posso contradizer tudo o que dizem e expor a forma como me sinto quando escrevem sobre mim, mas eu estou sempre preparada para o pior. Não fico surpreendida quando escrevem mal ou usam uma palavra que não era exactamente aquilo, ou até mudam a disposição do discurso para parecer não sei o quê… Eu já tenho em mente que isso vai acontecer. São poucas as entrevistas que, se calhar, neste momento, posso dizer: “Vejam, estão mesmo bem escritas”. E já dei várias.

E, depois, estamos a falar de uma perspectiva de pessoas cisgénero — querendo ou não, faz toda a diferença. Por muito que uma pessoa cisgénero se possa (e acho que deve) mentalizar-se de toda a informação que existe e fazer a sua própria reflexão, nunca vai perceber realmente o que é sentir isto na pele, nasceu privilegiada — da mesma forma que eu também tenho o meu privilégio e sou trans. Eu não sei o que é ser preta, e muda tudo. E é só uma cor de pele, ‘tás a ver? Muda todo o panorama. Eu tenho consciência de que sou privilegiada: sou branca, feminina, pareço uma mulher — ando na rua e ninguém me diz “olha o gay, olha o homem, olha o isto, olha o travesti”… Eu levo com piropos de homens como qualquer mulher leva e é absurdo em Portugal, isto é nojento, é doentio… Mas quando estou a ser entrevistada por uma pessoa que eventualmente já é cisgénero, privilegiada, rica, burguesa… Percebes? Já estou à espera que aquilo não vá ter o impacto ou as palavras que eu gostaria de ver transpostas.

Também é uma problemática dos media em Portugal, que têm poucos escritores fora do cisgénero branco.

Ou não dão oportunidade. E nem estou a dizer que tinha de ser uma trans a entrevistar-me, podia ser uma pessoa não-binária, sabes? Faz toda a diferença. Eu não tenho nada contra os heteros, eu sou hetero, eu gosto de homens, não me consigo relacionar com mulheres. A cena é: toda esta história, todo este peso e privilégio, tudo isto está na face da pessoa, quer ela aceite, diga ou não — as pessoas têm de começar a perceber esse privilégio e a não levar como um ataque. O meu objectivo, e acho que o objectivo de qualquer trans, não é atacar — nós fomos atacadas toda esta vida, sabemos que não funciona. O nosso objectivo é começar a implantar um sistema que ainda não existe e é urgente. É só isto. E, para isto, nós somos consideradas trans. Mas para nós sermos consideradas trans, os outros têm que ser cis, e há que haver uma organização e certas categorias — eu própria não gosto de me meter em caixas, odeio que [o façam com] o meu trabalho, eu própria sei lá o que é que eu sou, ainda estou em construção, estamos todos em construção. Mas é necessário para haver uma espécie de organização, para nós actuarmos a nível político e separar as coisas todas, porque senão isto é uma salgalhada e ninguém percebe nada. É como um cardume: há várias espécies e é tudo peixe, mas é necessário começar a separá-los.

É um grau necessário o de tornares tudo isto palatável para as pessoas poderem começarem a aceitar. Na televisão generalista, na Fátima Lopes, não podes entrar a matar…

Aí ia ficar tudo só a olhar para mim, até ela própria. [risos] Por isso é que me descrevem aquela coisa do “foi homem no corpo de”… era assim uma cena básica, “nasceu no corpo de homem e agora é mulher”.

Tens essa versão mais achatada que tens de apresentar ocasionalmente…

A partir do momento em que tenho uma família completamente normativa, de uma aldeia, aquele cliché de não terem formação… A minha família começou a lidar com gays por minha causa, porque eu fui obrigada a trazer todo o meu universo para esta família, mas nunca ninguém teve contacto com nada. De repente, como é que eu explico à minha avó que tem 81 anos, o que é um trans? Eu digo “sou trans” — foi o que eu fiz — e ela ficou “o que é isso?” Não vou bombardeá-la com informação que ninguém retém…

O conhecimento mais básico nem existe, às vezes, quanto mais a linguagem para tal. Além dessa configuração mais simplista, também tens aquilo que é essencial e intransigentemente Aurora Pinho. A diferença é abismal entre alguém que vê a tua entrevista na TVI e alguém que entrou no teu mundo aquando do Aurora Agora! nos Anjos70.

E eu reparei nisso nos Anjos70, acima de tudo. Eu vi público que nunca tinha visto, e que tenho a certeza de não fazer parte desta área — nós também não somos assim tantos, Lisboa é gigante, mas come on, eventualmente são as mesmas caras, e dá para perceber. De repente, eu vejo ali pessoas a entrar e a sair, falam da entrevista [na TVI] e eu percebi que ao menos aí eu consegui actuar — não consegui nenhum dinheiro; o facto de ir à televisão… eles não me deram dinheiro nenhum, fiquei fodida, mas whatever.

Isso foi algo combinado anteriormente?

Não, mas foda-se, man, eu estou a ir à televisão, eles estão-me a receber, vocês têm balúrdios, estão aí a fazer passatempos de merda para dar dinheiro às pessoas… para mim, aquilo foi desumano. Falhou aí. Uma gaja destas que é apresentadora está-me a entrevistar e a mostrar-se super sensibilizada, e não me transfere nem cinco euros. E se calhar tenho a outra pessoa que trabalha e tem o ordenado mínimo e deu-me cino euros, mas isso não é o mesmo que para uma Fátima Lopes que recebe sabe-se lá quanto. É absurdo, é nojento mesmo.

É a lógica do estagiário: vens para aqui, não te pagamos, mas damos-te a oportunidade.

É. Não recebi nada, não houve nenhuma transferência até à data do crowdfunding, mas depois consegui reunir três mil euros, não estava nada à espera. Estava à espera de 1500, no máximo. Comecei a chorar quando me disseram o valor e quando vi que estava toda a gente feliz, e eu percebi que tinha excedido os 1500… Naquelas horas todas, aquilo foi das 16 horas até às 10 horas, fechou às 11 horas, eu nunca vi tanta gente diversificada a entrar e a sair. Achei maravilhoso o que estava ali a acontecer, não só ter uma plataforma com os artistas — diversificados entre eles — que me apoiaram, mas ver este público a entrar e a sair que é super diferente. Foi lindo, parecia que estavam a acontecer vários eventos ali dentro, sabes? Mesmo as pessoas a falarem comigo, a dizerem que nunca se sentiram tão bem, tão bem recebidas. E eu andava louca, de um lado para o outro, a receber artistas e pessoas que nem faço ideia…

É verdade, pudemos testemunhar.

[Risos] Foi super caloroso, foi exaustivo, mas super produtivo. Acho que aconteceu realmente ali uma marca qualquer, ainda por cima no dia da liberdade [25 de Abril]. Nunca mais vou esquecer e acho que as pessoas que lá estiveram também não vão esquecer, foi isso que me deram a entender. Achei incrível: não foi só para mim; senti um colectivo a funcionar.

No meu caso, estive na marcha do Marquês de Pombal até ao Rossio, e recrutei vários amigos para vir ao Aurora Agora!. Foi um sentimento muito eléctrico de união.

As pessoas só estavam. As pessoas sentiram-se tão à-vontade — no momento em que há toda uma história destas “à venda”, digamos assim, as pessoas têm-lhe acesso — que, de repente, estão super confortáveis. Simplesmente estão a desfrutar do que existe naquele espaço, e não estão preocupadas se há hetero a olhar, um gay a beijar… são pessoas. Acho que, naquele momento, foram só pessoas — uma espécie de tribo. [risos]

E cada vez que te víamos era numa aparição muito passageira, a correr de um lado para o outro.

Tinha que ser, porque eu- há uma coisa que eu sempre me questionei, que é o facto de eu organizar um evento — e este [na ZDB] estou a organizar sozinha, da última vez tive imensas ajudas — e o que me interessa mais é cuidar dos artistas, sabes? Cuidar do público, como é óbvio, e tem de correr tudo bem, não pode acontecer nada de grave naquele espaço, mas também não tenho controlo sobre [isso]. Mas consigo ter controlo sobre os artistas e é uma coisa que me incomoda há anos, desde que faço performances e música: o tratamento que têm para com os artistas e é uma coisa que, se eu falhasse, eu nunca me ia perdoar.

O facto de eu andar a correr era precisamente por isso: eu não precisava de andar a correr, mas no momento em que eu decidi tomar conta de toda a gente, eu sou mesmo chata, estou sempre a perguntar às pessoas se precisam de alguma coisa, se estão bem, se aconteceu alguma coisa, estou sempre a reter toda a informação, porque para mim aquilo tem de ser especial para eles — fazer a diferença nesse sentido. Come on, estamos a falar de pessoas que me conhecem e aceitaram este desafio, mas não têm nenhuma obrigação de o fazer, porque não estão a ganhar nada com isso. O mínimo que eu posso fazer é dar tratamento de rei ou rainha. [risos]

Essa preocupação estendeu-se ao público; no final, estavas a despedir-te das pessoas e lembro-me que nos pediste para “continuarmos a ser sexys”.

[Risos] As pessoas foram todas lá à noite para mim, mesmo que tenham ido ver Moullinex ou The Legendary Tigerman ou na Odete, que já adoram a música. As pessoas sabem que vão para lá, porque os artistas publicitaram tudo isso, eles sabem a mensagem. Eu nunca poderia fazer um evento sem dar nem que fosse uma palavra. Se eu tenho falado com tantas pessoas que nem têm interesse, como é que eu neste momento iria falhar? Nem que eu dissesse nada, ou fosse estúpida — eu estava super nervosa, falar com o público é a pior coisa que me podem fazer, porque fico sem jeito; eu sou super envergonhada, ao contrário do que as pessoas acham. “Shit, e agora?” Ali, acabou por sair; é aquela coisa que eu não pensei sequer, eu funciono um pouco assim. Quando me preparo, é pior; quando não me preparo e sou só eu, as coisas fluem naturalmente. As palavras que saíram foram as que saíram, eu nem me lembro [risos]. Estava a sentir isso aí, estava a colocar tudo no meu discurso.

Todo o “elenco” do Aurora Agora! respondeu prontamente para ajudar?

Foram incríveis. Eles são todos maravilhosos. E mesmo os [que irão actuar na ZDB, dia 20] são pessoas que têm esse cuidado comigo — é por isso que os convido. Não vou convidar nenhum abutre, só porque tem visibilidade, isso não me interessa.

São pessoas que se identificam com a tua causa.

Exactamente, seja esta ou outra qualquer. Quando eu convido estes artistas — e é isso que eu tento fazer — eu tenho cuidado com aqueles que vou buscar. Neste momento, por exemplo, a Tita Maravilha também é trans, eu não a conhecia, foi através da Cigarra que me entrevistou na Rádio Quântica e eu falei com ela nessa altura. Mandei-lhe uma mensagem: “Preciso; onde é que estão os trans?” Eu queria fazer uma cena mesmo só com trans, isto para mim era o meu objectivo inicial — fazer a última festa só com trans. Mas… não há! A Odete já tinha sido na outra festa e não quis repetir, além disso ela anda cheia de trabalho; o Isaac também, mas não existem assim tantos, e os que existem não se queriam expor; eu respeito acima de tudo, claro. Depois, como é que eu convido um Marco da Silva Ferreira? Quem me conhece sabe porque é que ele está lá: ele foi o meu primeiro professor de dança, andámos na mesma companhia, eu comecei com 15… já se passou este tempo todo e ele continua a fazer parte da minha vida. Fado Bicha: tenho um particular amor por eles. [Risos]

Também tinham estado na edição anterior.

Achei que fazia sentido eles virem outra vez, porque acho que é um discurso maravilhoso aquele que eles têm neste momento, e eu não me importo de o ter mais um dia. [Risos] A Marinho repete-se, também porque gosto muito dela… A minha selecção acaba por ser muito pessoal, não profissional — também é, porque gosto do trabalho deles, como é óbvio, mas é maioritariamente pessoal.

E haverá a projeção da curta [Aurora, documentário].

Sim, da Carlota. Achei que fazia sentido. Ultimamente, tenho sido eu a defender a curta porque a Carlota está sempre a trabalhar e não tem como estar nos sítios, e também tem um grave problema em se expor, o que eu percebo. Falei com ela, que já ia apresentar um filme, e pensei que fazia sentido dar um gostinho às pessoas — já recebi várias mensagens a perguntar onde posso ver, onde vai estar, porque ainda não tiveram possibilidade de ver no Festival Política ou no DocLisboa… Se estou a fazer uma festa destas, sou eu, pá, bora meter isto a bombar. Também falarei do filme e, caso tenham alguma dúvida, passar a palavra ao público.

Quão instrumental foi a Maternidade na concepção dos teus projectos ou no teu fomento pessoal?

A Maternidade não teve impacto nenhum. [Risos] Tenho o Filipe Sambado, que é dos meus melhores amigos, e por essa razão está a ajudar-me, não através da Maternidade, através dele próprio como pessoa. E mesmo o Ró [Rodrigo Vaiapraia], que também faz parte da Maternidade, mas mais afastado, só enquanto músico. A Maternidade não teve qualquer impacto de ajuda neste sentido.

Mas encontras-te associada ao coletivo.

Eu estou associada à Maternidade, sim. Entrei em inícios de janeiro de 2018, mas aquilo não estava a funcionar e acabei por trabalhar mais individualmente, mas fiquei sempre lá e só agora é que estou a ser representada pela Xipipa, e que isto está a começar a ganhar forma, mas é só agora. Portanto, a Maternidade nada tem a ver com o meu percurso até agora. [Risos]

Isto também porque figuras no cartaz do 5.º aniversário da Maternidade e no ciclo de conversas e actuações em Março. Fica a dúvida esclarecida. Fora disso, estava a tentar ver pelo prisma da tua produção artística toda a luta que tens e a tua visibilidade enquanto símbolo. Consegues imaginar um cenário futuro em que poderás fazer música ou performance que possas dissociar da tua identidade trans?

Claro que sim, eu gostava muito. Neste momento, eu acho que é urgente falar disto, e por essa razão é que o faço, seja na performance ou na música — a música foi por acaso, não foi premeditado, foi mesmo uma necessidade de eu ter voz e escrever; eu tinha imensos samples e instrumentais de há anos, quando nem tinha começado o processo, mas nunca fui para a frente, porque não achava que era boa e nunca acreditei nisso — só tinha os meus amigos a empurrarem-me, [a dizerem] “isto é incrível, tem que sair”, então comecei a meter nas performances, mas quando comecei o processo, senti mesmo vontade de fazer [música] como um desafio. E ajudava-me, porque era super produtivo o facto de eu poder fazer o que me apetecesse — criar um objecto, digamos assim.

Para mim este álbum que saiu recentemente, o Uterus, é mesmo muito importante. Eu vejo-o mesmo como o meu útero. [As faixas] são os meus babies: eu tenho um “Apocalypse” que já fiz há uns dois anos, quando ainda nem tinha iniciado o processo, e agora vejo-o materializado, e [a música] anda a rodar, a passar à noite num DJ set qualquer, que é uma coisa que eu nunca pensei. De repente, tenho um “Get the Guns Out” com a Odete, que é mais recente, é como se eu juntasse o meu passado de não acreditar com a força toda que eu tenho, e criei este objecto, que demorou imenso tempo a ser concebido. Já estava um pouco “por favor, tenho de lançar esta merda o mais rápido possível, eu já não aguento”, porque demorou três anos a ser feito. Cá está, até que ponto é que no próximo vou sentir esta vontade? Eu não falo muito destas questões trans: quem ouvir o álbum e ler as letras, [percebe que] a música- eu não vejo como um alter-ego, porque sou eu pessoalmente a falar, mas acho que consigo cavar outras coisas que não falo na [performanceAurora de Areia, que é claramente o processo. Quem vai lá não tem como sair dali. Ou um Heteroptera, que abarca a sexualidade e tenta dar um salto para fora da identidade de género… Mas a música é isto: eu poder enraizar sem ter eu própria um tema, tanto posso falar da minha avó como do bullying que eu senti, como o amor que eu tive por uma galinha. [Gargalhada] Interessa-me mesmo fazer uma cena nada… há possibilidade para tudo, é um leque gigante, tenho espaço para falar de questões de género ou não. Nas performances, sinto que ainda preciso de o fazer, por isso é que o faço, quer seja física ou digitalmente.

Separas parcialmente música de performance.

Se calhar em cena, não separo tanto, porque tenho toda esta linguagem e naturalmente o meu corpo liberta-a… Mas, para mim, eu gosto de separar a performance da moda e da música — para mim, são três campos e plataformas que me permitem criar de formas diferentes.

E continuas a movimentar-te em todos.

Sinto vontade de os fazer aos três. Eu até poderia juntar, porque já o fiz — no Aurora de Areia há músicas que são deste disco [Uterus], para mim fez sentido. Mas a forma de eu estar no Aurora de Areia não é a forma de eu apresentar um concerto em qualquer lado. Eu estava com uma peruca preta, um figurino diferente… Acaba por criar um universo particular e são duas coisas desfasadas, apesar de ser o mesmo material, a música que está nas duas plataformas, porque os universos são diferentes e naturalmente as coisas que eu transponho para for, eu acho que a recepção acaba por ser diferente, pelo feedback que me dou.

O que é que este disco diz, neste momento, da Aurora?

Primeiro, é a minha procura e experimentação — vejo-o como algo experimental, apesar de ter ido para um estúdio, estar a trabalhar com profissionais… Para mim, é sempre um espaço em que eu sempre posso falhar, ser estúpida, ser super séria e a brincar com o que seja. Este álbum, para mim- cada música é um momento diferente meu, uma marca discernida — daí eu isolar mesmo dentro do álbum. Para mim, o “Apocalypse” é o “Apocalypse”, o “Devil Shaved My Head” é a “Devil Shaved My Head”, a “Get the Guns Out” e a “Break Your Dick” (ambas da Odete, mas coisas completamente diferentes. É como se eu pudesse realmente criar bebés, tendo cada um; a sua personalidade e identidade, e é o álbum que eu fui mais livre quer seja em desafios de opções de escolha. Para mim, foi super difícil colaborar com pessoas, porque eu era muito bicho de mato, não acreditava no meu trabalho, e de repente estou a trabalhar com gente fenomenal, seja a Odete ou a Violet[a Azevedo], que eu amo particularmente, ou o Vaiapraia, mesmo o Filipe Sambado que também faz parte deste álbum na produção e na mistura… Foi um bocado de me desafiar enquanto pessoa, de parar de estar nessa bolha e começar a rasgar. Por isso é que acho que este álbum é livre, quer pela escolha… Às vezes, dou por mim a ouvir o meu álbum seguido, para ver o que aquilo desperta em mim. Sempre que eu oiço, sinto cenas diferentes em momentos diferentes. Fico muito feliz. Estou-me a cagar se é bom ou não, eu fiz isto para mim, e depois para os outros se o quiserem receber. É um grito livre, a minha emancipação.

Não te vou obrigar a escolher um dos “bebés”, mas há algum que estejas a sentir mais agora?

Tenho, o “Break Your Dick”. [risos]

Fala-me um pouco dessa música.

Primeiro, estou num momento diferente, da minha vida pessoal, que me permitiu escrever essa música. Tem a ver com— as pessoas não entendem, mas era esse o objectivo. Só o título “Break Your Dick” é um atentado ao homem, partir a pila… como é que um macho recebe isso? [Risos] De repente, também pode ser visto com o carácter sexual — que era um bocado que eu tinha em mente, isto do “break your dick inside of me” — não é tu partilhares simplesmente o pau, é parti-lo dentro de mim; pode ser com intimidade… O que me fez a base e a raiz deste ponto de partida que mencionei foi eu abominar todo o meu órgão genital de nascença. “Break Your Dick” é exactamente isso que quer dizer: é partir esta merda que não é minha. É das músicas mais pessoais que eu acho até lá, ninguém soube, percebes? Eu nunca me pronunciei.

Vejo-o como uma introdução — isto de partir um órgão que não é meu e com o qual nunca tive uma conexão. Eu digo tive porque, para mim, mentalmente, eu consegui fazer essa libertação para aceitar o meu corpo e introduzir a palavra pénis, que para mim é bué violenta. Admitir que tenho um pénis; eu sei que o tenho na vida, se há alguém que sabe… desde que nasci e desde que tive de me relacionar com ele não querendo. Deixei de ser objectificada por parte de homens desde que comecei este processo, encontrei uma pessoa [com a qual ainda estou], que me permitiu escrever isto, porque me fez um desmame, permitiu-me curar — eu tive ataques de ansiedade e imensos momentos com essa pessoa que me permitiram só ser e não olhar para mim como maluca, mas sim ser respeitada e ouvida. Agiu e curou-me. Falar disto deixou de ser um problema, por isso é que o estou a fazer. Foi a última música que eu compus, foi uma grande vitória no final da gravação do disco.

Achas que não negocias uma performance do “Break Your Dick” no programa da Fátima Lopes?

Ai, isso seria amazing. Mas eu não quero voltar lá. Já tive a minha dose, as pessoas já sabem e perceberam que eu ando por aí, e a experiência não foi boa. Interiormente, para mim, aquilo foi muito fora — eu depois vi a entrevista, demorei algum tempo, mas fiquei descansada, estava com medo do que teria passado cá para fora. E eu estou a falar, mas a falar de mim, por isso há muitas emoções na mistura. É um lugar em que não me senti confortável e, por essa razão, não… eu não digo nunca, não sou pessoa disso, mas não tenciono voltar, a não ser que haja uma razão muito grande para isso.

Esperamos que a nova edição do Aurora Agora! permita encerrar esta questão.

São mais três mil [euros] e acaba tudo. Este fantasma e toda esta viagem, esta turbulência, esta montanha-russa… eu adoro montanhas-russas. Para mim, isto é mesmo uma montanha-russa.       


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