#ReBPlaylist: Março 2017

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Direitos Reservados

Março foi um mês absolutamente incrível em termos de música e a prova está nas escolhas da equipa ReB. Gorillaz, Ângela Polícia, Djonga, Maze & Daddy-o-Pop, Kendrick Lamar e Yves Tumor representam o ecletismo e a contínua expansão dos universos das rimas e batidas – e deixámos de fora nomes como Wet Bed Gang, Holly Hood, Joey Bada$$, Logic ou GROGNation, por exemplo. Não há fome que não dê em fartura.

Se o terceiro mês de 2017 foi produtivo, Abril, mais concretamente o dia 7, promete marcar profundamente o ano – saibam mais aqui. Enquanto não chegamos lá, façam um throwback com os textos assinados por Hugo Jorge, Amorim Abiassi Ferreira, Gonçalo Oliveira, Alexandra Oliveira Matos, Nuno Afonso e Rui Miguel Abreu.

 


[Djonga] “O mundo é nosso” (feat. BK)

Um dos rostos da nova geração do hip hop brasileiro, Djonga estreou o primeiro disco a solo este mês, Heresia. É a partir de Belo Horizonte, cidade onde a cena hiphop pulsa com especial intensidade, que Djonga fala sobre a transformação, tão inevitável quanto necessária, da sociedade e, por consequência, do rap brasileiro. Diversidade é a palavra de ordem para quem defende um lugar de destaque para os negros, dentro e fora do mundo da música.

E é exactamente aqui que a ideia de heresia ganha vida – é um disco que diverge do status quo, ao mesmo tempo que o desafia: (“Sejamos Abraham Lincoln, independência / com a pele de Barack Obama!”). Por isso, não é difícil de antecipar que este seja o álbum referência para o resto do hip hop brasileiro ao longo de 2017. Está feita a previsão.

Produzido por CoyoteBeatz – parceiro de Djonga no colectivo mineiro Dv Tribo – “O mundo é nosso” morde com as letras e inova nos trocadilhos: (“Homem negro, inferno branco, tipo Tarantino / homem branco, inferno banto, tipo, tá tirano”). As referências a cinema (“Django” de Quentin Tarantino) e religião (candomblé bantu, fé de origem africana) servem de analogia para uma realidade desequilibrada, onde (“os menó, ta desesperado, tipo atirando”), enquanto Djonga tá (…”querendo salvar o mundo”) perante a indiferença daqueles que o rodeiam (“ela pergunta: tá zoando?!”).

Heresia não é uma novidade em termos sonoros, variando entre o boom bap e um trap em versão light. Que isto não vos distraia da riqueza das mensagens de Djonga, antigo MC de batalha com um talento enorme para desconstruir o que o rodeia. E por falar em talento, sobra espaço para BK – que no ano passado lançou o não menos impressionante Castelos & Ruínas – emprestar a voz ao refrão. É obrigatório ouvi-los.

Hugo Jorge


[Gorillaz] “Ascension” (feat. Vince Staples)

Foram sete tenebrosos anos de espera, mas Humanz está quase aí. “Tenebrosos” porque a relação tensa entre os criadores, Damon Albarn e Jamie Hewlett, ia sendo a grande razão para não existir um novo disco. E, mesmo assim, o trabalho de Gorillaz tem envelhecido tão bem (estou a ignorar o The Fall propositadamente, claro), que este tempo parece ter passado num salto.

Os Gorillaz têm chamado convidados desde a concepção da banda virtual. Era natural que esta fosse a vez de Vince Staples se chegar à frente. Um arranque marcado com uma buzina numa música que nunca deixa de soar urgente e desconfortável, quer pela batida, quer pelos acordes ou pelo flow de Vince a adaptar-se ao frenético instrumental que apenas se acalma para o rapper pontuar o último e bem amargo verso.

Amorim Abiassi Ferreira


[Maze & Daddy-o-Pop] “Começar de Novo”

Longe vão os tempos em que Maze nos abria “o trinco da porta do labirinto”, mas as rimas do rapper dos Dealema não deixam de nos apontar caminhos. “Começar de novo” é a música lançada em Março que junta dois gigantes da história do hip hop tuga, Maze e Sam the Kid, a Daddy-o-Pop.

Podemos começar pelo beat. Simples, com uma vibe bastante old school e um cheirinho a Primavera. Sam The Kid não desilude e tem dado batida e espaço a muitos rappers na sua TV Chelas. Mas, calma, não é caso para dizer “O beat matou-te” (música do álbum Pratica(mente) que na reedição também com a participação de Daddy-o-Pop). Maze é dono da primeira parte da música e transporta-nos para a métrica a que nos habituou desde os anos 90. Certeiro, autobiográfico e optimista, o rapper da Invicta convence-nos a viver o presente. Na ideia fica-nos, parece, a promessa de novos trabalhos, quem sabe de surpresa como o primeiro álbum a solo, lançado em Maio de 2016.

Já tínhamos ouvido rimar Daddy-o-Pop ao lado de Sam the Kid em músicas como “Motivação” e “Jungle Fever”, mas não há mais participações do rapper a povoar o YouTube e as que refiro já têm mais de meia dúzia de anos em cima. Talvez por isso a primeira rima diga “como uma criança que acaba de nascer, eu vou começar a respirar”. Com rimas mais vazias que as de Maze, quem sabe se estes não serão os novos passos de Daddy-o-Pop no rap e uma meta de trabalhos a solo traçada.

Em resumo, uma música bem-disposta, fresh e de boas-vindas a uma primavera ainda bastante tímida.

Alexandra Oliveira Matos


[Ângela Polícia] “Submundo”

O “Submundo” é, de facto, um bom lugar para as crianças brincarem. E por crianças, entenda-se artistas, claro. Seres dotados dessa fértil imaginação que lhes permite, essencialmente, não ter medo de explorar novos e diferentes sons.

Ângela Polícia é um desses casos. Embora não seja propriamente um novato na música, foi este o mês que escolheu para se lançar a solo num disco. Pruridades foi editado com o carimbo da Crate Records, um selo a manter debaixo de olho face à fervilhante criatividade que por lá se vai fazendo escutar. Os próximos meses irão certamente confirmar estas palavras traduzindo-se em novas edições.

Como já me calhou dizer em conversa, imagino o Ângela Polícia como uma espécie de Slow J em ácidos. Aquela voz meio áspera embrulhada num flow que por vezes é falado e por outras é cantado. Aliada à audácia de experimentar novas texturas sónicas, que fazem do seu trabalho final um verdadeiro bolo musical.

Pruridades tem fortes linhas de baixo que entram a rasgar, inúmeros devaneios electrónicos e uma orgânica muito semelhante àquela que encontramos em bandas de indie rock. No entanto, foi com recurso aos fundamentos do hip hop – tanto os técnicos como os morais, da partilha e da mistura – que Ângela Polícia decidiu moldar o seu projecto. É, sem dúvida, uma das pérolas do “Submundo” que pudemos coleccionar este ano.

Gonçalo Oliveira


[Yves Tumor] “Limerence”

Patrão maior no que diz respeito à mais recente experimentação na electrónica, o norte-americano Yves Tumor é mais que um produtor. É um xamã dos tempos modernos, um expressionista urbano irremediável. A prová-lo ficou um disco não menos que soberbo intitulado When Man Fails You. Aí deparamo-nos com um um submundo onde os ecos da música industrial, e os seus vapores tóxicos, se enlaçam na sensualidade e envolvência de um léxico ambiental, orgulhosamente lo-fi, de coração aberto a gravações de rua e samplagem crua, devidamente dissecados e maximizados, extraindo a mais pura das suas naturezas.

“Limerence” evoca uma paisagem holística, entre o onírico e o balsâmico, onde vozes do subconsciente se fazem estalar e crepitar em fogo lento. Surpreende pela ausência de um ritmo identificável, seja por drum machine ou bateria orgânica, apelando à nossa imaginação um compasso 4/4 difícil de explicar, mas de imediata conexão. Já Miles Davis dizia, e adaptando uma tradução livre: não é o que fazes, mas aquilo que não fazes. Na próxima semana teremos oportunidade de o ver no Lux, inserido na BoCA – Bienal of Contemporary Arts, a oferecer magia como ninguém.

Nuno Afonso


[Kendrick Lamar] “Humble”

“Humble”, de Kendrick Lamar, é o mais recente sinal de que algo com o inconfundível carimbo de K Dot poderá de facto aterrar dentro de dias no planeta terra (e possivelmente em mais umas quantas galáxias por esse universo fora, que os aliens são tudo menos surdos…).

“Humble” chegou acompanhado por um extraordinário vídeo de Dave Meyers (um realizador com créditos mais que vincados na indústria) que é em si mesmo um objecto artístico capaz de impor as mais diversas leituras: de King Kendrick em vestes papais a uma recriação da última ceia em que os apóstolos parecem ser caricaturas de rappers populares, há de tudo em “Humble”.

Mas são as palavras de Kendrick que realmente importam aqui: depois de “The Heart Part 4” ter levado muitos a pensar que a letra continha ataques subliminares a Drake, agora a Internet parece estar convencida que é Big Sean o verdadeiro alvo das farpas do rapper de Compton. Kendrick, na verdade, tirou o anoo para afirmar que é o maior rapper vivo, o GOAT deste jogo, e pela amostra junta este novo disco vai ser mais de ataque do que de introspecção, mais feito de bangers para auscultadores do que de exercícios para convencerem críticos de jazz que o hip hop também é relevante. Seja o que for que se revele no próximo dia 7 de Abril, a verdade é apenas uma: Kendrick veio para arrasar. Ora prestem lá atenção às entrelinhas deste nada modesto “Humble”, sentem-se, sejam modestos e tentem encaixar todos os golpes desferidos por aqui…

Rui Miguel Abreu

 

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