NERVE no Mexefest: o poder absoluto da força das palavras

[TEXTO/FOTO] Rui Miguel Abreu

 

A passagem de NERVE pelo Vodafone Mexefest resultou nos mais extraordinários 45 minutos de concerto que me foram dados a ver este ano. Trabalho & Conhaque ou A Vida Não Presta” & “Ninguém Merece a Tua Confiança” é, já por aqui o garantimos, um dos mais importantes registos de 2015, disco de alcance singular, apresentado com uma fortíssima moldura conceptual e incrível nas suas realizações: torrente de palavras que parece arrastar tudo consigo e encaixe perfeito das ideias poéticas nas visões musicais – as palavras parecem ser feitas para aquela música e cada uma das notas parece estar ali para servir cada sílaba. Nem mais, nem menos. E assim se entende que o disco tenha demorado apenas sete anos a suceder ao também portentoso Eu Não Das Palavras Troco a Ordem. Nada disso, no entanto, faria prever a absoluta revelação de ontem à noite.

No hip hop, esse pequeno grande passo que por vezes é necessário dar entre o soalho do estúdio e essoutras tábuas do palco nem sempre é fácil. Discos como T&C/AVNP&NMTC são, antes de mais, meticulosas criações cerebrais, que ressoam sempre de forma luminosa na abóboda craniana do seu criador que, aplicando alguma ciência, consegue depois traduzir o que ouve na cabeça para o disco duro do computador, investindo diferentes graus de meticulosidade, de empenho, de teimosia. Mas no estúdio pode-se parar e respirar fundo. Pode-se repetir. Pode-se repetir. Pode-se repetir outra vez. E pode-se voltar atrás. Corrigir a respiração. Acrescentar. Mais. E mais. Pode-se polir, pode-se emendar. Pode-se adicionar pós de pirlimpimpim. Pode-se injectar oxigénio nos pulmões, subtrair luz ao dia. Enfim, o estúdio é cinema, plateau propício a efeitos especiais, truques de iluminação, takes sucessivos pautados por uma claquete. Mas o palco, o palco é teatro. A luz desempenha um papel, mas ai do actor que não tenha pulmões, que não domine a força das palavras, que não as saiba vestir, injectar-lhes vida. E Nerve, acreditem, é um actor incrível. Absoluto. Puro.

Ontem, na belíssima Sala dos Espelhos, rebaptizada Sala Delta, no Palácio Foz, em noite de Ciência Rítmica Avançada desenhada aqui mesmo no estirador do Rimas e Batidas, depois de fantásticos momentos protagonizados pelas duplas Bison & Squareffekt  e Roger Plexico e antes da demolição pela força do ritmo conjurada por DJ Firmeza, Nerve assinou o concerto do ano. Concerto do Ano.  Uma boa notícia para quem perdeu ontem esse espectáculo: Nerve vai repetir a dose dentro de algumas semanas na ZdB, numa apresentação de ainda maior fôlego. O anúncio deve acontecer não tarda nada e eu recomendo vivamente que marquem a data e corram aos bilhetes. Porque faltar poderá ser o maior erro que cometem.

Só em palco e apenas com dois tripés como adereços – um para o microfone que agarra com pose de rocker ou de juiz ou de spoken word artist e outro para a máquina com que dispara os beats -, Nerve encheu a sala, agarrou-nos a todos pelos colarinhos e não nos largou durante três quartos de hora, vociferando-nos ou sussurrando-nos na cara todas as suas verdades, como se cada um de nós fosse o seu único receptor durante aquele pedaço de tempo que pareceu infinitamente mais curto do que o que os ponteiros dos nossos relógios nos garantiam ter sido, como se a força que se solta daquela garganta empurrasse também o tempo, ou melhor, como se o esmagasse, comprimindo-o até que parecesse um mero instante.

Coisa rara: percebeu-se cada palavra que Nerve disse, mérito do técnico de som, certamente, mas sobretudo mérito do próprio rapper que sabe como poucos como gerir a intensidade da entrega e o volume da voz, e declamar com clareza cada sílaba, fazendo dos textos delicadas filigranas de sentido, com cada ideia a entrelaçar-se na seguinte de forma perfeita. Os efeitos na voz, que pareciam vir periodicamente da mesa de mistura, e não de algum pedal comandado pelo próprio Nerve, funcionavam como a luz num espectáculo teatral, sublinhando subtilmente a entrada em cena de um novo personagem do drama que ali se desenrola. E Nerve veste cada uma daquelas peles de forma exímia, usando diferentes tons de voz para expressar diferentes emoções ou para tornar reais, ali mesmo, cada uma das figuras, cada um dos demónios que convoca. Chega a arrepiar.

Com a atenção concentrada sobretudo em T&C/AVNP&NMTC, NERVE assinou ali um longo solilóquio, fazendo o seu instrumento brilhar pelo menos de forma tão intensa quanto o que Thurston Moore ou Keith Jarrett ou, sei lá, Peter Evans conseguem quando se apresentam despidos de quaisquer outros argumentos musicais adicionais que não sejam os que são possíveis de evocar através desse diálogo íntimo entre um criador e a sua ferramenta de eleição, seja ela uma guitarra eléctrica, um piano, um trompete ou, no caso de NERVE, um microfone.

O que nos foi dado a ver e a ouvir ontem, no Palácio Foz, foi um exemplo claro de Ciência Lírica Avançada, certo, mas isso não foi revelação porque o álbum onde essa fórmula é explicitada já tem um par de meses e lugar desde então garantido nas listas dos factos musicais mais relevantes de 2015. O que nos foi apresentado, na verdade, foi mesmo um depurado e completíssimo exemplo de Ciência Rítmica Avançada: não apenas porque NERVE comandou de forma perfeita o seu arsenal de flows, erguendo autênticas proezas de cadência e respiração em cima daqueles beats de Keso, de Pedro, o Mau, de Notwan, mas porque soube usar a passagem do tempo, que é a principal tela do ritmo, de forma magistral, encadeando palavras e ideias e temas como um pintor orquestra pincéis, tintas e superfícies, com estocadas precisas, caóticas e intensas que no final revelam um quadro sublime, quando finalmente damos dois passos atrás e permitimos que o nosso olhar abrace o conjunto.

Como B Fachada aqui há um par de anos numa também extraordinária noite de Novembro, em Sintra, durante o Misty Fest, também NERVE provou que sozinho em palco, sem artifícios que não sejam os da sua própria arte, é possível realizar grandes feitos. Na plateia vislumbravam-se os rostos de Capicua e Slow J, de Blasph e de Mike El Nite (ele que foi substituir Roots Manuva e que correu depois de se apresentar para ainda apanhar NERVE em palco). Todos suspensos das palavras e da prestação sem mácula de NERVE. Não houve uma falha, uma hesitação de respiração, uma intranquilidade sequer que tivesse manchado a apresentação. Perfeição absoluta. E com reparos telegráficos entre os temas, pequenos haikus de humor e ácido, que confirmam aquilo de que já ninguém pode ter a mais pequena dúvida: NERVE é um artista imenso, um talento gigante, e talvez o mais directo herdeiro do José Mário Branco de FMI, esse outro poeta que um dia também escancarou as comportas do seu ser para deixar sair uma verdadeira enxurrada de emoções com que pintou a sociedade do seu tempo. Esse disco de José Mário Branco teve uma edição curta em 1982, mas mais de três décadas volvidas continua a ser um testemunho cru, violento e honesto de um tempo, retrato agudo de uma realidade e de um sentir específicos. Ao contrário do disco de NERVE editado este ano, esse trabalho de José Mário nasceu em palco. Ontem, o Palácio Foz foi ele mesmo teatro aberto a todos e NERVE, como o mestre José Mário Branco, soltou a raiva e desenhou um país com a força de um furacão e a clareza de um dia límpido. E a fasquia ficou impossivelmente alta. Venha Janeiro e a ZdB. Lá estarei de novo.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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