JAMES FERRARO // Skid Row

james_ferraro_skid_row_review

[TEXTO] Miguel Arsénio

Bastará percorrer na transversal o legado de James Ferraro para entender que a sua música é indissociável das suas próprias memórias e principalmente do modo como as trabalha. É um cliché admiti-lo logo assim, mas há que encarar de algum modo aquele que, através de inúmeros disfarces, cultivou uma identidade realmente reconhecível entre as muitas surgidas na vaga da hypnagogic pop, hauntology e demais salteadores das memórias perdidas. Ainda assim a utilidade dessas etiquetas fica-se por aqui, pois o que importa agora é avaliar o indivíduo de cabelo encaracolado que, em tempos, manteve os impressionantes The Skaters com Spencer Clark. Ou, pelo menos, agarrar uma parte do seu passado recente na Hippos in Tanks e agora na Break World Records, com a tremenda novidade Skid Row.

Sobre Skid Row convém referir que se trata de um álbum tematicamente fixado em Los Angeles, da mesmo maneira que NYC, Hell 3:00 AM (disco anterior de 2013) ancorava em Nova Iorque. Nele coexistem o lixo do próprio bairro de Skid Row (um dos mais indesejáveis de toda a zona) e o luxo ilusório das grandes avenidas de Hollywood. Em paralelo com isso, James Ferraro povoa as suas canções utilizando recursos ora pobres (beatboxes rascas, vozes com efeitos ultra-mitra), ora ricos (pianos, grandes arranjos, back vocals em brilhante toada R&B). Faz tudo isso sem estabelecer distinções maiores entre as duas partes (LA é afinal uma cidade de intensa miscigenação).

Igualmente englobante é a quantidade de referências populares que Ferraro atira para dentro do caldeirão sem fundo que é Skid Row. Discos como Street Songs de Rick James (ele mesmo esteve agarrado ao crack) ou a banda-sonora dos Wang Chung para To Live and Die in L.A. (título directamente citado numa faixa de Skid Row). A garra vigilante das canções de John Farham no filme Savage Streets ou as séries sub-Cops que a Europa nunca viu. As fracas imitações dos policiais de Michael Mann ou as declarações de Rodney King à comunicação. Algumas dessas são presenças evidentes na malha sonora de Skid Row, enquanto outras ecoam apenas no manto nocturno que cobre por completo o disco.

 


 


Se NYC, Hell 3:00 AM tinha a sua dose de momentos solenes em busca de alguma esperança (escute-se a espécie de oração que é “Beautiful Jon K.”), por sua vez Skid Row aceita que o mundo está mais ou menos perdido, e aponta Los Angeles como capital para esse mesmo mundo. A Nova Iorque de Ferraro era uma espécie de entidade mágica e magoada. Desta vez Los Angeles é a metrópole que magoa e, ao mesmo tempo, serve de casa aos que já se habituaram a isso com algum masoquismo. A primeira pode ainda ser salva por um improvável herói, a segunda encontra-se há muito condenada a ficar retida num loop doentio dominado por dealers, freaks, putaria e gente que haverá de morrer por ali.

Nos dois discos conceptualmente ligados, Ferraro insiste ainda em sublinhar a sensação de prisão provocada pelas suas musas urbanas, mas até essa é uma sensação bifurcada: enquanto o enclausuramento nova-iorquino tem a aparência de uma fantasia inspirada pelo anti-clássico de John Carpenter Escape From New York (de algum modo invocado pela trilogia de faixas “Stuck”), a prisão de Los Angeles fica mais próxima de ser o ciclo de vício e cegueira que vai sempre dar a Skid Row (na ganância de comprar umas pedrinhas para queimar). Não há como escapar de Los Angeles.

Este detalhado díptico sonoro, em que Ferraro reflecte cada uma das cidades, apresenta inevitavelmente sinais de decadência, corrosão e realidade distorcida, embora nada disso afecte uma noção bem estampada em ambos os discos: NYC e LA, apesar de todos os seus males, são fascinantes e inesgotáveis fontes de informação e cultura sempre sujeitas aos mais diversos reaproveitamentos. Se tantas vezes estas cidades deram uva para álbuns comparáveis a garrafas de vinho vintage (basta pensar no Sinatra de Where Are You? e In the Wee Small Hours), aqui o processo de destilação é feito com resíduos e isso resulta naturalmente em bebidas com outro volume tóxico. James Ferraro tem bem guardado o segredo do seu alambique de múltiplas referências e a fórmula que nos serve é cada vez mais só dele.

A mesma imagem serve para frisar que a peculiaridade dos discos de James Ferraro deve-se ao facto do seu acervo de lembranças ser também singular, sendo que esse armazém encontra-se queimado e fracturado de uma forma estritamente única (tal como o meu e o teu). Podíamos, com vista à comparação, pegar em William Basinski – também ele um escultor de memórias com fortes ligações a NYC e LA – focando os muitos sons de cidade presentes na ode que é 92982. Lá estão, por exemplo, as mesmas sirenes de ambulância e o burburinho do trânsito a que James Ferraro recorre também para dar vida e frenesim a estes seus discos.

Contudo Basinski é um romântico apaixonado pelo processo da erosão, enquanto Ferraro age muito mais como máquina acumuladora de detritos pop danada por reinventar as narrativas passadas à sua maneira (e isso faz dele um criador muito mais pós-moderno). A memória é decididamente um instrumento fulcral para ambos, mas este Ferraro atreve-se a entreter e até mesmo a estimular estranhos prazeres (convém não esquecer que estamos em Los Angeles). Consegue-o com total eficácia em Skid Row e isso abre as portas para que este seja um dos grandes discos do ano.

 

Miguel Arsénio

Miguel Arsénio

Escreve, desde 2004, sobre música, filmes, actualidade no mundo e na sua querida Ericeira. Ocasionalmente também faz imitações de vozes célebres.
Miguel Arsénio