#ReBPlaylist: Maio 2015

[FOTO] Direitos Reservados

 

Verão na esquina e a turma do Rimas e Batidas a entregar-se aos BPMs que pedem uma caipirinha na mão e o corpo a soltar-se de agruras. O mês de Maio foi fértil no lançamento de composições electrónicas e techno nas suas mais complexas e infinitas camadas – umas mais obscuras, outras mais abertas ao mundo. Estes são os sons que impressionaram cada um de nós ao longo deste quinto mês de 2015.



[Art Crime] Show Interest
(Obsession EP, Phonica Records)

Se encararmos a pista de dança como um simulacro de viagens guiadas pelo som – que é simultâneamente um destino e a mothership que lá nos transporta – então “Show Interest” é aquele primeiro instante em que notamos já estar algures suficientemente longe, onde “tudo” pode finalmente acontecer. Uma bassline arpegiada, emocional mas sintética, atira-nos para um momento de activação sem retorno – real, sem gimmicks ou ondas de ruído branco. As atmosferas cósmicas e os rasgos de melodia completam a ilusão – a única verdade, neste nosso Universo que é Mente. Enorme segundo trabalho do russo Art Crime que se estreou no ano passado através da editora W.T. Records, de Willie Burns, e agora encontra novo público através do braço editorial da loja de discos e instituição londrina Phonica Records.


[L’Orange & Jeremiah Jae feat. Gift of Gab] All I Need
(The Night Took Us In Like Family, Mello Music Group)

Presente no álbum The Night Took Us In Like Family, de L’Orange e Jeremiah Jae, esta faixa é uma lufada de ar fresco para o hip hop, fazendo jus àquilo que são os conceitos originários do movimento. Uma produção que  não só utiliza extractos de vários géneros musicas como amostras radiofónicas que definem o tom de toda a música. Ao mesmo tempo, uma escrita feita a quatro mãos, onde dicção, métrica e rima acompanham os passos do instrumental, criando uma atmosfera rítmica repleta de atitude.


[Senyawa] Menjadi
(Doser 05 LP, Morphine Records)

Fogo ritual da Indonésia na editora que se prepara para editar o novo de Charles Cohen. Tambores, cânticos, cordas sob pressão, convocação de almas penadas segundo o livro mais tribal da cena industrial dos 80s. Jornada negra no Extremo Oriente.


[DJ Ly-COox] Good Wine
(Cargaa 1, WARP)

DJ Ly-COox tem assinado algumas das tracks mais emotivas da Príncipe Discos e “Good Wine”, no primeiro volume da série Cargaa na Warp, é realmente inebriante. Dá vontade de dançar na areia ao pôr-do-sol, com copo na mão e sorriso nos lábios. Baleárico sem levar o rótulo, tropical, sexy e envolvente. Good wine, mesmo!


[Miguel] Coffee (F***ing)
(Wild Heart, Edição em Breve)

Felizmente, a operação de limpeza radio-friendly da “Coffee” não se limitou apenas à substituição dos pontuais “fucking” por “coffee“, como tratou também de apagar quaisquer vestígios do Wale que atiravam com a versão dirty para a fronteira do insuportável. Como alguém apontou com toda a razão no ILM, “Coffee” trata-se de um verdadeiro Kaleidoscope Dream – pairando naquele estado pseudo-alucinatório entre a vigília e o sono, quando os primeiros raios de Sol inundam o quarto, “Coffee” reveste-se de uma aura quase psicadélica, numa névoa de harmonias espectrais que se enredam num torpor apaixonante. E nos deixa cada vez mais expectantes para Wildheart – com edição prevista para o final de Junho. Prince pode entregar as chaves do Paisley Park.


[Caroline Lethô] Ethics
(Eter, AVNL Records)

Eter e o primeiro EP de Caroline Lethô, nome próprio Carolina Mimoso, na portuguesa-via-Berlim-e-Londres AVNL Records. Ecos garage, atmosferas IDM (em bom) e o lado mais elegante do techno cantam em unissono neste four-tracker cheio de melodias de mistério que conta com uma colaboração com Rhocis aka António Moura. Lembra o início da Skull Disco, refrescada e adaptada à década em que vivemos, adicionando uma camada de inocência que escasseia demasiadas vezes na música de intenção mais escura. Kudos extra por haver mais uma rapariga portuguesa a lançar o seu trabalho. Precisamos de mais. Acusem-se ASAP.


[Niagara] Arruda
(Ímpar EP, Príncipe Discos)

Para dançar na pista ou dentro da cabeça, para partir à descoberta dos caminhos que se fazem entre os neurónios e os músculos das pernas e dos braços, para pensar nas linhas que unem o que sentimos e o que desejamos, o que já vivemos e aquilo com que se sonha. Esta música dá para quase tudo.


[JME feat. Giggs] Man Don’t Care
(Integrity>, Boy Better Know)

Malha do terceiro álbum de estúdio do irmão de Skepta (uma espécie de Kanye West do grime no Reino Unido), “Man Don’t Care” dispara contra tudo e todos num riff resgatado a um qualquer shoot-em-up de arcadas e um beat que se faz notar nas vibrações das vidraças de um qualquer quarto de onde se solta o som nascido nas ruas de Tottenham, no norte da grimmy London. É de chamar a malta, reunir na amizade, pressionar o play num qualquer carro e deixarem-se consumir – num cenário-wannabe “All Day“.


[Pender Street Steppers] – The Glass City
(Glass City / Golden Garden EP, Mood Hut)

Entre as melhores impressões deixadas em labels como a Peoples Potential Unlimited e a Mood Hut, o produtor canadiano continua a registar momentos de coolness infinita. “The Glass City” é mais um exemplo do estado imaculado em que surge a sua cosmic disco ambiental. Plena de detalhes elegantes, a faixa guia-se através de uma melodia discreta que, sem procurar qualquer espécie de crescendo, vai ganhando altitude à custa de diversos extras rítmicos. A existir uma compilação soalheira para este verão de 2015, a presença de Pender Street Steppers deverá ser não menos que obrigatória.


[Mike El Nite] F.E.N.A. II
(Vaporetto Titano, Self-Released)

Numa breve pesquisa no Google sobre Vaporetto Titano, (praticamente) todos os caminhos vão dar a Mike El Nite. E é nesta mesma localização geográfica do panorama do rap nacional que ele deve estar com este EP. O single, “F.E.N.A. II”, que viu a luz do dia numa versão mais extensa com direito a videoclipe, surge como uma daquelas colónias de bactérias que não conseguimos aspirar das nossas carpetes, e pelos melhores motivos. Entre o gaming, drogas, pedaladas de bicicleta e até mesmo cinema japonês, Mike dá-nos a visão de um movimento hip hop que se está a degradar aos poucos. Preocupante? Nem por isso. Até porque é o próprio MC que nos desvenda a solução deste quebra cabeças bem ao jeito de um mosqueteiro: um por todos e todos por um (ou por “isto”, movimento hip hop), sempre com um toque de egotrip, misturado com o mais variado tipo de conhecimentos que o mesmo aspirou com este hit de televendas nacional.

Numa altura em que parece que o som vai terminar num jogo de sílabas bem ao estilo do seu criador, eis que Mike nos dispara com: “Porque a vida é legalize se houver mais produtores / E se houver mais produtores com mais sick instrumentais / Somos todos construtores, mas alguns com Lego a mais / Nah, todos jogadores, mas alguns com lag a mais”.

Estamos na presença de um “abre olhos”, uma forma original de nos fazer ver que a competição pode ser saudável quando se tem em conta a união de todo um movimento.

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