Riça conta a história de “Napoleão Precário” em epopeia rap

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [ILUSTRAÇÃO] Bruno Lisboa

Riça lançou um novo tema: “Napoleão Precário” saiu ontem pela Paga-lhe o Quarto Records e tem Ricardo Martins, Chuaga, Luca Argel, Catarina Maçã e Zé Poças (aka zé menos) nos créditos. O vídeo é uma animação de Chuaga e MESTRIA com base na pintura de Bruno Lisboa para a capa do single.

“Napoleão Precário” é o terceiro lançamento do rapper e produtor portuense pela editora chefiada por Keso. Já com um EP na bagagem — Bicho com Mau Gosto foi editado de forma independente em 2016 — a estreia aconteceu em Setembro último com “DRAGÃO IV”, que serviu também como primeiro avanço de um novo projecto.

Em “Napoleão Precário”, Riça ingressa num longo storytelling inspirado na abundante adesão de trabalhadores às aplicações de estafetagem da moda e na gentrificação da cidade do Porto. Escrita e produzida por si, a faixa abriga ainda contribuições de Ricardo Martins e Chuaga, no baixo e guitarra eléctrica, respectivamente, com Luca Argel e Catarina Maçã a emprestar as suas vozes a duas das personagens desta história. O autor de o chão do parque ficou encarregue da captação, mistura e masterização da música.

Falámos com Riça acerca do seu novo lançamento e do projecto que está neste momento a desenvolver.



Curioso como a situação se alterou drasticamente desde esse episódio que nos contas no teu novo tema. Que retrato fazes do Porto neste momento?

O mais importante agora é toda a gente estar segura e zelar pela segurança de todos. Pelo que sei e pelo o que vou filtrando nas redes sociais, as pessoas do Porto e arredores estão a ter isso em conta. Todos aqueles que (como eu) têm o privilégio de poder trabalhar a partir de casa têm menos um problema a tirar-lhes o sono e isso facilita a quarentena. O problema sobra para aqueles que têm de continuar a sair de casa para trabalhar, ou porque têm empregos essenciais ao normal funcionamento do país (estações de serviço, supermercados, correios, médicos e enfermeiros, etc.) ou porque se vêem sob ameaças patronais. Mesmo com uma plataforma lançada há dias para denúncia de despedimentos e abusos laborais, há muita gente que evita fazê-lo. Ou por receio, ou por falta de conhecimento das leis e direitos laborais ou porque simplesmente acham que não vai dar em nada e precisam de continuar a pagar as contas em casa. Estes confrontos têm acontecido também na cidade do Porto em empresas que dependem maioritariamente do turismo. De repente, com a pandemia, a torneira fechou-se e toda a gente desse mercado vê-se aflita. Claro que outros negócios que não dependem directamente dum constante fluxo de turistas também estão a sofrer. Mas isto faz-nos pensar sobre no que uma cidade se pode tornar se depender maioritariamente dum sector. Este tema já é recorrente e outras pessoas melhor informadas que eu poderão falar melhor sobre isto. Não era preciso uma pandemia para nos apercebermos destes efeitos, bastava o Porto perder uma percentagem de turistas para se sentirem os problemas. Não digo que tenha de se acabar com o turismo, as cidades melhoram em muitas coisas devido a isso. Mas devia-se pensar melhor sobre os limites, perceber que de repente a cidade está toda restaurada mas ao mesmo tempo perdeu os seus habitantes devido às rendas mirabolantes, por exemplo. Perceber que, se calhar, já se devia ter começado a fazer mudanças profundas a partir do momento em que há pessoas mais velhas desprotegidas e que sofrem pressões, ameaças ou burla por parte do ramo imobiliário e senhorios. A partir do momento (como ainda há bem pouco tempo) em que uma mãe recebe uma chamada a dizer-lhe que a polícia está a retirar os seus pertences da sua casa, sem esta saber. A partir do momento em que artistas da cidade vêem as suas obras censuradas ou editadas por orgãos de poder porque há ali qualquer coisa que vai contra os interesses da Câmara. As pessoas são tão ou mais importantes do que a economia.

Apesar da situação delicada em que se baseia a tua história, há também um certo sabor a glória ao te afirmares como um “Napoleão Precário”?

Não diria glória. Diria sarcasmo, talvez. Como se costuma dizer, “vou rir para não chorar”. Já fiz este exercício de juntar ideias extremas numa só expressão com a música “Dr. Zé Ninguém”. Essa referência ao Napoleão surge por vários motivos, alguns dos quais são meras associações. Ao olhar para os estafetas de todas estas apps, há um padrão: quase todos andam numa Honda PCX125 branca. Isto porque maior parte dos veículos são alugados e vêm dos mesmos sítios (quase como a frota duma empresa). Daí associei isso à dica do “cavalo branco do Napoleão” e, como é sabido, a cidade do Porto foi profundamente marcada pelas invasões napoleónicas. Então quase que de forma espontânea surge aqui uma ideia de opostos: por uma lado aquele trabalhador é o Napoleão, o seu objectivo é conseguir o maior número de pedidos, conquistar uma boa avaliação na app por parte dos clientes para que se possa manter no topo e, consequentemente, ganhar mais dinheiro com isso; por outro lado é o Precário, porque está sujeito a uma data de más condições, não têm seguro, têm de adquirir do seu próprio bolso o combustível e o equipamento necessários para o trabalho, e o seu incoming está condicionado pelas avaliações dos clientes, nunca sabem se no próximo mês fazem tanto quanto no último. Já li notícias de alguns testemunhos que dizem ser possível tirar valores mensais acima dos 1000 euros, mas o esforço e risco associados a esses valores talvez façam outros pensar duas vezes. Estes “empregos” ainda são muito recentes no nosso país e funcionam de maneira diferente de outros trabalhos, logo ainda não há uma regulamentação séria aplicada a estas empresas. Ok que estes serviços são cada vez mais inevitáveis e conseguem proporcionar aos clientes um conforto espectacular a baixo custo. Excelente! Mas e os trabalhadores? Há que pensar neles também.

O tema foi criado neste período de quarentena ou já começou a ser delineado antes? Explica-me como decorreu todo este processo de construção, desde o instrumental à letra e aos músicos convidados.

Esta música já sofreu algumas voltas. Devo ter começado a escrever isto há quase dois anos a propósito duma conversa entre amigos sobre o tema do turismo. Inicialmente a minha ideia era fazer algo curto e meramente descritivo sobre o tema. Depois evoluiu para um “Dr. Zé Ninguém II”, em que o personagem dessa música ia trabalhar para a recepção de um hostel no Porto e mandava umas postas. Entretanto apercebi-me que colocar a acção na boca desse personagem ia tornar-se aborrecido porque ele está sempre no mesmo sítio (recepção) e encostei a ideia. Passaram-se uns tempos, volta e meia ia pegando naqueles apontamentos, tentando encaixar em beats. Há um momento no meio de tudo isto em que juntei duas ideias: lembrei-me de um amigo meu que trabalhou para uma dessas apps e teve um acidente na mota; e lembrei-me duma série de histórias sobre despejos e pressões imobiliárias que fui ouvindo de amigos e nas notícias. Finalmente tinha um protagonista que se move livremente pela cidade e imensa matéria-prima escondida por detrás da fachada em que o Porto se tornou. A partir daí fui compondo o beat, tentando encontrar algo que não fosse monótono mas que também não distraísse o ouvinte da história. Tinha a intenção de alterar a música a meio, de passar dum atmosfera leve e cómica para algo mais tenso e sombrio, mas sem mudar necessariamente de instrumental. Depois pelo meio do processo de composição senti a necessidade de ter alguma instrumentação, algo que volta e meia pudesse quebrar o loop ou acrescentar um toque mais humano. Por sugestão do Keso, falei com o Ricardo Martins para interpretar a linha de baixo que eu já tinha esboçada (ambos já tinham colaborado na beat tape Thalatha Khobzat). Lembrei-me também de falar com o Chuaga, que volta e meia ia-me mandando algumas músicas suas. Contei-lhe a história da música muito por alto e pedi-lhe para criar uma linha de guitarra que traduzisse a acção e todas as nuances emocionais que esta carregava. Quanto às vozes dos personagens, o zé menos foi quem me gravou, por isso essa sinergia surgiu de forma muito natural (o toque que ele deu fez toda a diferença naquela parte da música); a Catarina por querer ouvir a voz dela num trabalho meu e poder guardar isso para sempre; e o Luca Argel foi pura sorte. Precisava de alguém para interpretar em condições o personagem brasileiro, eu não me sentia de todo confortável com o que eu fiz nessa parte, ficou mesmo podre. Deve ser como ouvir alguém de Lisboa a tentar imitar alguém do Porto ou vice-versa. E, para além da minha intenção não ser fazer uma má caricatura, tentei pôr-me no lugar de um estafeta brasileiro a ouvir a minha música e sentir que estraguei a coisa com uma imitação falhada. O Luca desde o início que se demonstrou bastante disponível e receptivo, ficou motivado com a demo que lhe enviei e nesse mesmo dia enviou-me uma pista de voz com a sua interpretação. Para além da música, a cereja no topo do bolo a meu ver foi a pintura que o Bruno Lisboa fez para o single. Sou um grande fã do trabalho dele e espero que daqui para a frente possa ter sempre uma criação sua num videoclipe ou música minha.

Há uns meses, quando ingressaste no catálogo da PoQ, anunciaste um novo EP. Em que fase se encontra esse trabalho? Tudo o que tens lançado até agora faz parte desse projecto?

Ainda estou a trabalhar nisso, está muito em fase de vai-e-vem. Quero esforçar-me como não me esforcei no meu primeiro trabalho. Não quero fazer apenas uma compilação de sons soltos. Quero fazer um disco em que todas as faixas estejam ligadas, quero refinar a minha escrita, variar a entrega. Além de tudo isso quero também assumir a total produção do trabalho. Isto é, vou contar com a co-produção do zé menos, mas serei eu a definir pelo menos as bases. Se calhar é muito trabalho para uma pessoa só, se calhar estou a complicar algumas coisas. Não sei… Só quero chegar ao fim deste trabalho e sentir que aprendi imensas coisas novas sobre a arte e sobre mim. Essa é aquela sensação que nunca se quer perder, não é? O entusiasmo, o fascínio pela novidade, a inquietação, tudo o que nos mantém jovens e com garra. Eu também não sou o gajo mais rápido a escrever ou a compor, há dias em que fico horas feito maluco à volta de dois versos para no fim ver que não saiu nada de jeito. A ver vamos… Por acaso aqui há uns dias, o Tiago Pereira d’A Música Portuguesa a gostar dela própria laçou-me o desafio de gravar algo meu em formato vídeo na minha casa e o que mostrei é um rascunho de algo para o álbum.


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira