#ReBPlaylist: Novembro 2018

[FOTO] Rozette Rago

Estamos a aproximar-nos a grande velocidade do final de 2018, o que não quer dizer que o ritmo de edições abrande, pelo contrário. Em Novembro temos de tudo, desde o rap abstracto de Earl Sweatshirt ao caos sónico de JPEGMAFIA, passando pela destreza técnica de Tierra Whack ou o r&b para dançar no escuro de Trace Nova.

 


[EARL SWEATSHIRT] “Nowhere2go”

Earl tem o talento nato de dizer tanto em tão pouco. “Nowhere2go”, faixa do seu mais recente disco, é uma viagem pelos recônditos mais obscuros da mente do artista: uma mente atormentada por depressão e alienismo, que, no final, se refugia na sua escrita como modo de prevalência e superação. Este optimismo não é inocente, mas metodicamente estruturado de modo a continuar o seu caminho. Mas porque Earl é Earl afinal de contas, há sempre um sentimento escondido de consolo, mesmo quando sabe que tem ainda de passar por um imenso inferno. “Tryna refine this shit, I redefined myself”, canta na música. Em “Nowhere2go”, Earl descobre que sentir-se deslocado não é o mesmo que sentir-se sozinho.

– Miguel Alexandre


[JPEGMAFIA] “Puff Daddy”

Depois de no início do ano mostrar um malabarismo sonoro digno de se ouvir com Veteran, JPEGMAFIA mostrou recentemente “Puff Daddy”, um tema que não destoaria desse aventuroso álbum. No entanto, o rapper e produtor nascido Barrington Hendricks afasta-se da mesa de produção e dá lugar a Kenny Beats, artista que só este ano conta com colaborações extensivas em projectos de Freddie Gibbs, Rico Nasty e Vince Staples. E aqui Beats demonstra mais uma vez a sua habilidade para as batidas ao raptar uma melodia de um glitch de Game Boy que serpenteia por entre bombos distorcidos até ao infinito, estabelecendo uma interessante base sonora para as rimas de JPEGMAFIA.

“Puff Daddy” é uma música de contrastes, seja pela fluidez com que a melodia abrasiva alterna entre o grave e o agudo, seja pelas palavras do rapper. O título alude a Puff Daddy (ou será Love?) e aos vários nomes pelo qual é conhecido o rapper, e Peggy abraça essa multitude. Mistura realidades diferentes com uma ironia e humor que só ele sabe escrever, mostrando os seus dotes de prestímano de verdades. “Big whips, big guns/No cash, no funds”, ouvimo-lo dizer no início do refrão que abre o tema, seguido de uma estrofe confessional e mentirosa ao mesmo tempo, repleta do sarcasmo seco já conhecido do artista.

Na segunda estrofe vemo-lo escrever de forma mais depreciativa mas sem negligenciar a violência e jogos de palavras já conhecidos do artista: “P-pull up with the trey and we ain’t hooping/Shoot you in the face, boy, go guard it”. Este fugaz tema com pouco mais de dois minutos é mais uma prova da versatilidade e energia incendiária da música de JPEGMAFIA. “You are all my sons”, ouve-se com um tom tirânico no refrão. Talvez não o sejamos, mas fiéis ouvintes continuaremos a ser.

– Miguel Santos


[SLOW J] “Teu Eternamente”

Slow J, no final da última semana, declarou-se distante, com emoções à flor da pele, no seu canto, sem querer falar com ninguém. Um sentimento, afinal de contas, que pesa mais nestas alturas, quando as ruas se iluminam e as famílias parecem esquecer o que as afasta e concentrar-se no que as deve ligar.

Importante saber que este é um tema solto, mas que poderá apontar caminhos para o futuro que todos queremos que Slow J alcance o quanto antes. J surge aqui com amparo instrumental de DJ Ride, Holly, Fumaxa e Papillon. E é o incontornável Charlie Beats que assina a mistura e masterização, arredondando arestas e atirando o som da canção para a estratosfera. E essa é a palavra que aqui realmente importa: canção. É que é cada vez mais evidente que Slow J é um mestre nesta preciosa arte de arrancar palavras à alma, colocá-las nos nossos ouvidos e fazer-nos acreditar que é para cada um de nós que está a falar em exclusivo, como se as suas canções fossem cartas que precisávamos de receber e ler. Sobretudo nestas alturas…

E essa capacidade é menos comum do que se possa pensar: sim, há canções unânimes, que andam na boca de gerações inteiras, que chegam, batem e vão embora porque se gastam. Mas as de Slow J parece que se vão acumulando na nossa cabeça, empurrando-se umas às outras para todas terem o seu espaço e se encaixarem na nossa vida. E “Teu Eternamente” é mais uma. Ouçam lá… certamente não se vão arrepender…

– Rui Miguel Abreu


[TIERRA WHACK] “#Freestyle115” | Funk Flex

Embora “The Mint”, de Earl Swetshirt, tenha sido das faixas que mais rodaram deste lado em Novembro, a ida de Tierra Whack à Hot 97 teve um efeito que é raro nos dias de hoje. Lembram-se da última vez em que se sentiram na obrigação de puxar um freestyle para trás? A MC de Filadélfia foi ao programa do lendário Funkmaster Flex e partiu aos bocados a batida de “Put Your Hands Where My Eyes Can See”, de Busta Rhymes, com um jogo de rimas suficientemente forte para conseguir fazer frente a Rapsody, uma das mulheres mais celebradas na cena norte-americana quando o assunto é bars. Para apimentar ainda mais a coisa, Tierra Whack lançou este ano o vídeo-disco Whack World, que é uma das obras audiovisuais mais interessantes de 2018.

– Gonçalo Oliveira


[RHYE] “Feel Your Weight” (Poolside Remix)

Qualquer desculpa para revisitar Rhye e a bela voz andrógena de Mike Milosh é sempre bem-vinda, por isso foi com agrado que este Novembro ouvimos Blood Remixed, trabalho com várias remisturas para Blood, editado no início do ano, pela mão de nomes como Washed Out, Little Dragon, RY X, entre muitos outros. Rever com outro olhar um álbum tão precioso para tanta gente, como é o caso de Blood, levanta sempre algumas suspeitas, mas no final gostámos muito ver o músico mais próximo da pista de dança e perceber até que não está tão longe dela quanto isso. Entre as 14 faixas há remixes mais bem conseguidos que outros — por aqui rodou bastante este de Poolside para “Feel Your Weight”.

– Vera Brito


[BIYA] “Paper”

Paper é o mais recente single de biya, artista que pertence aos quadros Real Caviar. Já tínhamos dado a notícia da data de lançamento e agora analisamos a faixa. É um som mais “trapeiro” da rapper sediada em Lisboa mas com raízes no Norte.

Depois de um início de carreira acelerado, muito pelo impacto do seu primeiro single “Over You”, biya fez mais algumas incursões no mundo do rap com o seu EP Listen To Me e voltou aos singles com “Wait a Minute” e “Paper”.

No mais recente, a cantora solta-se do timbre r&b e dedica-se mais às rimas e ao trap. Fala do dinheiro, da ascensão rápida (o seu primeiro single saiu em Março deste ano) e de como sentiu o funcionamento da indústria da música em Portugal. A canção nova tem mais versos e mais rimas que as anteriores, sempre em inglês mas com uma energia diferente, e sobre ritmos mais colados ao trap, de Holly e Jon. Produção impecável.

– João Marques


[DANILEIGH] “Blue Chips”

DaniLeigh entrou nos radares há relativamente pouco tempo, principalmente por causa de “Lil Bebe”, single que foi ganhando o estatuto de hino junto da camada mais “underground da pop” — e que tem, talvez, um dos vídeos mais interessantes do ano. “Blue Chips” veio guinar o volante mas, mesmo em lume brando e sem a pimenta do sucesso anterior, comprova a artista da Def Jam como uma das ascensões mais interessantes dos últimos tempos.

– Moisés Regalado


[AMIRI] “Um Dia de Injúria / Pantera Preta”

Dei por mim a recomendar Amiri a uma série de gente nos últimos tempos. A verdade é que já em Outubro, quando o MC de São Paulo voltou aos trabalhos com “Boom”, a primeira coisa em que pensei foi: “como é que uma faixa old school pode ser a coisa mais fresh que ouvi este ano?”. A golden era de Amiri propõe uma viagem ao eastside nova-iorquino na produção de Deryck Cabrera, samples de NAS e Cypress Hill e scratches de DJ Latif, para esfregar na cara dos que acham que o “boom bap lindo” já deu o que tinha a dar. Mas não é sobre “Boom” que falamos. Um mês depois do feito – à partida difícil de igualar – Amiri lança os singles “Um Dia de Injúria” e “Pantera Preta”. É no primeiro que nos focamos, não sem avisar que são como as cerejas: não dá para comer só uma. “Um Dia de Injúria” relata o crescimento da personagem Rakim, em três actos. Ou a versão condensada do racismo e escravatura no Brasil, em três actos. Como preferirem. Genuíno, lírico, com uma capacidade invejável de gerir as dinâmicas em cada uma das fases da faixa. A contar histórias, lembram-se? “Um Dia de Injúria”, o slow que parecia não ser suficiente para bater o efeito de “Boom”, não só o conseguiu, na minha sempre modesta opinião, como me fez regressar a 2001 quando o Sobre(tudo) saltava no discman e cada faixa era uma lição. Obrigava-te a ficar calado para ouvir. Esteticamente, liricamente, nada a assinalar. Relevante em 2001 e em 2018. Estará o Prof. Amiri a marcar um novo regresso às aulas do hip hop em português? Pelo sim, pelo não, façam o trabalho de casa.

– Núria R. Pinto


[TRACE NOVA] “Waitlist”

Um diamante em bruto à espera de ser lapidado. A cantar ou a produzir — aparece nos créditos de “Midnight in Lisbon”, “Heaven” e “Anyhow” de Richie Campbell –, Trace Nova demonstra uma predisposição para criar refrões que se alojam no nosso cérebro e obrigam a repetições até à exaustão — “afterthought”, faixa com Mishlawi, foi o primeiro exemplo dessa capacidade inata de dar o que a canção pede.

Com um timbre sedoso que transmite uma certa inocência, o músico de Los Angeles voltou a dar cartas com “Waitlist”, mostrando as tais qualidades anteriormente mencionadas. Aviso: o single de estreia a solo é impróprio para os sentimentalões.

– Alexandre Ribeiro

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