Pye Corner Audio: “Dois lados de um disco de vinil tendem a levar a minha mente a focar-se”

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Alan Masters

Martin Jenkins tem já uma longa relação com a Ghost Box, a editora de Julian House e Jim Jupp que continua a defender como ninguém a bandeira da hauntologia, género de electrónica tipicamente britânico que cruza memórias  televisivas, library music, krautrock, psicadelismo, música concreta, abstraccionismos ambientais e algo mais, com o Radiophonic Workshop, Boards of Canada ou Broadcast por óbvios faróis.

Hollow Earth, terceiro registo de longa-duração de Martin no catálogo da Ghost Box, cimenta uma discografia bem mais vasta (lançou na sua própria Pye Corner Audio Transcription Services, na Ecstatic, More Than Human ou TDO — e isto para mencionar apenas as etiquetas em que lançou álbuns…) que tem explorado uma memória analógica com uma atitude vincadamente autoral. Na conversa tida por email, Martin analisa a sua primeira década de criação como Pye Corner Audio, o lado ideológico ou conceptual da sua música e a relação altamente produtiva e criativa que mantém com a Ghost Box.



Em 2019 assinalas uma década de espantosa produtividade. Em 2010 lançaste o primeiro volume da série Black Mill Tapes. Olhando para trás, para esse momento, o que dirias que se alterou no teu processo criativo, na tua carreira?

2010 foi um ano de grandes mudanças para mim: fui pai, arranjei um novo emprego e mudei-me para uma nova casa, numa nova cidade. Penso por isso mesmo que tentei simplificar outros aspectos da minha vida, incluindo os meus processos criativos. Na altura reduzi tudo a um velho sintetizador monofónico, a uma caixa de ritmos e à minha unidade Chorus-Echo. Acho que estava a tentar eliminar a tirania da escolha, já que isso levava muitas vezes à procrastinação.

Em 2010 estavas basicamente a definir uma abordagem, a erguer um conceito. Achas que te mantiveste fiel a essas ideias que sustentaram os teus primeiros passos como Pye Corner Audio? O que mudou no teu “livro de estilo”?

Tentei manter-me rigorosamente fiel a essa abordagem inicial, embora o meu estúdio tenha crescido desde então. Continuo a começar cada faixa da forma mais simples que consigo imaginar, acrescentando camadas à medida que vou avançando na produção. Mas temo que o meu sistema modular seja terrível para a anteriormente mencionada procrastinação!

A tua relação com a Ghost Box começou imediatamente após os teus primeiros passos em 2010 quando lançaste, juntamente com Advisory Circle, um single na Study Series, em 2011. O que é que te levou até à etiqueta naquela altura e o que que é que contribuiu para a manutenção da longa relação que aí nasceu?

Eu já era fã da editora há algum tempo se a memória não me falha. Lembro-me de se acender uma luz na minha cabeça quando escutei o que a Ghost Box e a Mordant Music andavam a fazer nesse tempo. Senti-me em sintonia com a estética que professavam, por isso quando fui convidado para fazer o meu primeiro concerto no âmbito do Belbury Youth Club da Outer Church, em Brighton, agarrei a oportunidade com energia. E uma coisa acabou por levar à outra…

Muito se discutiu então sobre as noções de hauntologia, de retromania. Exactamente de que forma é que esse debate intelectual te marcou como artista? Andavas a ler o que pessoas como Simon Reynolds ou K-Punk escreviam e a deixar que essas ideias filosóficas informassem de alguma maneira as tuas produções?

Não estava tão consciente assim de tudo aquilo como parte de um movimento nesse tempo e só comecei a ler o que o Simon Reynolds e o Mark Fisher andavam a escrever mais tarde. A morte do Mark representou uma enorme perda.

Então, e falando agora de Hollow Earth, o novo álbum: dirias que seguiste um conceito base para este trabalho?

O conceito parte de usar a ideia de exploração subterrânea como uma metáfora para a auto-reflexão.

Lançaste Sleep Games e Stasis na Ghost Box antes deste novo álbum. Achas que o Hollow Earth é uma continuação desse trabalho?

Sinto definitivamente que há uma linha condutora entre o Stasis e o novo Hollow Earth. Tentar alcançar o vazio e depois regressar, olhar para baixo, para dentro.

Fazes algum tipo de distinção nas tuas criações quando estás a trabalhar para a Ghost Box ou quando recebes convites para trabalhar para outros catálogos? Também lançaste material na Ecstatic ou na More Than Human, por exemplo...

Sim, é verdade, tendo explorar diferentes facetas no trabalho que apresento a diferentes editoras. É divertido experimentar e eu gosto de moldar o meu som de acordo com o catálogo a que se dirige, quando se trata de editoras com estéticas muito vincadas. Um bom exemplo disso é o EP que fiz para a Analogical Force, Island of Ghosts.

E quanto ao suporte físico em que possas estar a editar novo trabalho, saber que vais lançar em vinil ou cassete afecta de alguma maneira a tua produção? Em 2018 voltaste a lançar em cassete com a tua edição na TDO, Five Years in The Dark. Se não estou em erro já não lançavas novo material em cassete desde o quarto volume da série Black Mill Tapes

Bem, não exactamente. Embora eu obviamente prefira formatos físicos, o suporte final é sempre definido pela própria editora. Tendo dito isso, devo confessar que as limitações impostas por dois lados de um disco de vinil tendem a levar a minha mente a focar-se.

Fizeste um split album com Not Waving e por alguma razão sempre pensei que fosses homem para colaborar mais, mas isso não aconteceu propriamente, pois não? Sempre pensei, por exemplo, que acabasses a criar algum tipo de projecto com o Jon Brooks depois de terem feito aquele single split na Ghost Box… alguma vez se falou sobre essa possibilidade?

Não, mas aquele LP split com Not Waving levou a uma frutuosa relação de trabalho e a uma grande amizade com o Alessio (Natalizia) e com o Sam da Ecstatic Recordings. Muitas vezes descubro que é complicado colaborar à distância. Seria sempre preferível para mim estar num estúdio com alguém, mas isso nem sempre é exequível. Devo, porém, dizer que há uma colaboração a tomar forma com um companheiro que também é artista da Ghost Box, mas ainda é cedo para adiantar mais detalhes.

Voltemos ao Hollow Earth: numa primeira audição soa-me a uma espécie de cruzamento entre as ideias da hauntologia e da cena baleárica. É uma espécie de banda sonora para um filme de ficção científica situado num paraíso tropical e filmado em 1983 ou algo que o valha. Isto faz algum sentido?

Gosto dessa descrição, uma espécie de baleárica assombrada! Talvez tenha aberto espaço para mais algumas influências entrarem no processo de produção da música desta vez…

Podes revelar quais as ferramentas que usaste neste novo trabalho?

Os instrumentos usados incluem a reedição do Korg Odissey, o Roland System 100M, Vermona DRM1 drum synth, Suzuki Omnichord, Eurorack Modular system, Roland RE-501 Chorus Echo e uma montanha de pedais de efeitos.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu