pub

Fotografia: Tatiana Lages
Publicado a: 12/05/2026

Um confesso admirador de versões.

Rui Ferreira sobre Cover de Bruxelas: “O fascinante é quando uma canção ganha outra vida”

Fotografia: Tatiana Lages
Publicado a: 12/05/2026

A paixão de Rui Ferreira pela música é desmedida e inquestionável. É essa paixão que há décadas lhe guia os passos. Pode dizer-se que na música já fez quase tudo o que é possível fazer sem um microfone, uma guitarra ou qualquer outro instrumento nas mãos: editou muitos discos — centenas, na verdade, e não apenas na sua Lux Records; foi manager de muitas bandas; produziu concertos; organizou festivais; juntou uma das maiores e mais bem curadas colecções de discos que se conhece; lançou livros; abriu uma excelente loja de discos – a Lucky Lux – em Coimbra numa altura em que já nenhuma outra loja existia na cidade; e contribuiu decisivamente para que a chamada Cidade dos Estudantes ocupe um lugar especial no complexo mapa da música portuguesa.

Outra das suas incríveis conquistas é o programa da Rádio Universidade de Coimbra Cover de Bruxelas, há 30 anos no ar, o que é definitivamente uma proeza. Este programa não se limita a recolher grandes versões e a dar-lhes espaço em emissões carregadas de imaginação e repletas de surpresa, também provoca criadores a deixarem a sua marca nesse fascinante universo das covers

E o que é, afinal de contas, uma cover ou, em bom português, uma versão? Uma forma simples de responder a essa pergunta é dizer que é uma vénia de um artista a outro artista, uma forma de expressar admiração, se fazer uma homenagem ou, simplesmente, de reconhecer humildemente o génio alheio. Pode também ser uma forma de provocação, uma maneira simples de surpreender uma audiência: quantas pessoas esperariam que uma banda como os A Faith No More abordassem um clássico dos Commodores?

Para assinalar essa extraordinária marca de três décadas de emissões, Rui Ferreira acaba de lançar Cover de Bruxelas Sessions, Vol. II, com 15 novas versões a cargo de artistas como John Mercy, From Atomic, Surma, Corsage e Paul Oak. 



Três décadas a ouvir versões, a descobri-las, a programá-las: o que impede um programa como a Cover de Bruxelas de se esgotar?

Não se esgota porque não se esgota a matéria-prima. Cada vez mais há mais versões, eu descubro mais versões, há discos novos acabados de sair que trazem versões. Quando eu comecei a fazer o programa, em 1995, contavam-se pelos dedos das duas mãos os tributos que se conheciam. Havia um do Kurt Weill, um do Neil Young, um do Leonard Cohen, e eram muito poucos os tributos que existiam. Actualmente os tributos parecem cogumelos a nascer. E depois as próprias bandas fazem muitas versões. Portanto, por esse lado, matéria nunca faltou. E também não me cansei de fazer o programa porque os primeiros dez anos, enquanto o fiz com o Zé Braga, foram sempre muito divertidos. Era muito diferente de fazer agora sozinho. Ter um companheiro mudava completamente a dinâmica. O nosso método de trabalho era engraçado: nós só combinávamos o título, o tema, mas o Braga não sabia que versões é que eu levava e eu também não sabia que versões é que ele levava. Muitas vezes acontecia levarmos as mesmas, havia coincidências, e isso era muito engraçado. E depois o Zé Braga era uma enciclopédia ambulante. Eu aprendia sempre imenso com os programas que fazia com ele. Sozinho dá mais trabalho, exige muito mais pesquisa. Em média, para preparar um programa da Cover, gasto pelo menos três horas – e estou a excluir o tempo que depois gasto a procurar os discos, perceber onde é que estão, etc. Mas também estamos a falar de uma hora por semana. Não é uma coisa impossível. Exige algum trabalho, claro, mas faz-se. Neste momento, por exemplo, já tenho preparadas três edições para o futuro. Convém sempre ter algumas de reserva, porque há semanas em que tens tanto trabalho que não consegues pesquisar nada.

A longevidade do Cover de Bruxelas é também, de certa forma, uma homenagem ao Zé Braga?

Sim, definitivamente. Aliás, os dois discos que o programa já gerou têm isso muito claramente escrito: são dedicados ao Zé Braga. Eu comecei a fazer rádio com Os Últimos Dias do Vinil, numa altura em que já ninguém passava vinil na rádio e toda a gente dizia que o vinil estava morto. Comecei a fazer esse programa e rapidamente o Braga juntou-se. Começámos a fazer programas juntos. E de repente percebemos que ambos gostávamos muito de versões. Já nesse programa, que também tinha duas horas, quase todas as emissões tinham uma cover ou outra. Depois percebemos que esse interesse era mesmo comum. O Braga, aliás, era muito mais organizado do que eu nesse aspecto. Tinha um ficheiro Excel onde se deu ao trabalho de colocar todas as versões que tinha. Hoje isso é muito mais fácil porque já há vários sites que fazem esse trabalho muito bem. O melhor de todos, provavelmente, é o SecondHandSongs. É o mais completo. Há sempre versões que eles não têm, claro, mas é dos melhores na área. Mas a verdade é que este programa ainda hoje só existe porque existiu o Zé Braga e porque foi uma ideia conjunta. Ao contrário d’Os Últimos Dias do Vinil, que era um projecto meu, a Cover de Bruxelas foi mesmo um programa dos dois.

As versões foram uma paixão desde sempre ou uma obsessão construída ao longo do caminho?

Eu nem sei se foi uma paixão inicial. Acho que foi mais o próprio programa que me obrigou a procurar avidamente. Mas lembro-me de imensos artistas que descobri através de versões. Logo dos primeiros casos: fui aos primeiros discos do Brian Eno porque os Bauhaus fizeram uma versão de Third Uncle. Foi quando os Tindersticks tocaram “Kathleen” que eu descobri Townes Van Zandt, que para mim nessa altura era um completo desconhecido. Tim Buckley através dos This Mortal Coil, por exemplo. Roy Harper também. Há imensos casos. Ainda há pouco tempo, num disco que editei – um disco de versões da Tracy Vandal & John Mercy, um disco só de versões, o Midnight Presents – havia muitas versões obscuras, mas no meio estava uma versão de “You’re Dead”. Fui descobrir que aquilo era da Norma Tanega. Gostei tanto da canção que já fui arranjar os dois discos dela, um de 66 e outro de 71. E são dois discos geniais. Portanto, sim, uma boa versão tem essa capacidade: abre-te portas. Leva-te a sítios onde talvez nunca fosses de outra maneira.

Num universo em que há covers para todos os gostos, o que distingue uma grande versão de uma mera reprodução?

As versões de que eu menos gosto são precisamente aquelas ultra-fiéis ao original. Eu chamo-lhes as versões Chuva de Estrelas. As pessoas vão ali tentar copiar. É imitação. E isso para mim tem pouco interesse. O que eu gosto é quando uma banda quase se apropria do original. Quando a canção passa a viver dentro daquele universo. Há dois exemplos onde isso acontece quase sempre: Nina Simone e Johnny Cash. Sempre que fazem uma versão, depois já não consigo ouvir o original da mesma forma. Ainda há pouco estava a lembrar-me de “Cry to Me”, do Solomon Burke. Quando os Stones fizeram a versão, aquilo parecia uma música dos Stones. Há pouco tempo os Idles fizeram uma versão da mesma canção e, se me dissessem que aquilo era uma canção escrita pelos Idles, eu acreditava. Porque é tão diferente do original que aquilo é Idles. E quando ouves os Stones a tocar “Cry to Me”, aquilo é Stones. Essas são as grandes versões. Agora, fazer uma versão a imitar Solomon Burke? Acho pouco. Parece-me preguiçoso.

Se tivesses de apontar algumas versões incontornáveis da tua história pessoal de ouvinte, por onde começavas?

“The Model”, pelos Big Black, fascinou-me sempre. Tão diferente do original dos Kraftwerk. Ainda há pouco tempo fiz uma edição inteira da Cover de Bruxelas só com versões de “The Model”. E depois dessa emissão ainda arranjei mais três ou quatro. Tenho mais de vinte versões dessa música em disco, e todas muito diferentes. Ainda há pouco tempo comprei um disco dos japoneses The Routes, uma banda de surf guitar que usa muito aquele twang, só com versões dos Kraftwerk. Tudo instrumental. E aquilo é genial. Depois há casos em que a versão me parece melhor do que o original – mas aí, às vezes, é porque o original me incomoda. O “Hallelujah”, do Leonard Cohen, é um bom exemplo. Aqueles dois discos dos anos 80 do Leonard Cohen… eu nunca gostei dos arranjos. Aqueles teclados pirosos, os coros femininos, tudo aquilo me parece sempre de gosto muito duvidoso. As canções são brutais. Mas os arranjos nunca me convenceram. A versão do Jeff Buckley da “Hallelujah”, para mim, está muito acima. O mesmo se passa com a “First We Take Manhattan”: prefiro a versão dos R.E.M., que saiu mais tarde num tributo ao Leonard Cohen. Mas isso também tem a ver com o facto de eu achar que aquelas canções mereciam ter sido gravadas com outro produtor e com outros músicos. Porque a única coisa absolutamente incrível nesses discos continua a ser a voz do Leonard Cohen.

Ao olhar para a história da música popular, há artistas particularmente “revisitados” pelo universo das covers? Os Kraftwerk são um caso especial?

Os Kraftwerk têm imensas, claro. Mas há nomes muito mais óbvios. Os Beatles, sem dúvida. Bob Dylan também. Os Velvet Underground têm muitas. Eu tenho imensas versões dos Velvet. Tenho discos inteiros dedicados a eles. Desde os Feelies a tocar Velvet até bandas holandesas obscuras. Mas é curioso porque há bandas absolutamente brutais que têm poucas versões. Os Portishead, por exemplo. Isso intriga-me profundamente. Como é que quase ninguém faz versões dos Portishead? Tenho meia dúzia, talvez uma dúzia, se juntar tudo. É pouco para uma banda daquela dimensão. Já os Radiohead têm muito mais. Já há tributos, discos inteiros, muito material. Às vezes não percebo a lógica.

A Cover de Bruxelas trabalha também com uma ética de colecionador: só entram versões editadas fisicamente?

Sim. Pelo menos quando sou eu a fazer, só passo versões que existam em disco físico. Por muito que eu goste de uma versão que só exista digitalmente, se não tenho em disco, não entra. E isso complica a preparação dos programas. Porque se quero fazer um programa só sobre um artista – imagina, só versões do Beck – preciso de pelo menos treze canções para encher uma hora. E nem sempre é fácil.

Ao fim de tantos anos, há formatos de programa que continuam a entusiasmar-te particularmente?

Sim, porque há várias formas de fazer o programa e isso também ajuda a manter o interesse. Posso fazer, por exemplo, programas dedicados a um artista específico. Já fiz duas vezes programas de outros artistas a tocarem temas do Beck e, das duas vezes, não passei os mesmos temas. Mas também já fiz o contrário: programas em que era o Beck a fazer versões de outros artistas. Depois há outro formato que gosto muito, que é quando faço programas inteiros dedicados a uma única canção. Já fiz isso, por exemplo, com “The Model”, dos Kraftwerk: uma emissão inteira só com versões dessa música. Mas depois há artistas em que a abundância é tão absurda que nem vale a pena tentar uma abordagem genérica. Beatles, Stones, Bob Dylan, Bruce Springsteen… aí já nem faço programas “sobre” o artista. Escolho um disco específico da carreira e faço uma emissão dedicada a versões desse disco. Por exemplo: pegar no Blonde on Blonde e fazer uma emissão só com versões de temas do Blonde on Blonde. Porque se fores tentar fazer simplesmente “versões do Bob Dylan”, precisavas de um ano inteiro. Lembro-me do Zé Braga contar-me que havia uma rádio nos Estados Unidos que fez um fim-de-semana inteiro só com versões de Louie Louie. E eu acredito, embora tenha quase a certeza de que repetiram coisas, porque eu tenho quase uma centena de versões dessa canção e mesmo assim não chega para dois dias seguidos de emissão sem repetir. Mas há canções com esse tipo de peso.

Há zonas cinzentas no universo das versões? Canções que levantam dúvidas sobre o que é original e o que é cover?

Sim, claro. O caso de “Because the Night”, por exemplo. Para mim, aquilo é um original da Patti Smith. Não considero uma versão. Foi a primeira a gravar, embora seja o Springsteen o autor. Tal como “Shipbuilding”. Foi escrita pelo Elvis Costello, sim, mas o original, para mim, é a versão do Robert Wyatt. O Elvis Costello só gravou a sua própria versão mais tarde. O Prince fazia muito isso. Escrevia canções para outros e depois gravava ele. “Nothing Compares 2 U”, por exemplo. Toda a gente associa muito à Sinéad O’Connor, claro, mas originalmente aquilo foi escrito para os The Family. A demo do Prince existia, mas não foi a primeira edição. O caso do Springsteen com a “Because the Night” é semelhante. Ele tinha a canção, mas quem a editou primeiro foi a Patti Smith. E ainda por cima acrescentou versos. Portanto, para mim, não há grande dúvida.

Passemos ao disco: como é que este segundo volume das Cover de Bruxelas Sessions ganhou forma?

Não há grande planeamento. A regra é simples: quando tenho cinco sessões completas, faço um disco. Vou fazendo convites a artistas ao longo do tempo e, quando finalmente tenho cinco sessões fechadas – sendo que cada artista grava três versões –, isso dá quinze canções e então faz sentido editar. Foi assim com o primeiro e foi assim com este segundo. No primeiro estavam o d3o, o duo da Raquel Ralha & Pedro Renato, Birds Are Indie, Dirty Coal Train e os Catenary Wires. Agora aconteceu a mesma coisa: quando finalmente havia cinco sessões prontas, saiu o disco. Curiosamente, quando saiu o primeiro, por exemplo, a sessão do John Mercy já tinha ido para o ar. Mas como cada artista só faz três versões, não consigo encaixar tudo.

Intervéns criativamente nas escolhas ou deixas liberdade total aos músicos?

Dou liberdade artística total. Há algumas excepções, claro. Neste segundo volume, por exemplo, a versão de “Dream Baby Dream”, dos Suicide, fui eu que sugeri aos From Atomic.. Era um tema que eu já tinha sugerido a outras bandas e nunca ninguém o tinha feito. No primeiro volume, “Human Fly”, dos Cramps, pelos d3o, também fui eu que sugeri. Mas de resto, total liberdade. O John Mercy, por exemplo, surpreendeu-me completamente porque fez três versões da mesma banda, os Parkinsons. E eu nunca teria imposto isso. Não há regras.

Em Portugal, a ideia de fazer versões como gesto de homenagem continua menos enraizada do que no universo anglo-americano?

Sim, embora haja excepções. No que toca a tributos, até acho que tem havido algumas coisas interessantes. O tributo aos Mão Morta, o tributo aos Xutos, o tributo aos GNR, e mais recentemente aquele tributo ao Sérgio Godinho com gente vinda do hip hop. Portanto, algum movimento existe. Mas eu trabalho sobretudo com bandas de Coimbra e, de facto, nessas bandas os ídolos raramente são portugueses. São bandas muito influenciadas pela cultura anglo-saxónica e pelo rock. Por isso, não é muito natural vê-las fazer versões de artistas portugueses. Embora neste disco haja precisamente uma exceção interessante: os Corsage são os únicos, nas quinze versões, a fazer canções de artistas portugueses – e gosto disso. Curiosamente, nos primórdios do boom do rock português, isso existia mais. António Variações, por exemplo. Os Corpo Diplomático. Os Delfins no início também. Os Delfins fizeram uma versão do Eduardo Nascimento. Portanto, essa tradição existiu. Nunca se consolidou verdadeiramente.

Há bandas que te espantam pela escassez de tributos ou versões?

Muitas. Os Pop Dell’Arte, por exemplo. Como é que quase ninguém faz versões dos Pop Dell’Arte? Lembro-me dos More Republica Masonica fazerem uma, mas pouco mais. É estranhíssimo. E isto acontece também internacionalmente. Os Blur são um caso que me intriga imenso. Como é que uma banda daquela craveira tem tão poucas versões? Tenho algumas, claro, mas muito poucas para o peso da banda. Enquanto isso, Radiohead têm muito mais revisitações, tributos, discos inteiros. Às vezes não percebo os critérios da memória colectiva.

Tu próprio acabaste por entrar nesse território da curadoria e produção de tributos. Como foi essa experiência?

Sim, o primeiro tributo que organizei foi o “Coverbilly Psychosis – A Tribute To Tédio Boys”. Depois produzi este com os Psychedelic Furs. E foi curioso perceber que, com edição física, era o primeiro tributo daquele tipo. Existia um brasileiro anterior, mas sem edição física. Portanto, nesse sentido, sim, o primeiro fui eu. Quando fui vê-los ofereci-lhes o disco. Achei que fazia todo o sentido.

Há bandas que, paradoxalmente, quase nunca fizeram covers?

Sim, e isso também me fascina. Os Talking Heads, por exemplo, praticamente só têm a “Take Me to the River”. Os Psychedelic Furs, na carreira inteira, gravaram uma única versão. E isso até foi uma das influências para eu criar estas Cover de Bruxelas Sessions, porque essa versão dos Psychedelic Furs foi gravada para uma Peel Session. Eu colecciono Peel Sessions e reparei numa coisa interessante: muitas bandas, nas quatro músicas que gravavam para o John Peel, aproveitavam para meter uma cover. Havia imensos casos. Os A Certain Ratio com “Shack Up”, por exemplo. Toda a gente pensa que é deles, mas não é, é dos Banbarra. Foi naquela sessão que a música ganhou notoriedade suficiente para depois ser regravada como single. Echo & the Bunnymen também fizeram algumas versões, embora muitas vezes ao vivo: “People Are Strange”, “All You Need Is Love”, “Run Run Run”… Mas realmente há bandas que claramente não tinham essa tendência. Enquanto outras a tinham, completamente. Bob Dylan, por exemplo, gravou imensas versões. E isso sempre me surpreendeu, porque à partida pensar-se-ia: um autor daquela dimensão, com aquela capacidade de escrita, porque haveria de gravar tanto material dos outros? Mas gravou. Johnny Cash gravou imensas. Os Stones também. Os Beatles também, sobretudo na primeira fase. Há bandas que têm essa pulsão. Outras, não.

Ao fim de 30 anos de programa, ainda há território por explorar? Ou a dificuldade já está em encontrar matéria suficiente para certas obsessões?

A dificuldade nunca é arranjar ideias. Ideias há muitas. A dificuldade é arranjar versões suficientes para sustentar uma emissão inteira. Neste momento, por exemplo, estou a preparar um programa sobre os Morphine, que nunca fiz. E acho que finalmente consegui reunir material suficiente. Outro caso é Felt. Por incrível que pareça, nunca fiz uma edição dedicada aos Felt, sendo uma banda de que sempre gostei muito. Tinha sete ou oito versões soltas, o que não chegava. E há pouco tempo consegui um tributo editado por uma editora espanhola que resolveu esse problema, porque traz logo doze ou treze versões. Juntando isso ao que já tinha, finalmente dá para fazer um programa. E é uma banda que sempre admirei muito, até pela forma como pensaram a própria existência. Sabiam perfeitamente ao que vinham: iam durar dez anos, fazer dez discos e acabar. E quando acabaram, acabaram mesmo. Não foi aquela coisa de acabar e reaparecer dois anos depois. Acho isso extraordinário.

O que dirias que continua a alimentar esta obsessão pelas covers?

A descoberta. É continuares a encontrar coisas inesperadas. Continuares a tropeçar numa versão obscura que te leva a um artista que nunca tinhas explorado. Ou encontrares um tributo improvável. Ou perceberes como uma canção pode mudar completamente de pele. Porque uma grande versão não é uma repetição. Uma grande versão é apropriação.  É isso que me continua a interessar. Não a reprodução. Não a imitação. O fascinante é quando uma canção ganha outra vida.


pub

Últimos da categoria: Entrevistas

RBTV

Últimos artigos