Os sons que mais rodei em 2015 por Miguel Arsénio

[TEXTO] Miguel Arsénio

 

Não me parece que o ano de 2015 tenha sido extraordinário, mas estas dez “coisas” animaram bastante o calendário que vai para a fogueira entretanto.

 


[SPOTIFY]

Apesar de todas as opiniões negativas que leio sobre o Spotify, devo dizer que até hoje é o programa de software que melhores condições me ofereceu para descobrir música e catalogá-la por apetites e géneros. Tem, como é óbvio, várias lacunas (uma delas é o desaparecimento do shuffle de todas as playlists), mas é um extraordinário instrumento para quem gosta de avaliar os discos antes de comprá-los, ou picar isto e aquilo só mesmo pela curiosidade. Se algum dia o Spotify entender melhor o que cada utilizador pretende dele, ganha a oportunidade de voltar aos meus 10 favoritos do ano.

 


 

[JAMES FERRARO] Skid Row
(Break World Records, 2015)

Talvez porque o encarei sem quaisquer expectativas, Skid Row, o mais recente álbum de James Ferraro, foi em primeiro lugar uma enorme surpresa. Passaram-se alguns dias de escuta obsessiva e então Skid Row subiu à condição de disco favorito do ano. Felizmente já tive a oportunidade de discorrer sobre os seus méritos aqui.

 


 

[DEEPCHORD] Ultraviolet Music
(Soma Recordings, 2015)

Rod Modell é um dos mais fiáveis dealers de dub-techno que tenho na vida, desde que Hash-Bar Loops há uns anos me convenceu quanto à qualidade do produto. Foi por isso enorme o entusiasmo ao saber que 2015 traria consigo um novo álbum-duplo do produtor que assina como DeepChord. Com mais de duas hora e meia de música, Utraviolet Music parece-me um daqueles discos de assimilação prolongada com muito para dar durante anos.

 


 

[CHOPPED HERRING RECORDS]

Mantendo a mira apontada a fontes musicais da maior confiança, algumas linhas deste balanço têm mesmo de pertencer à Chopped Herring Records. São inúmeras as editoras actualmente dedicadas à escavação de hip hop da golden age, mas poucas terão uma pontaria tão afinada quanto a da casa britânica que praticamente não sabe vacilar. Este ano a Chopped Herring Records trouxe-nos temas inéditos e raros de Juggaknotz, The Cenobites e Shabazz, The Disciple, entre tantos outros dignos de serem descobertos. Grande respect.

 


 

[HIT + RUN]

A Hit + Run foi outra das editoras que mereceu toda a atenção ao longo de 2015. É sabido que Los Angeles (e a Califórnia em geral) tem revelado ao mundo uma série de produtores inovadores e excitantes (na linha de Flying Lotus), e a Hit + Run é das casas que melhor tem capturado a efervescência que daí resulta. Se 2015 serviu para confirmar nomes como Kutmah e Zackey Force Funk, e revelar a neo-soul do muito promissor Joseph Scaturro, 2016 já está à espreita com o novo disco de Mono/Poly intitulado Cryptic. A Hit + Run não pára e quando arranca é para a frente.

 


 

[33 1/3: DUMMY] por RJ Wheaton

O livro que a colecção 33 1/3 dedica a Dummy, disco de estreia dos Portishead, foi lançado em 2011, mas só este ano chegou à minha cabeceira pelas mãos do patrão Rui Miguel Abreu. Dissecado por RJ Wheaton, num volume maior do que é habitual na 33 1/3, Dummy é suficientemente sumarento para satisfazer os mais diversos tipos de leitores: desde fãs dos Portishead aos curiosos sobre o contexto em que surgiu a banda de Bristol. Há muito para ler também sobre a utilidade do sample neste livro, que foi das mais fascinantes leituras feitas este ano.

 


 

[NUJABES FEAT. SHING02] Luv(sic) Hexalogy
(Hyde Out Recordings, 2105)

O tempo haverá de reconhecer a mestria de Nujabes, o genial produtor japonês que morreu jovem, embora ainda a tempo de se afirmar como um grande cientista do hip hop mais jazzy e downtempo (inclusive quando essas ramificações estavam mais esgotadas). Nujabes deixou-nos diferentes testamentos da sua criatividade, mas terá sido na saga Luv(sic), acompanhado pelo MC Shing02, que brilhou mais intensamente. A Hyde Out Recordings, casa de Nujabes desde o início, teve há pouco tempo a excelente ideia de compilar todos os capítulos de Luv(sic) num só duplo-CD intitulado Luv(sic) Hexalogy (com direito a diferentes remisturas e versões instrumentais). Essa compilação merece com todo o mérito um lugar nesta lista.

 


 

[CZARFACE] Every Hero Needs a Villain
(Brick Records, 2015)

Com um formato que junta um disco e a sua respectiva banda-desenhada, Every Hero Needs a Villain, de Czarface, surtiu um efeito bastante curioso: fez-me ansiar tê-lo nas mãos com a mesma excitação de quem, na juventude, aguardava pela próxima BD dos X-Men ou Homem-Aranha.. Foi por isso um dos lançamentos do ano que mais veio reforçar a necessidade que ainda existe de ter o formato físico nas mãos.

 


 

[JAY-Z] Magna Carta… Holy Grail
(Roc-A-Fella, 2013)

Normalmente não sinto a obrigação de devorar um disco no preciso momento em que aparece. Muitas vezes até nem ligo muito de início a alguns discos que depois me conquistam aos poucos. O Magna Carta…Holy Grail, do Jay-Z, tem dois anos, mas só em 2015 chegou ao meu carro por um preço simpático. E, tal como o Kingdom Come, este é mais um álbum do Jigga que precisei de ter nas mãos para realmente entendê-lo e apreciá-lo (quando à partida até me merecia alguma frieza). O Jay-Z parece ter de novo algo de realmente relevante para dizer em MCHG e isso faz com que o álbum ganhe o seu estatuto de pergaminho importante na narrativa global do todo-poderoso rapper. É um disco perfeito para ouvir no carro.

 


[DISCOS VINDOS DO JAPÃO]

Enquanto ávido comprador de discos, 2015 foi a confirmação do puro gozo que me dá vasculhar as mais diferentes lojas online japonesas (Reggae Record, Disk Union, Linus Records, Snow Records, etc.).

Miguel Arsénio

Miguel Arsénio

Escreve, desde 2004, sobre música, filmes, actualidade no mundo e na sua querida Ericeira. Ocasionalmente também faz imitações de vozes célebres.
Miguel Arsénio