Num tempo em que as fronteiras parecem crescer — não nas delimitações geográficas e administrativas, mas nas narrativas e nos discursos quotidianos —, Pedro Mafama continua a fazer o movimento inverso. Aproximar, misturar, provocar encontros. “Gandaia”, o novo single que o junta a Petty, (ex-Buraka Som Sistema), nasce na Quinta do Mocho, atravessa Luanda e regressa a Lisboa como um objeto musical difícil de fixar num género e que junta a rua e a tradição numa música que é tão local quanto global.
A base parte da batida de Lisboa, através de Diiony G, produtor ligado ao universo da Quinta do Mocho, juntando um sample de “Galandum” — uma recolha de Michel Giacometti em mirandês —, eletrónica de recorte europeu, e um verso de kuduro explosivo com a participação de Petty. Fizeram ainda parte da construção da música o Pedro Gerardo, Sónia Trópicos e Púrpura, com a produção executiva de El Condutor (também membro dos Buraka Som Sistema. “A música foi andando um bocado de contradição em contradição até tudo colar no final”, explicou Mafama ao Rimas e Batidas.
Se em Por Este Rio Abaixo ocupou Lisboa com o seu “trap-fado” e em Estava no Abismo mas Dei um Passo em Frente transformou o país numa pista de baile, “Gandaia” inscreve-se num momento diferente na carreira do cantautor. Os singles mais recentes “milésimo de segundo”, “PALMAS”, “ikea” e “Minotauro” têm apontado para uma fase de tensão entre introspeção e celebração, entre a dúvida existencial e a farra, entre o trabalho e o existencialismo da vida moderna.
O próximo álbum “está a ser uma procura muito profunda e sem limites”, diz Mafama sobre um trabalho que parece não conhecer uma fórmula ou um conceito fixo numa palavra ou num género — mas antes o trajeto de um artista que não conhece barreiras, seja na sonoridade, nos lugares físicos onde podem viajar as suas canções ou na possibilidade de furar novos públicos.
“Temos todos tanta conversa para ter e tanto em comum que só faz sentido haver esses encontros,” disse-nos ainda Pedro Mafama durante uma videochamada que transcrevemos de seguida.
Qual é a história desta música?
Esta música começou com uma ida à Quinta do Mocho. O Marfox quis-me apresentar produtores novos que ele sente que têm imenso potencial na Quinta do Mocho, e o Helviofox foi um desses produtores a quem eu comprei uns beats. O “Gandaia” surgiu da desconstrução desses beats. Sou grande fã da batida de Lisboa, da batida do gueto, e interessou-me muito juntar uma batida do Diiony G com um sample português em mirandês de Trás-os-Montes, uma recolha do Giacometti, e juntar esses dois universos. A música depois foi uma sucessiva junção de camadas. Tens a base da batida, o sample português, uma eletrónica super experimental em cima e depois um verso de kuduro clássico. Essa junção e esse trabalho de camadas foi uma coisa que me interessou fazer aqui.
Como é que depois chegou ao resto das pessoas que estiveram envolvidas, e como é que foi esse processo até chegar à Petty?
Foi realmente um trabalho de andar de sítio em sítio a buscar novas visões e perspetivas muito diferentes para trabalhar esta música. Hoje em dia isso interessa-me muito como processo. Mais do que uma ou duas pessoas trabalharem numa coisa, interessa-me que passe de mão em mão e de sítio em sítio, literalmente. Ou seja, esta música viajou desde a Quinta do Mocho até ao meu estúdio e até Luanda, e essa colagem de diferentes mãos e diferentes olhares é uma coisa que me tem interessado muito e que está refletida nesta música. Depois o meu trabalho é um trabalho de edição e de fazer essas coisas todas ligarem-se.
E, em termos mais concretos, o que é que dirias que foram esses diferentes olhares? O que é que as perspetivas de cada pessoa envolvida te deram? O que foi complementar entre a Quinta do Mocho, Luanda e o teu estúdio?
Tudo começa com uma boa base e com uma coisa que me interessava, que era perceber: como é que eu consigo abordar e integrar qualquer coisa deste universo da batida, do qual eu sou fanzaço. Se calhar no início nem pensava necessariamente usar o beat tal como estava, mas mais as texturas da batida, que também elas próprias são uma sucessão de camadas. A forma como os produtores deste universo trabalham é muito em camadas. Alguém faz um sample, exporta, já está a uma velocidade diferente, e é uma colagem de texturas de vários sítios. O material base era super rico. E foi acontecendo um bocadinho de contradição em contradição. Pegar num beat de batida e pôr um sample português de recolha super rural em cima. Depois juntar isso com uma eletrónica super clean e quase francesa de gosto. Depois perceber que podia haver um diálogo interessante entre esta senhora que está a cantar o sample do refrão em mirandês e uma vocalista de kuduro a partir tudo ritmicamente. A música foi andando um bocado de contradição em contradição até tudo colar no final.
Uma reflexão que tinhas muito presente na entrevista que deste ao Rimas e Batidas em 2024 com o João Mineiro, eram as tuas próprias dúvidas se esta missão de juntar mundos é possível e quais são os limites que a música pode ter nesse processo. Como é que vês isso agora?
A arte serve justamente para isso. Para juntar coisas que não vês tão possível de juntar no dia-a-dia. E a partir do momento em que vês um objeto, uma música, em que essas coisas estão juntas, aquilo torna-se possível. Podes pôr ideias no mundo que gostavas que existissem. Mesmo que a missão não seja sempre cultural ou social, estamos sempre a tentar pôr uma coisa no mundo que ainda não existe, seja um pensamento, uma forma de dizer algo que até a ti próprio te reconforta. Isso tem-me acontecido muito na escrita — escrever para digerir certos pensamentos que me incomodam e são difíceis de processar. A música e a arte devem ser um campo de documentação de coisas que, se calhar, no mundo real são difíceis de acontecer. A música proporciona essa experiência. Com o pretexto de fazer a minha música tenho contactado com pessoas, histórias e sítios por onde eu não passaria casualmente. Desde o “Estrada”, e já há muito tempo que a minha música tem um lado de encontro entre pessoas. Não no sentido romântico de “vamos todos dar as mãos”, mas no sentido de proporcionar encontros e até confrontos entre mundos que normalmente não existem lado a lado. O último ano também foi bom nisso. Estive no Norte de África, onde muitas pessoas aqui não têm uma imagem concreta do sítio.
Ou uma imagem demasiado presa a um estereótipo…
Sim. No caso do Norte de África, às vezes nem há uma imagem. Há uma ideia vaga. Conseguir proporcionar isso e fazer todas as linguagens dialogarem naturalmente, porque é natural que dialoguem. Temos todos tanta conversa para ter e tanto em comum que só faz sentido haver esses encontros.
O que é que essas viagens te têm proporcionado? Por exemplo, o que te espantou na Argélia? Que coisas marcantes é que levas enquanto pessoa, mas também enquanto músico?
No caso concreto da Argélia, e do Norte de África no geral, é muito evidente para mim que somos um pouco parentes afastados que não se conhecem. E é engraçado porque o lado de lá, de Gibraltar, vê-nos como parentes afastados. Sabem da história do Al-Andalus e ainda a cantam. A música clássica do Norte de África vem dessa herança da Península Ibérica árabe. Eles ainda têm memória coletiva desses 500 anos e nós esquecemos quase totalmente e somos educados ao contrário dessa história. Essa proximidade nunca deixa de me surpreender. Estás no Casbah, em Argel, ou em Tânger, e ouves canções que vêm dessa herança e que falam sobre a nostalgia desses tempos. E depois têm sido encontros musicais muito interessantes. Entre Argélia, Espanha, Brasil e Angola — os sítios onde fiz colaborações —, os processos de trabalho são muito diferentes, as perspetivas são muito diferentes. Este ano tem sido um ano de aprendizagem nesse sentido.
Tendo em conta todas estas viagens e os singles que têm vindo a sair, parece que há um novo álbum no horizonte. Olhando para “milésimo de segundo”, “ PALMAS”, “ikea”, “Minotauro” e “Gandaia”, apesar de serem bastante diferentes entre si, parece haver alguns pontos em comum: uma certa tensão entre a busca de sentido na vida, um lado mais existencialista, esta oposição entre trabalho e farra — as dimensões do que é existir. Depois há esta parte de esticar para fora. Já visitaste aqui uns quantos países — Angola, Brasil e Argélia — que demonstram um pouco essa tua procura de sentido em várias cidades e geografias.
O álbum está a ser uma procura muito profunda e sem limites. Estou a tentar ir mesmo ao fundo de questões que são muito importantes para mim. Estes sítios todos também têm servido para uma aprendizagem e uma forma de ver as coisas de fora, e de ver de maneiras diferentes o mundo. O álbum está a ser trabalhado com muito compromisso em ir ao fundo de questões que são importantes para mim neste momento.
Que questões?
Não queria definir ainda essas questões. Mas sim, são coisas que já se vêem um pouco nestas músicas e que quero aprofundar e sem limites, com toda a coragem de me confrontar a mim mesmo no final do próximo projeto.
Uma coisa que também falaste com o João Mineiro foi o teres conquistado, de certa maneira, a cidade com o Por este Rio Abaixo. No Estava no Abismo Mas Dei um Passo em Frente conquistaste o país. Neste momento queres dar esse passo para fora, buscar uma internacionalização e cumprir aquilo que já disseste ser quase uma missão de vida: não desistir da ideia de que o mercado português consegue chegar a outros lados.
Tenho sempre a confiança de que aquilo que se faz aqui consegue chegar a outras pessoas no mundo, e se calhar tem sido importante passar por estes sítios todos e realmente perceber o que é que o que é que me liga ao mundo. E se calhar passar por estes sítios todos tem-me dado uma nova perspectiva sobre a minha própria música. Mas eu sinto que, como país, vamos de certeza conseguir falar para o mundo. Neste momento precisamos de experimentar novas fórmulas, encontrar quase uma nova linguagem e pôr novos limites para nós mesmos. Sinto que tivemos durante muito tempo um bocado à procura de uma coisa que era quase uma perspetiva local e uma nova sonoridade portuguesa. E sinto que isso foi totalmente conquistado. Agora acho que é preciso encontrar novas fórmulas e testar coisas sem limites de género. Estamos numa altura muito experimental da música. Durante muito tempo fez sentido renovar géneros, encontrar aquilo que tínhamos todos em comum aqui no país, redefinir e repensar o nosso passado, o nosso presente e as nossas linguagens. E eu acho que agora está na altura de voltar a desconstruir isso e voltar a experimentar novas fórmulas, sem limites e sem medos.
Voltando ao “Gandaia“, como foi pensada a ideia do vídeo?
O vídeo surgiu do interesse que tenho vindo a ganhar, se calhar desde a experiência do “Minotauro”, em explorar pessoas em vídeo que não seja eu mesmo. Desde que fizemos esse vídeo com a Mariana Badan, e de trabalhar com atores e com pessoas que me entregam performances intensas e que contam uma história além de mim… Neste momento interessa-me mais apresentar outras pessoas em vídeo do que a mim próprio. E o vídeo tem um bocado essa ideia de levar um francês executivo a morar em Lisboa e conhecer a cidade e perder-se nela. Há uma coisa quase simbólica nisso, o facto de acabar na Apupu, que se está a tornar-se um ícone, um símbolo cultural da cidade. O vídeo foi também uma exploração de uma fórmula nova: gravar um vídeo com iPhone, sem script, sem demasiados limites, e levar esta pessoa a perder-se em Lisboa. O facto de ser filmado com iPhone dá-te uma perspetiva muito crua e pouco premeditada da cidade: os metros, os bares, as ruas de uma forma que se calhar com uma câmara super profissional não conseguirias. No fundo, é experimentar novas possibilidades, novas formas seja na música, seja em vídeo, surpreender-me a mim mesmo. Ver coisas que os meus olhos ainda não viram e que os meus ouvidos não ouviram também.
Acho curioso, porque uma das coisas que disseste em entrevistas sobre o álbum passado foi que, no início da tua carreira, eras muito apegado à parte estética. Tinha que estar tudo bué perfeito. No último já tiveste um bocado esse processo de largar esse perfeccionismo. Estás agora a tentar soltar-te ainda mais, deixar as coisas acontecerem sem limites muito definidos?
Acho que tenho sempre essa guerra interior entre o perfeccionismo, o pensar demasiado, e o deixar as coisas acontecer. Estou a aprender a confiar nas pessoas à minha volta. Sinto que estou rodeado das pessoas certas, que colaboram comigo, e parte dessa ânsia é também sentir que…
A questão do controlo?
Exato! Acho que muitas vezes é uma coisa da pessoa sentir que só ela pode pôr esta visão no mundo. E o que eu tenho sentido agora nos últimos tempos é que estou rodeado de pessoas incríveis com quem colaboro e com quem trabalho todos os dias e nas quais confio. Se calhar houve uma altura em que eu me sentia mais sozinho criativamente, e hoje em dia sinto-me rodeado de pessoas nas quais confio. Acho que a pessoa só se consegue soltar quando tem isso também: quando sabe que tem pessoas à volta que estão tão comprometidas nisto como nós. E é uma coisa que se vai aprendendo: onde é que eu devo ser hipercontrolador e quase ditador em certas decisões, e onde é que eu devo parar, ouvir os outros e sair um pouco de mim. É uma aprendizagem constante e, no caso deste vídeo, foi sem dúvida um exercício de tentar soltar-me e não controlar demasiado: dar um algoritmo para que algo acontecesse numa noite com esta pessoa e depois deixar a coisa acontecer. E, nesse sentido, até se liga um bocado com experiências de vídeo do álbum passado, como “Marcha Bonita”.