Poesia, rap e intervenção

[TEXTO] Rute Correia [FOTO] Direitos Reservados

Somos um país de poetas. Aqui, a música e a poesia andam de mãos dadas desde a primeira dinastia, enraizadas em ideais de amor, de amizade, de escárnio e maldizer. Ainda que a nossa herança lírico-musical remonte à era medieval, a tradição mantém-se bem viva, com a música a assumir um papel central em movimentos de mudança social e cultural em Portugal. Não obstante existirem indústrias bem mais oleadas (maiores e mais fortes) do que a nossa, serão, certamente, poucos os países que se poderão orgulhar e dizer que a música mudou literalmente o curso da sua história. Na celebração do 43º aniversário do 25 de Abril de 1974, viajamos entre versos, batidas e ritmos diversos, e enquadramos o hip hop como a força de expressão maior da música de intervenção em Portugal nos últimos 25 anos.

Para começar, é importante realçar que existem vozes dissonantes vindas de outros recantos do universo musical português, mas o que se ouve do lado do hip hop parece chegar sempre mais vincado. Talvez pela natureza contestatária do movimento, é difícil pensar num álbum que se diga de hip hop que não traga pelo menos um tema que se debruce sobre questões sociais. Mais do que isso: se noutros estilos é recorrente tropeçarmos em referências a problemas como o desemprego, a pobreza ou a corrupção, no hip hop, o espectro de temas abordados é bem mais alargado e, regra geral, também mais fracturante. Não é preciso procurarmos muito para encontrarmos versos sobre tráfico de drogas, violência ou racismo. De certa forma, o rap tuga tem sido notável em trazer para a ribalta problemas que teimam em ficar escondidos nas franjas da sociedade, seja por falta de tratamento mediático ou simplesmente fraca mobilização da população.

Em linha com a importância que teve para o reconhecimento da cultura hip hop no nosso país, Rapública marca o início da viagem. Longe da ligeireza de “Nadar”, a compilação trazia linhas particularmente críticas da sociedade da altura. O hino de verão assinado pelos Black Company inundou as rádios nacionais, mas a boa disposição contrastava com a postura incendiária de outros refrões. Pela voz dos Zona Dread ouvia-se “Só queremos ser iguais, não ser menos nem ser mais”, denunciando o racismo instalado na capital e respectivos subúrbios. No ano seguinte, os Black Company lançam Geração Rasca, o seu álbum de estreia, e um título em descarado desafio à estrutura instalada.

Nos anos 90, Portugal estava em profunda transformação. Se, por um lado, os fundos comunitários da UE alavancavam a construção e melhoria de infraestruturas a quase todos os níveis, por outro, questões como o despovoamento do interior e as assimetrias das periferias em relação aos centros urbanos acentuavam-se. Pela primeira vez, deixava de ser um país de emigrantes para se tornar num país de imigrantes, num processo que se iniciara com a descolonização. Se hoje Lisboa se pode orgulhar da maneira como a herança multicultural da sua população tem reflexo na sua cena musical, há vinte anos, o início desta relação não se fez sem uma boa dose de luta, mas a segunda metade da década trouxe a força necessária.

Já por aqui se falou da importância e no impacto dos Da Weasel não só no hip hop, mas na música nacional; o percurso da banda de Almada está intimamente ligado à contestação social. Ao segundo álbum, estabeleciam-se como um grupo de referência e voltavam a imprimir uma forte carga de intervenção no seu trabalho – algo que já vinha de trás com “Educação (é Liberdade)”. Em 1997, “Todagente” serviu de cartão de visita de 3ºCapítulo e chegou com uma força que ninguém conseguia prever na altura. Com referências ao processo de independência de Timor, à hipocrisia social e à apatia da maior parte da população em relação à criação de mudança, o single destacou-se, também, por relembrar que as campanhas anti-racistas do final da década continuavam aquém das expectativas.

 


“toda gente grita todos diferentes, todos iguais,

mas se calhar há uns quantos bacanos a mais”.


Para alguém que já viveu em vários subúrbios lisboetas, não é preciso grandes explicações sobre o porquê do racismo ser um dos tópicos recorrentes de contestação no hip hop nacional, mas vale sempre a pena reflectir. As periferias construíram-se, em grande parte, graças aos imigrantes das ex-colónias e respectivas segundas gerações. A herança africana vem estampada na pele; num país com um passado colonialista demasiado recente, isso não passa despercebido. O racismo em Portugal continuava (e continua) a ser quase invisível para os cidadãos brancos, mas vive entranhado nas paredes do sistema. Ainda falta muito para sarar as cicatrizes da história desenhada pelos nossos antepassados; há quinze anos, faltava muito mais.

Por esta altura, o hip-hop nacional já fervilhava há alguns anos, mas a viragem do milénio trouxe uma série de versos (e discos) que ainda hoje ressoam dentro e fora do movimento. Em 2001, Sam The Kid lança o segundo trabalho, Sobre(tudo), um álbum particularmente denso e um marco da música nacional, com vários refrões a censurar a estrutura social vigente. No ano seguinte, os Mind da Gap tornavam-se os “Suspeitos do Costume”, denunciando a corrupção da classe política com “P.O.L.I.T.I.C.O.S.” e a inércia de uma burguesia autista com “Socializar por Aí”. Em 2003, chega mais um álbum de estreia a rasgar a ferida sempre presente.

 


“Filhos de afro-emigrantes conhecem África pelos telejornais

Euro-negros segregados, já nascidos estereotipados

Também conhecem outras Áfricas à margem das cidades”


Estes versos são retrato dos “Nossos Tempos” de Valete, mas quase todas as estrofes de Educação Visual chegam com palavras dilacerantes sobre o estado da sociedade portuguesa, dando protagonismo à segregação racial e aos problemas associados: violência policial, gravidez adolescente, delinquência juvenil e a falta de oportunidades generalizada das comunidades de ascendência africana no nosso país. Às portas daquele que foi um dos investimentos nacionais de maior visibilidade (e controvérsia), o Euro 2004, o Sol Música e a SIC Radical dão alta rotação a mais uma chamada de atenção para os guetos erguidos à volta da capital.

 


“De perto ou de longe, qualquer ângulo, qualquer plano eu faço o zoom

É a realidade dos guetos que aqui se resume

Na escola não se lê

Não mostra na TV

Mas só quem não quer é quem não vê

National Ghettographik, Lisa, Margem Sul e r.e.g”.


O alarme soava vindo da Arrentela pela voz de Chullage, naquele que é um dos temas mais lancinantes do hip-hop português. E se dúvidas há sobre o impacto que a exposição mediática da realidade do subúrbio teve na comunidade, diz quem lá vivia que quase se tornou um ritual todos se juntarem para ver o vídeo passar na televisão. No mesmo ano, também Xeg mergulhava “Nesse Dia”, restolhando à volta da realidade de o desemprego e a falta de habilitações serem um círculo vicioso em meios pouco abastados, como a periferia.

Em todos os anos que vão de 1994 a 2017 há versos que merecem destaque, mas 2006 foi especial. As métricas de protesto chegaram mais aguçadas que nunca e espicaçaram quase todos os recantos das desigualdades do dia-a-dia português – Sam The Kid e Valete lançavam Pratica(mente) e Serviço Público, respectivamente.

 


“E eu sou a percentagem que a sondagem nunca mostra

Eu sou a mente exausta da miragem mal composta

Eu sou a indiferença e a insatisfação

Eu sou a anti-comparência, eu sou abstenção!”


Além de terem alterado para sempre a paisagem do movimento, ambos os discos elevaram o discurso de oposição. Os mundos urbano e suburbano assumem-se, de novo, como pilares principais da construção rimática, mas há novos tópicos e argumentos que vão muito além da análise aos efeitos da desigualdade nos subúrbios que se empilham, imponentes e desesperados, à volta de Lisboa. Fala-se de abstenção, da promiscuidade das relações internacionais e da legitimização dos sistemas instalados através da desinformação e deseducação.

 


“Submarinos! Paulo Portas!

Paulo Portas! Submarinos!”


A ardileza dos MCs do Norte também atirou várias vezes ao alvo dos vários escândalos políticos acumulados pelos governantes nacionais. A solo ou em conjunto, assumem sem pudores: “dizemos o que temos a dizer, fazemos o que temos a fazer, doa a quem doer”. Em 2007, os Dealema aproveitavam o seu V Império para relembrar que, na verdade, andamos todos distraídos com o que a cultura portuguesa nos impinge de raiz. “Portugal Surreal (Fado, Fátima, Futebol)” é, ao mesmo tempo, um retrato e uma caricatura exímia dos esquemas que minam quase todos os níveis da nossa sociedade. No mesmo ano, também os Da Weasel aproveitavam várias faixas do seu último álbum a desconstruir vícios e podres de vários tipos, tocando em temas como a emigração ilegal e o tráfico humano.

 


“O problema desta cidade é a criminalidade? – Não

O cimento, o cinzento, ou o graffiti novato? – Não

Os assaltos? O medo? Becos apertados? Disparos? As mil tabuletas de “perigo de morte” em todo o lado ou quase? A oscilante luz vermelha e azul nos bairros? – Não

O fumo das armas? O fumo do tabaco? O fumo dos carros? Os autocarros? Comboio? O metro à noite? – Não

O problema desta cidade é que eu não vejo o horizonte!”


Estala o escândalo do BPN e a crise – estamos em 2008. A cidade asfixiava os sonhos de Nerve em a “Última Noite”, mas ele não estava sozinho. À medida que Portugal submergia no nevoeiro de Pactos de Estabilidade e Crescimento, austeridades e resgates do FMI, a lírica dos poemas que rappers deitavam cá para fora continuava pesada. No mesmo ano, Maturidade aterrava nas rádios e televisões cá da terra envolto num sentimento soul e r&b, mas nem isso foi desculpa para que NBC se inibisse de dedicar algumas quadras à idealização de um mundo mais justo para todos.

O início de uma nova década também marcou uma nova fase do hip hop nacional. O género ganha um reconhecimento alargado para lá de si mesmo e há uma nova escola de MCs que encontra o seu espaço no palco principal do movimento.

 


“Portugal, Nasceu o jardim plantado à beira mar

Nasceram Morangos e Floribellas na campa de Salazar”


2011 marca o regresso de um dos poetas mais crus da música nacional: Allen Halloween edita A Árvore Kriminal pondo fim a um jejum de cinco anos. Numa ressurreição ímpar, oferece uma visão particularmente sombria da realidade. Com várias referências à herança do período colonialista, ao Salazarismo, à perniciosidade da ligação entre o Estado e a igreja católica, à violência das ruas, à toxicodependência, à prostituição… Enfim, aos recantos mais sujos e degradantes da existência humana; Halloween escarafuncha, de forma inflamada e precisa, a angústia dos que ficaram esquecidos pelas frestas de uma sociedade que é sempre mais para uns do que para outros.

A desigualdade vive assente em dicotomias de vários feitios: o branco vs. o preto, o emigrante vs o nacional, a cidade rica vs. o subúrbio pobre, o homem vs. a mulher. Num país onde ainda se ouvem poucos retratos no feminino, Capicua é a excepção à regra e condensa todas as oposições enumeradas nas rimas d’ “A Mulher do Cacilheiro”.

 


“E entre toda aquela gente,

Ela é só mais uma preta.

Só mais uma emigrante.

Empregada da limpeza,

Só mais uma que de longe vê a imponência imperial

Do tal Terreiro do Paço da Lisboa capital”


O tema é um dos vários em que Capicua faz mira aos desequilíbrios sociais. Uns anos antes, a sua língua afiada tinha atacado como poucos o problema do desemprego jovem qualificado em “Os Heróis”. Do mesmo lado da barricada, Mike El Nite chegou em jeito de agitador dos tempos modernos, com dicas que remetem para uma acção imperativa. No seu primeiro longa-duração, assume-se como O Justiceiro e desdobra-se em análises e críticas a vários segmentos da sociedade, dedicando a sua missão a mais de metade do alinhamento.

 


“Eles querem tapar os teus Horizontes

Manda-os para o caralho, man, não deixes”


Enquanto Portugal se reinventa e tenta sair de mais uma crise particularmente profunda, o movimento borbulha com rasgos de lucidez e tiros certeiros aos buracos que se abrem pelos dias portugueses. A lista desenrola-se com a força de quem tem a certeza do que está a dizer. No ano passado, Keso reafirmou o seu papel de trovador de protesto ao lembrar-nos que “onde cabem corpos, cabem sonhos” e que “ser honesto é um defeito sério” nestes nossos tempos envoltos em névoas de corrupção e hipocrisia. Já este ano, em The Art of Slowing Down, Slow J delineia com traços de génio as várias faces do que os últimos anos nos deixaram, dedicando refrões às esperanças e desilusões que rechearam a sua vida, e a vida de todos nós. Afinal, todos queremos uma “Vida Boa”.

Numa daquelas coincidências que alguns considerariam irónica, o nosso primeiro rap de intervenção não chegou à música nacional embrulhado em batidas pesadas. “Escrito assim de um só jorro numa noite de Fevereiro de 79”, “FMI” de José Mário Branco é, para mim, o primeiro exemplo de freestyle contestatário da nossa história musical; isto apesar de ter noção que o contexto em que surge é quase paralelo ao do aparecimento do hip hop em Portugal.

Como se disse no início deste texto, não haverá MC digno desse nome que não tenha emprestado pelo menos meia-dúzia de versos à denúncia de um sistema injusto. Posto isto, o que por aqui foi referenciado é simplesmente uma amostra dos testemunhos que os rappers nacionais nos têm deixado no último quarto de século. Pelo caminho, ficaram tantos poetas por nomear e incontáveis estrofes por citar.

43 anos depois da revolução que nos devolveu a democracia (ainda que escandalosamente imperfeita), queremos saber quais as rimas que avivam os vossos desejos de revolução.

25 de Abril, sempre! Fascismo, nunca mais!

 


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