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Fotografia: Miguel Fernandes / Teatro das Figuras
Publicado a: 29/05/2026

De volta ao Sul, directo à alma.

Quarteto de João Paulo Esteves da Silva n’Os Dias do Jazz’26: além desse País Distante

Fotografia: Miguel Fernandes / Teatro das Figuras
Publicado a: 29/05/2026

O festival Os Dias do Jazz’26 encerrou no passado domingo, 24 de Maio, no Club Farense, com o pianista e compositor João Paulo Esteves da Silva em quarteto. Formação refeita, agora composta por Julian Argüelles nos saxofones tenor e soprano, Rodrigo Correia no contrabaixo e José Salgueiro na bateria. Uma arrebatadora forma de findar as linguagens das notas azuis sob as canículas que se instalam, também a sul. 

Será que também nesses lugares, desse País Distante (Artway, 2025), álbum último de João Paulo (nome pelo qual é mais conhecido no jazz), o ar era sufocante? Tem a música capacidade de fazer refrescar e de desempoeirar? O Clube Farense, instituição cultural de 1863, dá uma preciosa ajuda, como palco para o concerto e retemperador na aragem, na resistência da baixa de Faro. Instalado no Solar dos Pantojas, edifício secular seiscentista, e que passada a fachada de pilastras, soco e cimalha com platibanda, permite aceder ao seu interior sumptuoso de salas intercomunicantes, que convidam a um pausa. Há na chegada a um lugar como este como que uma passagem para um portal, pelo menos na ideia, de aceder a um país que já quase se extingue — um país mais distante. Numa cidade que vai sobrevivendo e resistindo como pode às tentações destrutivas da mancha do turismo e das suas neo-edificações. Hoje são as pressões sobre o município para ceder a outras funções — que não as devidas e culturais — da Antiga Fábrica da Cerveja. Corre o Movimento Pela Fábrica, apelando à necessidade de manter o velho edifício de paredes ocres de Faro ao serviço da cultura, evitando a sua venda, apelando à subscrição de uma petição. Local que alberga a sede da Associação Recreativa e Cultural de Músicos de Faro, e a outra parte é utilizada por muitas associações culturais e artísticas locais para realizarem eventos. Lembramos a propósito Silva Grade e o seu legado em denúncia com “O Algarve Tal Como o Destruímos”.

O concerto serviria à partida de apresentação do álbum País Distante. Mas quando se volta a reunir um quarteto para a música de um pianista é bem provável que a música avance a uma velocidade maior da que está patente na obra. “Juntámos-nos para gravar um disco, e irão seguir-se outros” começa por comentar João Paulo no final do primeiro tema em palco. “Samba Leve”, tema não inscrito e que surge na comemoração do tempo em que regressado a Portugal se deu conta a escrever uma música que agora recupera para o renovado quarteto. Como após concerto melhor revelou, em entrevista ao Rimas e Batidas: “Estive bastantes anos em França e a certa altura a música que me começou a aparecer, e que eu sentia como minha era uma música que eu queria fazer com o pessoal de cá. Com o José Salgueiro, com o Jorge Reis (que entretanto morreu, infelizmente)”. E esta música já é outra aliás, tropicalidade cruzada com a portugalidade melancólica que caracteriza o pianismo de João Paulo. 

Prosseguem, em palco, num arranque em frases melódicas a desembocar em ressoares na voz do saxofone tenor de Arguëlles, preceitos que levam o pianista ao primeiro mergulho piano adentro, para harpejos directos nas cordas. São abstrações improvisadas, acometidas por composições em tempo real. “Não quer dizer que não apareçam estruturas, canções, harmonias e tudo. É chamada free — no verdadeiro sentido da palavra livre, música livre. Mas agora surgiu-me a vontade — o Julien [Arguëlles] está a morar em Portugal, ele tem uma sensibilidade que se adapta bem aquelas minhas complexidades harmónicas de aqui há trinta anos”, refere-nos na entrevista João Paulo e que o tema “Adeus América” melhor revela. As pontuações no prato invertido de Salgueiro, que tudo converte a par do groove do contrabaixo de Correia, viram-se num embalo de matéria ligante. Uma canção em homenagem ao rock’n’roll antecedido por uma improvisação, como apresenta o timoneiro do quarteto em palco. “Conduz-se a música em direcção aos temas, e sai-se dos temas com música feita na altura. É este o modus operandi deste disco [País Distante]” onde se escuta em seguida esse tema da América. Mas esse país daqui é mesmo Portugal, dúvidas houvessem e detalha-nos na conversa que “o título País Distante, surgiu também nesse sentido de ter estado distante e voltado ao país distante. Tem várias leituras [pausa], também a sensação dos portugueses viverem longe de si  próprios, mais que outros povos. Dão a volta ao mundo para se encontrarem e quase nunca chegam ao pé de si mesmos; [a de] Portugal ser um país distante de si mesmo.”

“Só Com o Seu Coração” — outro dos temas escutados em palco para além do disco — parte de uma nova improvisação construída a quatro. Um piano incisivo e abstracto, um saxofone (agora soprano) em textura, cerdas de arco no contrabaixo e miniaturas percutidas, servindo de bandeja para como que um fado swingado às escovas da bateria. Tornam-se notáveis os uníssonos entre o piano e o sopro soprano. Tratam-se de variações em torno de uma ideia vinda da leitura do poema contido em — livro único de António Nobre. Uma história contida na descrição do poeta na sua ida — quiçá em amores levado —, de visita ao convento para os lados de Coimbra, em Tentúgal. “Venho ao convento visitar a linda freira. Nunca lhe falo: talvez, hoje, a vez primeira… Vou lá comprar um pastelinho, que eu bem sei”. A música instrumental enraizada na ideia explicada das palavras. Uma portugalidade distante que se encontra expressa nas sonoridades ao piano de João Paulo. 

“Na altura em que surgiu o tema do disco… Estava programado na minha cabeça como um disco que nunca existiu — só existiu agora. Na altura em que foi composto não existiu. Tivesse existido e ter-se-ia já chamado País Distante. Ainda bem que não existiu, porque eu gosto muito deste agora. E este agora, finalmente, é que se chama País Distante. Não sei quem mexe nos cordelinhos, mas a distância entre o projecto e a sua concretização também faz este lado, do País Distante. Está tudo certo.” E fica tudo bem entendido, como a distância tanto se refere ao espaço, como ao tempo. Eis que surge no alinhamento “País Distante”, como tema, mesmo que e precedido com mestria de uma improvisação. Arranca com um solo de Salgueiro — nesse seu jeito tão seu —, com aquelas paragens no tempo em modo irónico (como o fez dos Gaiteiros de Lisboa aos Tim Tim Por Tim Tum). Mas no tema-título do álbum é sobretudo Correia e o seu groove no contrabaixo que nos vai fascinar por completo. Alguém que poderá chamar de mestres e professores aos seus colegas de palco, mas que lhes dá o mote e um ímpeto destemidamente. Chama-os para o seu caminho e eles vão porque esse aponta mesmo na direcção que mais importa. Abrem, de forma escancarada, as portas do futuro, da sua música e talvez a de muitos. 

País Distante foi gravado no Studios La Buissonne, no sul de França perto de Avignon, onde tantos e  muitos outros artistas e discos foram registados, Louis Sclavis e Benjamin Moussay gravaram lá o recente Unfolding (ECM). Tentando saber até que ponto se trata de uma sala que acaba por ter influência na música que se vai lá gravar, mesmo que já venha escrita, responde João Paulo que: “É a sala, o piano que lá está e sobretudo o técnico — o Gérard de Haro — que tem uma escuta excepcional para certo tipo de música e que pede esse certo tipo. Ele é fantástico, é das melhores pessoas que faz som no mundo.” E isso encontra-se inteiramente em disco, de facto. 

Voltariam a aparecer na majestosa sala do Club Farense para um extra, num grande final. Nem eles sabiam o que os esperava. Afinal estiveram sob o incerto, no campo da improvisação — lá onde a música os levar. “É mesmo não ter medo do desconhecido. Mas também já tenho uma certa idade e tornei-me especialista da improvisação livre. Durante uns anos, além de escrever canções, deixei de escrever música para tocar em combos de jazz. Quando reuno pessoas para tocar improvisação é mesmo…”, é mesmo nisto que dá — acrescentamos nós as palavras que João Paulo deixam em suspenso na entrevista. Ter estado ali para algo que foi extraordinário, e eles próprios deram conta disso, e quando confrontado com aquele grande final, respondeu serenamente: “Foi uma improvisação, nunca se sabe o que vai acontecer e acho que aconteceu qualquer coisa de especial ali”.


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