Os sons que mais rodei em 2015 por Alexandre Ribeiro

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Direitos Reservados

 

O hip hop está bem vivo e para todos os gostos. Portugal teve um ano bastante produtivo com lançamentos novos de ilustres como Allen Halloween, NERVE, SP Deville ou a nova coqueluche do rap português, Slow J. Resumindo, esta lista encerra em si a maioria das batidas de fundo ouvidas no meu quotidiano em 2015.

 


 

[SLOW J]

Uma estreia a surpreender tudo e todos, deixando um aviso: estamos perante um dos grandes talentos da música nacional. The Free Food Tape é o perfeccionismo da produção a ser guiada pela liberdade poética. A sua apresentação visual demonstra que o artista tem a visão e a estética vai sendo cada vez mais clara. Sem pressas nem atalhos, Slow J é a grande surpresa do ano.

 


 

[KENDRICK LAMAR]

A ópera-rap de Mr. Lamar estilhaçou os cânones do hip hop e demonstrou que o nativo de Compton é mais do que um MC. As letras têm consciência social, o flow é criado em função do que cada batida exige e recrutou alguns dos melhores músicos da nova geração para o guiarem na procura do seu som em To Pimp a Butterfly, numa tentativa de sensibilizar e criar uma obra que honre todos os grandes nomes da cultura negra. Felizmente para nós, conseguiu-o com nota máxima.

 


 

[DRAKE]

No outro lado da barricada está Drake. O amor é a temática principal e “Hotline Bling” o grande hit deste ano. If You’re Reading This It’s Too Late apareceu de surpresa e mostrou que a sonoridade do rapper canadiano está cada vez mais refinada. O seu som já é um reflexo de Toronto, um dos grandes objectivos colocados por Drake. O beef com Meek Mill foi a prova que não foge a uma luta e demonstrou outro dado muito importante numa era digital onde a velocidade é tudo: a capacidade de reagir aos eventos tornou-o o grande vencedor da Internet em 2015.

 


 

[REGULA]

Não existe MC mais debatido em Portugal do que Regula. As vozes fazem-se ouvir nos comentários das plataformas sociais que falam sobre como o rapper do Catujal vendeu o seu som para chegar a um público mais mainstream. Mas, se olharmos bem para os dados, não é bem assim. As temáticas são o reflexo da mudança do seu quotidiano de Don Gula e tem Holly Hood e Here’s Johnny para o ajudar a encontrar a batida perfeita. A evolução é notável em Casca Grossa, desde a produção dos seus aos concertos à criação dos seus videoclipes. Regula é, no microcosmos onde gravita, uma espécie de Drake, tentando honrar os subúrbios e a criar uma estética que o distingue dos outros.

 


 

[EARL SWEATSHIRT E TYLER, THE CREATOR]

O que outrora foi uma relação de irmãos, tornou-se numa guerra de egos. Se a zanga foi criada pela imprensa, só saberemos quando o tempo a tratar de resolver (ou não). No que toca a discos, Earl e Tyler foram contrastantes: o MC mais novo continua com os problemas com o passado e os seus próprios dilemas morais, criando uma obra densa e obscura; Wolf Haley sente-se em paz e tenta encontrar o caminho da felicidade em Cherry Bomb. Apesar das devidas diferenças emocionais, ambos criaram álbuns bem ao seu estilo, sendo cada vez mais notório o que cada um quer a nível artístico.

 


 

[LITTLE SIMZ]

Um furacão vindo do Reino Unido. Num ano onde o grime se expandiu para os Estados Unidos, Little Simz estreou-se com um registo coeso que demonstra que é uma MC como poucas: um flow extraordinário, consciência em cada palavra e uma noção musical diferente dos demais. Skepta, Novelist e Stormzy são alguns dos nomes que juntamos à lista de nomes a seguir e é obrigatório dizer: atenção aos britânicos!

 


 

[KANYE WEST]

Não se ouviu álbum novo, mas viu-se um palco cheio de artistas britânicos a mandar abaixo os BRIT Awards e a criar ondas com “All Day”. Teve tempo para se juntar a Sir Paul McCartney e Rihanna e criar uma das melhores músicas pop deste ano. Anunciou que iria concorrer em 2020 para o cargo de Presidente dos Estados Unidos da América. SWISH ainda não tem data marcada, mas Yeezus e My Beautiful Dark Twisted Fantasy são intemporais. Até para o ano, Mr. West.

 


 

[NERVE]

O primeiro de dois regressos brilhantes nesta lista. Uma estética marcada, letras com triplo sentido e uma apresentação visual e sónica a acompanhar na perfeição um dos mais talentosos MCs da nossa praça. Abalou o Mexefest e veio encaixar numa nova vaga de artistas que apanharam o seu comboio rumo às profundezas do ser humano.

 


 

[SP DEVILLE]

Um nome com craveira internacional a renascer dos mortos. Tem um dos refrões mais reconhecíveis do hip hop nacional com Sam The Kid e Carlão em “O Crime do Padre Amaro”, abalou os circuitos internacionais com Makongo e agora estreia-se em longas-duração a cantar, rappar e produzir. E não se enganem, é tudo feito com enorme qualidade. Um “Maluku” a mostrar que ainda tem muito para dar.

 


 

[N.W.A]

O visionamento do filme biográfico dos N.W.A neste fim de ano fez com que voltasse à história do “grupo mais perigoso do mundo” com ainda maior afinco. Perceber a importância do colectivo na história da música americana é entender que Dr.Dre, MC Ren, Eazy-E, DJ Yella e Ice Cube são o que se pode chamar de pilar da cultura. Dr. Dre, o mais bem-sucedido de todos a nível musical, aproveitou para lançar um álbum – que honra o passado e trilha um novo caminho para o futuro – e reforçar o seu estatuto como um dos maiores nomes da música contemporânea. Snoop Dogg, Eminem e Kendrick Lamar são filhos pródigos da coragem dos N.W.A. Dre já dizia na introdução de “Straight Outta Compton”: “You are now about to witness the strength of street knowledge.”