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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 27/04/2026

De volta ao "seu" Porto.

Raquel Martins: “Mais do que ver a ‘casa’ como um sentimento que se perde, começo a ver isso como um acrescento”

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 27/04/2026

Raquel Martins regressa a Portugal para apresentar LONDON, WHEN ARE U GONNA FEEL LIKE HOME?, o seu primeiro álbum, a 28 de abril, num concerto no Teatro Rivoli, no Porto — cidade onde nasceu.

A esse respeito, referiu que “o espaço para o erro é a coisa mais importante nos concertos”, tentando sempre levar a atuação para um novo lugar. O Rimas e Batidas falou com a artista que tinha acabado de chegar à sua casa, em Londres, depois de uma tourné internacional na comitiva do rapper Loyle Carner. A conversa perseguiu, sobretudo, as ideias de casa e de amizade expressas no disco, mas abordámos também o seu “puzzlezinho de influências” e o desafio de transpor o que está gravado para o palco. Por fim, ainda houve tempo para assinalar a entusiasmante cena musical ibérica, suspirar por um regresso a Portugal e lançar um olhar sobre o mundo.



Esta é a segunda vez que apresentas o teu álbum em Portugal, depois do Lux Frágil em Novembro

É a terceira. Estive no dia 2 de abril no Teatro Aveirense. Lancei o álbum e fiz o concerto de apresentação aqui em Londres. Depois estive a fazer a tour com o Loyle Carner. Fiz algumas aberturas e toquei na banda. Estivemos em todo o sítio — estivemos na Austrália e um pouco por todo o lado. Entretanto, estive a escrever imenso. Por isso, também estou agora a acabar o próximo projeto. Está a ser um bocado maníaco. Ando a escrever muito e a produzir. Tem sido ótimo: escrever enquanto estou na estrada, escrever quando volto a casa. E agora já está tudo a ganhar forma. Ou seja, já estou outra vez no processo. 

O que podemos esperar para este concerto no Porto e que diferenças haverá em relação ao Lux? 

Eu adoro a produção. Estou super interessada nas coisas do espetáculo ao vivo, porque numa música que tenha duzentas stems não vais conseguir recriar tudo — não há budget para todos os músicos tocarem. No fundo, como é que recrias uma coisa? Às vezes nem precisa da mesma instrumentação, mas como é que consegues, com instrumentos diferentes, recriar a mesma emoção? Sinto que vou perder sons, que nunca mais vou conseguir recriar a maior parte dos sons que estão naquele disco. Então a questão é: como é que consigo agora, com o saxofone, recriar a mesma emoção? Na prática, é só alterar o quadro mensageiro, mas a intenção é a mesma. Tem sido muito interessante trabalhar assim sobre o disco. No início parecia quase uma missão: temos sons e samplers, como é que vamos fazer isto? Acho que agora chegámos a um sítio, a um sweet spotzinho. É bom que os concertos sejam uma experiência diferente do disco. Nós fazemos o concerto com uma mesa no meio e com imenso equipamento. É difícil quando tocas guitarra e não tens as mãos livres para tudo, mas somos três e temos uma mesa cheia de coisas — é muito divertido. Eu divirto-me.

Por ocasião do lançamento do disco, falavas muito em desconexão com a cidade e os amigos. Qual a importância de apresentar o teu primeiro álbum na tua cidade? 

Pois, pois. [risos] Essa parte é sempre wow! Quando eu vim para Londres, no início eu estive sempre muito focada aqui — muito presente. E quando percebi “espera aí, eu vou tocar as minhas cenas em Portugal”, foi um processo, como digo sempre, muito reparador. Porque parece que integra as coisas. Eu vim para Londres para fazer música e agora vou a Portugal com a minha música. Então parece que, de alguma maneira, integra os dois mundos. Ainda há pouco estive um bocadinho no Porto, quando tocámos em Aveiro, e é óptimo. Tu sabes como é que é, estamos com os amigos e vemos a cidade a mudar. A sociedade mudou imenso e o Porto mudou imenso. É muito reparador e faz-me sentir bem. Quero continuar a preservar essa ligação a Portugal e a tocar aí. Adoro o que se está a passar agora em Portugal.  

O teu disco move-se em torno da ideia de casa. Sentes-te em casa no Porto ou essa ideia de casa é já mais um sentimento do que um lugar? 

Acho que uma pessoa tem muitas casas diferentes. É uma coisa que ainda tenho dificuldade em perceber. Este mês estou um bocadinho em transição, e não é um sentimento que adore. Sei lá, é quase como uma relação: é a nossa casa durante algum tempinho. É o teu porto seguro e depois as coisas acabam, mudam, mudas de sítio. Tenho encontrado mais paz nessa definição. Se eu agora quiser ir passar dois anos da minha vida ao Brasil, de certeza que vou encontrar uma casa. Ou seja, mais do que ver a “casa” como um sentimento que se perde, parece que começo a ver isso como um acrescento. Se eu for para o Brasil, posso encontrar mais um porto seguro. Londres já é um porto seguro, talvez mais do que se eu tivesse casa no Porto — mas o Porto também é um porto seguro. Acho muito importante honrar isso e não pensar nesta lógica de substituição, mas ser mais um acrescento. Nunca tinha pensado nisto assim. 

Esperas ter amigos ou familiares entre a plateia, e qual o significado disso para ti?

Sim, sim. É super fixe. Eu acho que uma pessoa está sempre tão distante e há muitas pessoas que eu não vejo… sei lá, essas pessoas com quem nós crescemos, ficamos conectadas com elas para sempre. Posso não ver certos amigos durante imenso tempo, mas se alguma coisa acontecer na vida deles… Sabes, é aquela coisa de estares na escola e até de pessoas de quem não sou assim tão amiga sei perfeitamente como são os avós deles. Por nos irem buscar à escola ou coisas assim. Acho que há uma ligação super especial — é o contexto. As amizades de casa, acho que elas têm contexto, que é uma coisa que aqui em Londres não acontece. Aqui conheço pessoas mas, se calhar, nunca vou conhecer o contexto todo, a não ser que depois se faça essa ponte. Na infância, nós temos acesso ao contexto puro dos amigos e é muito raro experienciares isso depois na vida adulta. Vai ser fantástico. Ainda por cima eu cresci nessa zona, na baixa. Vai ser muito bom! 

Dizias que este álbum reflete o que se passa dentro da tua cabeça. Por exemplo, nos textos sobre o teu trabalho fala-se muito de “caos organizado”. Identificas-te com essa ideia?  E a música ajuda-te a organizar esse caos?

Sim, cem por cento. A música ajuda sempre a organizar o caos. Na minha cabeça há muita coisa a acontecer ao mesmo tempo, o que é ótimo. Mas acho que a música é sempre um lugar de foco. No show ao vivo gosto de ter espaço para o erro. Acho que o espaço para o erro é a coisa mais importante nos concertos. Claro que há sempre a estrutura e todas essas coisas que nós trabalhamos. Mas também há umas secções abertas que geram novas coisas. Por exemplo, com o saxofone, a guitarra e os pedais eu não sei o padrão que aquilo vai gerar. Eu adoro esta ideia de pôr coisas orgânicas na eletrónica, não controlar quando toco uma nota da guitarra e não saber qual o padrão que vai surgir. É giro ter isso, desbloqueias emoções novas. Posso tocar música sobre um loop com notas diferentes e isso abre paletas diferentes. Para mim é super importante, até como estímulo. Estrutura sim, até porque reflecte como eu sou, super estruturada — horários, rotinas — mas depois há essa margem para brincar. Eu gosto de ter esse espaço no set ao vivo.

Isso traduz-se em concertos diferentes, únicos. 

Sim, sim. É a mesma coisa quando vais a um restaurante que adoras com os teus amigos e depois queres recriar a surpresa com outras pessoas — vai ser sempre diferente. Quando estás obcecado com aquela primeira experiência, nunca é bom. Então é deixar as coisas surgir. Eu venho desse background. Cresci aqui em Londres a ver a muita coisa improvisada, por isso teria sempre dificuldade em estar numa coisa super estruturada. E até já estive, quando tocava para outras pessoas e quando estive em tourné em coisas mais pop — nesse contexto acho que faz sentido essa estrutura. Porém, eu gosto de ter um balanço. Ao mesmo tempo acho que ter tudo improvisado pode tornar-se numa coisa não intencional. Ou seja, a intenção ou é caos ou é a estrutura. Para mim, a intenção nestas coisas é muito importante. 

Ainda há uns dias, depois de cantares o B Fachada no programa No Ar da RTP, ouvi o baterista que te acompanha dizer que devias fazer um disco em português. O que sentes sobre isso e qual o papel da língua na tua criatividade? 

No momento criativo a língua tem que ser fiel com o que eu estou a sentir. Por exemplo, eu quando vim aqui para Londres, numa adolescência mais tardia, aprendi a expressar-me aqui. Experienciei muitas coisas pela primeira vez aqui. Portanto, quando estou a falar delas faz-me sentido em inglês. Eu tenho conectado muito com Portugal e há muitas primeiras coisas que eu vivenciei aí. Aliás, eu tenho isso no disco: “CALMA!”. Queria muito que o disco pintasse uma imagem em que estou em Londres e está tudo a acontecer. Um caos, uma ansiedade, e ali a guitarra e a voz são o centro. Era um pouco como eu me sentia na altura. Na música estou a falar comigo e com o meu subconsciente. Isso é uma coisa que eu ainda faço em português, tipo: “calma, está tudo bem”. Enquanto à volta está tudo a acontecer em inglês. Por exemplo, a cena do Kendrick Lamar no To Pimp A Butterfly, que é super jazzístico, ele tem imensas personagens e cada uma representa certas coisas. O meu português no disco representa o meu subconsciente. Coisas muito de mim para mim, íntimas. Acho muita piada a isso. Nas coisas novas que tenho feito o português também surge, talvez num papel diferente, mas acho que é natural. Não me percebi disto até ter feito. Ficava: “Isto saiu-me em português. Que cena! Mas porquê?” Depois percebi que quando estou mesmo ansiosa sai-me o: “Acalma-te!”. São coisas que estão em mim e acho bom a música representar isso. 

São duas vozes diferentes? 

Acho que são versões diferentes. No disco eu fiz as vozes todas e há um processamento vocal mais grave que representa uma coisa mais ansiosa, mais raivosa — adoro essas coisas. Se calhar, metade das pessoas… quer dizer, não é metade, é 98 por cento das pessoas não vão perceber. Mas muito devido a esse álbum do Kendrick, acho o processo bué fixe e consegues perceber muita coisa da tua cabeça. Não é assim tão fora como eu estou a dizer, é só divertido ver emoções. Eu adoro psicologia, dá para explorar muita coisa. Não sei… 

O teu disco apresenta um arco narrativo. Além disso, falas do momento criativo como uma espécie de terapia. Isso resulta mais da produção ou das letras dentro da tua música? 

A produção dá sempre para expandir as coisas, independentemente do que dizem as letras. Posso estar a dizer uma coisa muito feliz, mas posso ter ali uma coisa de produção tensa. Consigo desenvolver muito as coisas e isso interessa-me imenso. Foi uma muleta para esse processo todo. Depois desta entrevista, vou entrar aqui neste mundo e posso explorar de uma maneira segura o que estou a sentir. Como também em algumas músicas eu não sabia o que se estava a passar e depois fui fazer a letra e percebi. Quase uma sensação de terapia, uma espécie de soco na cara que me mostra o que estou a sentir. Ou seja, ajuda muito a desorganizar-te e, depois, também a organizar-te. Penso que qualquer pessoa que produza música sente que é sempre um momento de contorno. É relaxante poder organizar as coisas com calma. Se calhar nem toda a gente vê assim, mas acho super interessante esta coisa de receber informação e depois colocares informação na música. Não sei, é giro. Costumo começar a escrever com coisas que eu não entendo. Por exemplo, estou a tocar guitarra e aparece-me um acorde que eu nunca toquei e abre ou faz-me sentir uma coisa que eu nunca senti — isso dá-me curiosidade e vou atrás disso. Desbloqueia-se ali qualquer coisa. Outras vezes também acontece, como neste álbum, coisas em percussão. Eu gosto de criar uma vibe com algo que eu não perceba muito. Da mesma maneira, quando estudei guitarra jazz, às vezes, sentia que era uma seca perceber tudo. Há uma fase no processo de estudo que é entenderes tudo, mas sempre achei isso um bocado frustrante. Por isso, tenho experimentado coisas na guitarra que eu não sei. Acaba por ser um processo super misto. Também acontece escrever uma frase daquilo que eu ando a ler, por exemplo, e fico tipo “uau esta palavra quer dizer isto”, e começo por aí.



Revelaste numa entrevista ao Rui Miguel Abreu para o Rimas e Batidas que descobriste uma nova forma de fazer música. Qual é?  Como chegaste lá? E de que forma isso também te mudou enquanto artista?

Definitivamente, a música que faço agora é super fiel ao que eu estou a sentir e de uma maneira muito mais livre. E, de certa forma, talvez não tão estruturada. Estou a encontrar muita liberdade no não saber o que é a música. A música pode ser só um verso e está tudo bem. A minha maneira de catalisar isso é guiar-me pela emoção em si, o que me dá muito mais respostas. Sinto que estão sempre dentro de nós as respostas para estas coisas. Estou muito mais a olhar para dentro. Talvez tenha a ver com confiança. No início procuramos sempre mais referências. Cada vez mais, sinto isso do “o que é que eu quero mesmo fazer?” Sinto-me muito mais confortável com o meu processo e não estou tanto a olhar para os lados para perceber. 

Musicalmente, há uma mistura de elementos muito diferentes — eletrónica, jazz, MPB. Sabemos que adoras o Milton Nascimento, mas que outras referências e inspirações te conduziram a este trabalho? 

No disco também notei que andava a ouvir muita música japonesa. Há um artista que se chama Cornelius, ele tem muita influência dos videojogos. Muito samlpezinho. Adoro e até nem sei muito bem descrever essa música. Outro artista que ninguém conhece, ele é coreano, chama-se Mid Air-Thief, a produção dele é incrível mesmo — e ninguém sabe quem ele é. 

Como chegas a esses mundos tão longínquos e desconhecidos? 

Estou sempre, sempre a ouvir música. Adoro ouvir música nova e, principalmente, quando são assim coisas diferentes. Depois, é incrível perceber os crossovers que há no outro lado do mundo, num estilo completamente diferente, e ver que as pessoas estão a fazer coisas parecidas. Apesar de virem de lugares completamente diferentes, chegam a conclusões muito parecidas. Ainda no outro dia um amigo, que é muito mais da escola dos Radiohead, todo prog-rock e tal, traz-me o Daniel Rossen dos Grizzly Bear, que me parece, sei lá, o João Bosco a tocar guitarra. Ou, por exemplo, da mesma maneira que o Milton e os Beatles estão ali lado a lado. Claro que o Milton, efetivamente, adorava Beatles e foi influenciado. Acho que isso é super interessante. É mesmo bom as coisas não serem globalizadas e, apesar disso, chegares à mesma conclusão. Adoro esta coisa de chegar a conclusões novas. Se é que alguma vez chegamos a conclusões novas. Não existe ninguém com o mesmo puzzlezinho de influências que tu. Mas em relação à forma de fazer música quero ser o mais eu possível. Dessa forma, acho que dá um resultado sempre novo. Estou diferente de há três anos atrás. Se as pessoas se conectarem com essas referências todas, opá, que sorte! Que sorte isso estar acontecer. Para mim, esta coisa dos shows e as pessoas virem é tipo “uau!”, e não tomo nada disso como garantido. 

Acompanhas a cena musical em Portugal e identificas algum artista que esteja a pisar os mesmos territórios que tu? 

Eu estou super dentro. Acho mesmo que todos temos influências diferentes. Por exemplo, um amigo meu, o Herlander, adoro a cena dele. É super livre. Estou muito entusiasmada por ele. Fez agora um concerto e adorava ter ido. A cena dele é mesmo fixe e mesmo livre. Além disso, ele é uma pessoa incrível. Estou muito entusiasmada para ver o que ele vai fazer. Acho que, cada vez mais, haverá artistas assim, acho que é uma cena que vem da confiança. Sabes, como em Espanha, eu adoro a música de Espanha. Talvez seja a música que eu mais ouço neste momento. Eles estão com muita confiança. Querem fazer coisas que soem a eles e novas. Já não querem versões de coisas que se passam fora. Claro que isto começou tudo com a ROSALÍA. Mas músicos como o Ralphie Choo ou o Guitarricadelafuente, esse pessoal todo, acho que estão a fazer uma coisa muito especial. Adoro pensar que nós também. E que conseguiremos alcançar essa exportação. Essa cena mais alternativa — não alternativa no sentido do rock — acho que isso é uma coisa nova. Tenho muita vontade de passar mais tempo em Portugal, como tenho passado. Fazer música aí acho que é super fixe. 

O teu concerto em Lisboa foi descrito como uma extensão do teu espaço de criação. Isso é intencional? 

Uau, não tinha ouvido isso. Acho que isso é uma coisa boa não é? É a extensão do disco, talvez. Se alguém disse isso, eu fico contente. Tento levar o concerto para outro lugar, porque o que está feito, está feito. Por vezes estamos a cantar coisas que já ganharam significados diferentes e as músicas de repente viajam para outros lugares. É bom fazer jus a isso e não estar a tentar perseguir uma cena que já aconteceu. Estar presente — acho que as pessoas também sentem isso. 

É preciso alguma coragem, diria, para expor esse momento da criação ou para abrir assim a porta ao risco.

Não sei se é coragem ou se é só cabeça hiperactiva. Mas sim.  

Também nessa entrevista, em Setembro, dizias que não pensaste nos concertos ao vivo quando estavas a criar o disco e que até poderia causar-te alguns problemas. Como resolveste isso?

Foi só focar na intenção por trás das coisas. O disco tem muitos synths. Eu adoro sound desgin e de repente aquilo fica em salas diferentes e é difícil de reproduzir. Então foi concentrar nas três ferramentas que temos, bateria, saxofone e guitarra — são mais na verdade — e isso força-nos a focar na intenção. Construir as coisas dessa forma é um desafio muito bom. 

Foste sublinhando a importância das pessoas à tua volta. Quem são os músicos e os instrumentos que estarão no concerto?

Vou tocar com os músicos de sempre. O Tomás Parada na bateria que foi a primeira pessoa que eu conheci em Londres. É muito meu amigo. Por acaso, vamos ter um substituo que é um saxofonista que se chama Mark Cake e vai ser super fixe. Estamos a experimentar o set up e está tudo muito bom. 

Percebemos que as músicas mudam mas que o objectivo é manter a intenção inicial. Isso de alguma maneira abre portas novas e muda a tua relação com as canções? 

Sim. Estava a pensar que até já aconteceu em palco eu ficar tipo: “ah, uau, que giro! Isto agora é outra coisa!” Às vezes tens acesso a essas coisas em tempo real. Do género: “Isto está a levar-me para outro sitio que nunca me tinha levado.” Conseguir ter acesso ao vivo a esse momento acho que é fixe. 

Viver em Londres também te coloca em contacto com um mundo diverso, multicultural e em tensão — as guerras culturais e as sanguinárias, a polarização do discurso, a retórica do absurdo. De que forma isso entra — ou não — na tua música? Há coisas que decides não pôr na música, ou esse espaço é totalmente aberto?

É um espaço sempre aberto. Às vezes a música pode ser um refugio, um espacinho seguro no meio de tanta tensão. Outras vezes, é um espaço para libertar essa tensão. Penso que tudo é político no que fazemos. Absolutamente tudo. Portanto, há pessoas que o fazem na cara e de forma mais literal, outras que o fazem de uma maneira mais codificada. Eu vou sempre comunicar apenas o que estou a sentir. Acho mesmo que tudo é super político. O mundo está todo um caos e não nos podemos esquecer que a música tem o super poder, nestas alturas, de chegar a pessoas de maneira não filtrada. Há tanta informação que chega de forma diferente e na música chega diretamente. Ao mesmo tempo, se calhar, também há coisas mais importantes a acontecer. Por isso, acho que é sempre um misto destas duas coisas. Se fores um pessoa que, naturalmente, te preocupas com isso, como eu acho que sou, acaba por se refletir. Porque é uma coisa que te move, que está dentro de ti e que precisa de se libertar. É muito difícil manter essa informação toda aqui dentro. Não dá para ignorar, nem quero ignorar. Acho que temos um super poder enquanto artistas e é importante canalizar de uma maneira que faça sentido. No fundo, é praticar o máximo de honestidade com a música e com a nossa vida. Mas está tudo um caos honestamente.  

Estás há oito anos aí, deves ter assistido ao crescimento dessa tensão. 

Sim, com momentos muito bons também. Londres estava mais evoluída do que Portugal em algumas coisas. Há alturas em que o ambiente é mais positivo e há mais abertura em relação a algumas coisas e ao progresso. Outras em que há passinhos para trás. Estou a ver isso em Portugal também. Houve coisas aqui que também me pareceram super assustadoras, mas depois suavizou. E penso: será que em Portugal também vai ser assim? Os extremos são estados que eu vejo como temporários. Quer dizer, espero eu!  

Estando a viver em Londres e a actuar assiduamente com o Loyle Carner, quais são os teus planos ou expectativas para a rodagem deste disco? 

Há sempre espaço para tudo. O meu projeto é sempre o meu espacinho. Está a ser óptimo experienciar estas coisas ao pé dele porque eu adoro-o como pessoa — somos amigos. Penso que não interfere uma coisa com a outra, são experiências que só adicionam. 

Disseste que fazias as aberturas dele com o teu álbum?

Sim. Foi ótimo, fiquei muito agradecida por ele mostrar essa abertura. Faço as primeiras partes dos concertos. 

Tocas com muita gente ainda?

Já não. Até fazer o álbum estava a tocar para muitos artistas, mas parei. Estava a precisar de parar e fiz o álbum. Fiz agora esta tour com o Loyle porque é ele e adoro-o. Adoro o projeto e fez sentido. Pareceu-me uma boa oportunidade para crescer e experimentar coisas novas com pessoas que são incríveis. Aliás, toda a gente é incrível. Mas não me imagino a tocar para outra pessoa. É uma coisa que está acontecer agora, mas sinto que a minha cena me dá muito mais. Ou seja, é o que eu gosto de fazer. Adoro estar em casa a fazer música.

Criar em nome próprio é algo que queres continuar a fazer no futuro?

Sim, e tem sido o presente também. Isto do Loyle acho que… É fixe tirarem-te da rotina e uma pessoa só aprende. Mas foi assim uma exceção porque eu já estava bem parada há muito tempo. Essa coisa de andar para todo o lado, não me estava a permitir… quer dizer, estava a criar-me mais confusão do que estabilidade. Acho que é normal isso. Temos agora estes concertos em Portugal, depois vou à Alemanha. Ou seja, estou a rodar o álbum de uma maneira que também me permite estar agora escrever coisas novas.

Que coisas novas são essas? Será que vamos ouvir algumas já neste concerto?

Neste não, este será um concerto assim mais curtinho. Estou a adorar escrever. Eu sou muito mais de estúdio, por isso acho que está a ser óptima esta fase. Adoro este processo. Tocar ao vivo é óptimo e também adoro. Mas não sei, é o que eu te digo, adoro a rotinazinha, estar no mesmo sítio sem me mexer muito. 

Sendo tu mais de estúdio, tocar para tanta gente, como nos concertos do Loyle, faz-te confusão?

Não me faz confusão mas eu gosto de voltar para casa. Acho que é bom, motiva-me. Sei lá, sabes, Londres é tão fixe e às vezes sinto que não estou aqui tempo suficiente. Mas também se ganha muita coisa na estrada, é divertido. São fases da vida, experiências. Estou super entusiasmada para fazer isso com o meu projeto, acho que vai ser diferente. 

Não te passa pela cabeça mudares-te para Portugal tão cedo?

Tão cedo não. Mas quero. Quero muito quando fizer sentido. E já está a fazer cada vez mais sentido. 

E faz sentido pensar num público português para a tua música?

Eu adorava. Faz todo o sentido por causa daquela coisa do contexto que eu disse há pouco. Acho que uma pessoa portuguesa tem muito mais contexto sobre as minhas referências do que se calhar uma pessoa do outro lado do mundo. Creio que não existe uma definição do que é a nossa música, mas toda a gente tem um ponto de vista diferente. Isso é fixe. No entanto, eu quero continuar a tocar em Portugal, continuar a estar presente. Quero trabalhar com artistas aí. Adoro o que se está a passar em Portugal. Tenho muita vontade de mandarmos Portugal mais para o mundo. 

Não sentes uma certa claustrofobia em Portugal por ser demasiado pequeno e, como referem muitos artistas, chegar demasiado rápido ao tecto?

Penso que não. Há tanta coisa para se fazer e, além disso, eu acho que pode não haver tecto. A partir do momento em que abrimos um bocadinho a cabeça para a exportação esse tecto desaparece. Não sinto que haja tecto aqui. É, aliás, a minha coisa preferida em Londres. Sinto até que, com esta coisa nova, neste estilo alternativo pop, o tecto ainda não foi definido. Uma pessoa não sabe e isso é muito entusiasmante. Acho giro comparar com Espanha porque é uma referência super perto e, nesse sentido, também lhes poderia parecer claustrofóbico. Depois a ROSALÍA aparece, abre aquilo tudo e não há limite. E ela ainda não está no tecto dela. Sou alérgica a tectos [risos]. Não sei, acho que é bom fazer as coisas sem pensar muito nisso. A música boa vai sempre sobreviver a essas coisinhas todas. 

Classificarias a tua música ou a classificação é “simplesmente” Raquel Martins? 

Gostava de caminhar para aí. O lugar mais livre de um artista é quando tem o seu som. Para mim sempre foi. Da mesma maneira que o Sampha colabora com a Solange, ou James Blake colabora com a ROSALÍA, sei lá, e são pessoas que têm o seu som. Consegues perceber o que eles têm por trás mas são pessoas que tem uma identidade tão chapada que soa sempre a eles. A Björk é uma óptima referência. Quando assim é podes fazer o que te apetecer. Eu só quero fazer o que me apetecer. Gosto de pensar em referências quando estou a fazer música, mas no final do dia, acho que o caminho mais livre é o de encontrarmos o nosso som. 

Então se alguém te classificar como uma artista do jazz, ou da eletrónica, não te chateias? 

Acho que isso seria falso. Eu estudei imenso jazz, mas será que é isso? Na música que eu faço, gosto é de misturar tudo. Seria um pouco mau sinal se essa classificação fosse fácil. 

Também gostas de vestir a pele de musicóloga, ou de investigadora para consultar o passado? 

Sempre. O contexto só dá mais força e informação para o futuro. É como na história, na política, como em tudo. Se uma pessoa não souber o que veio de trás é provável que chegue a uma conclusão que já foi feita. Eu entrei muito nessa cena do Milton, do Minas, do Toninho Horta, do Beto Guedes, esse pessoal do Clube da Esquina — estava muito nessa vibe. Imagina uma pessoa que ouça isso e nunca tenha ouvido Beatles, não vai perceber nem o contexto nem as referências. Gosto sempre de perceber as referências das pessoas e estou sempre a tentar descobrir música nova. Incluindo música que se passa agora. Há sempre muita coisa a aprender. Gostava de ter mais tempo para estar a descobrir música nova todos dias. No fundo, eu faço isso um bocado.


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