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[TEXTO] Inês Coutinho

 

Don Gula, O Da Vila, Bellini, Regula. Já toda a gente sabe quem é este homem, e isso é a definição de justiça poética (literalmente). Ele sabe-o, e faz questão de o deixar escrito em pedra: “Pergunta ao AC quem é a legacy do manda chuva”, discorre em “Nivea”, uma das faixas do seu novo longa duração.

Parece ter passado uma vida desde “Especial”, o seu primeiro hit no underground nacional. Mas já nessa altura Regula deixava claro que no mundo dele não há desmérito absolutamente nenhum em assumir a influência do hip hop americano, mesmo ao nível nas letras – até pelo contrário. Essa perspectiva refrescante, combinada com a sua skill cirúrgica, só melhorou em Tira Teimas, em Gancho e nas suas duas mixtapes (ambas 100% essenciais), Kara Davis e Lisa Chu.

Depois de ouvir um par de vezes Casca Grossa, não foi muito difícil escolher o momento mais especial do disco: as primeiras quatro faixas seriam as candidatas, mas é a faixa-título que leva a taça. Tiago Lopes, o artista, assalta um beat incrível do seu companheiro de crew Here’s Johnny (Show No Love/Superbad) e não deixa prisioneiros. Com um flow completamente certeiro e musical, inunda a batida esparsa e os samples misteriosos de flauta com barras que se tornam clássicos instantâneos à primeira audição. Consegue ser cocky e terra-a-terra na mesma frase, “fazer dinheiro a sério boy i’m ‘bout that, mas não é por causa disso que eu vou deixar de comprar griffes no outlet“; usar estrangeirismos e ainda assim fazer ressoar o orgulho que tem do seu bairro “Catujal stand up!”; e, num passo de alquimia verbal, transformar um objecto sem carisma num Santo Graal simbólico do sonho hustler – a balança digital foi promovida a ícone da cultura pop portuguesa. Sim, cultura pop. Portuguesa. O domínio estende-se até aos back vocals: sempre na altura certa, com a emoção certa, a fazer a faixa ecoar na esfera do inconsciente. É assim que Regula mostra a sua mestria: a fazer malabarismo entre conceitos contrários – ele entende que ser profundo é ter sombra e luz e isso, em si, é um desafio ao status quo do hip hip nacional, que quando se distrai é todo eu-sou-isto-e-não-aquilo.

“W.OM.B.” é (discutivelmente) o segundo melhor instrumental do álbum, todo bleeps tensos (a fugir da polícia?) e tarolas embebidas em reverb, a lembrar uma sala vazia, talvez só com umas paletes de notas de €500 e umas rodilhas de folhas verdes secas ao Sol. A imaginação é completamente acesa pelas cores com que Regula pinta esta tela, e é também aqui que surge mais um exemplo da destreza deste rapper a misturar línguas – e dar azia da grossa ao pseudo-patriotismo: “Puff puff pass, e se não for guita na mão, é bluff nuff esquece”, uma linha de métrica e cadência perfeitas, conseguidas pela maleabilidade de uma mente sonhadora, que despreza limites auto-impostos, e que é mais portuguesa que qualquer rapper ou fã de música que faça a apologia cega (e por isso vazia) do dicionário de português. Já dizia o melhor rapper de sempre, Agostinho da Silva, que ser verdadeiramente português é andar (figurativa ou literalmente) perdido no mundo.



De resto há material que merece destaque em “Langaife”, com o sempre infalível Sam The Kid: o beat é competente (nunca magoa samplar Drake e piscar o olho a “Bitch Don’t Kill My Vibe” de K-Dot no mesmo instrumental) e estes dois rappers são talvez os reis – cem por cento legítimos – do mundo do rap português, ao lado de Halloween. Provam que não têm competição aqui outra vez, armados só de naturalidade, sem precisarem de se esforçar. Precisamos de mais rimas desavergonhadas como “Catujal é o meu bairro, uns vendem cal outros vendem barro” no nosso rectângulo cheio de potencial e não-tão-cheio de boa manifestação. “Nasty” e “Haja”, que abrem e fecham o álbum, respectivamente, são ambas fortes no sentido clássico – sim, são totalmente manual Regula. Isso é bom.

Ficam de fora o dancehall-by-numbers de “Mêmo a Veres”, as aguadilhas de revivalismo em “Tony do Rock e “Guilhotina” e outros momentos de aura mais apagada num quadro de outra forma brilhante. Não posso deixar de mencionar a referência fofinha, consciente ou não (não importa) ao refrão de “(Rap) Superstar” de Cypress Hill em “Choque”, com Holly-Hood. Mas está tudo bem, porque apesar de não haver aqui a consistência demolidora de Gancho, estamos perante um disco que contém algumas das melhores malhas já feitas no solo fértil daquele género a que chamamos carinhosamente de Hip Hop Tuga.

E por falar em Gancho, em Catujal e em Show No Love: acho que esta é a altura certa de gritar (ou suspirar) R.I.P Short Size. Foste um dos melhores e fazes falta. Mas, no limite, e embora a dor não passe por isso, nada se perde realmente: a tua energia linda estará para sempre à nossa volta. “No one ever really dies“, já dizia o Pharrell quando lançava a melhor música da sua carreira.

O Aleluia, um fã acérrimo de rap que dá imediatamente sinal quando ouve qualidade, tem razão: a chapa tá quente. E isto não é gula, nem é fome. Regula está de barriga cheia (até que enfim!), tem as costas quentes e, claro – casca grossa.

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