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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 13/04/2026

Um concerto que ficará na memória.

Orquestra de Jazz de Espinho em “Miles & Coltrane”: um legado para a eternidade revisitado

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 13/04/2026

1926-2026. Cem anos de um legado que vai ficar para a eternidade. Miles Davis e John Coltrane são o Sol em torno do qual mais músicos orbitam desde o século XX. Pelo menos na galáxia do jazz. Ouvir ao vivo o repertório deles é uma bênção que nenhuma ida à Lua eclipsa. É, aliás, a forma mais antiga de voar até à Lua e voltar. Continuam por criar os corpos que resistem àquela música. Enquanto isso, é estalar dedos, abanar cabeças, baloiçar os ombros, bater os pés. O movimento é imparável. Irresistível. Mais facilmente resistimos a uma entrada na atmosfera. As melodias gravam-se a golpe de pedra na memória terrestre. A respiração enche e esvazia o peito de qualquer um e o ar some-se, sugado pelo trompete e pelo saxofone em palco. É impossível não sentir o privilégio de estar vivo quando esta música é tocada mesmo diante de nós. Podemos morrer pela beleza que está nos discos, mas é quando a ouvimos ao vivo que desejamos viver para sempre. Nunca dormir, ouvir sempre. Esquecer que há o silêncio. É este tipo de pensamentos que nos assaltam e inquietam. Benditos os músicos, os maestros e programadores que concretizam o sonho de todos os melómanos. Um sonho não sonhado, por vezes. 

No Auditório de Espinho, no último sábado, todos os ventos do mundo convergiram para que o ar não faltasse aos sopros da Orquestra de Jazz de Espinho. Era para celebrar. Era para homenagear. E assim foi. Os propulsores da mais potente nave definhariam face à força de uma orquestra jazz que descolou com “Seven Steps to Heaven”. Levem os trompetes para o espaço e continuaremos a ouvi-los quando olharmos as estrelas. Sob a direção do maestro Eduardo Cardinho, o segundo tema foi “Equinox” de Coltrane. Há uma coincidência cósmica excecional em coexistirmos com esta música. 

“The greatest feeling I ever had in my life – with my clothes on – was when I first heard Diz and Bird back in 1944.” Assim, com a música ao vivo de Miles e Coltrane, é que se compreende por inteiro o significado desta frase de Miles sobre Charlie Parker e Dizzy Gillespie. De facto, é difícil encontrar um sentimento mais arrebatador estando vestido. Os músicos em palco divertiram-se tanto ou mais que o público. Estavam enérgicos. A alegria era a cor da sala. No fim do segundo tema, Paulo Perfeito substituiu Eduardo Cardinho na direção da orquestra para uma suite com arranjo em nome próprio que cruzou os álbuns de Miles com os de Coltrane. “Impressions”, “Blue in Green”, “So What”, “Sketches of Spain”, “Countdown” e “Tune Up”. 

Dezoito músicos na orquestra e dois convidados especiais para solar e arrebatar ainda mais o esgotado auditório da Academia de Espinho. Seamus Blake, virtuoso saxofonista, encontrou, por entre o pouco espaço a preencher, lugares de expansão para o seu tenor. Já Hermon Mehari fez por merecer o cognome de “Miles Davis”, que Paulo Perfeito insistia em verbalizar ao convocar-lhe os aplausos. 

“Naima” e “Tutu” serviram para levantar todo o auditório para as devidas palmas, mesmo antes de um encore não previsto que revelou uma composição dos convidados em quinteto. A orquestra, agora feita plateia, assistia ao piano de Hugo Raro, à bateria de Gonçalo Ribeiro, e ao contrabaixo de José Carlos Barbosa que abriam o palco para o saxofone de Blake e o trompete de Mehari.

Perceber que gerações e gerações nunca ouviram o trompete de Miles e o saxofone de Coltrane transmite uma sensação de perda coletiva. Ainda bem que subsistem templos como o Auditório da Academia de Espinho, que nos ajudam a recordar que a música, se não é uma causa inicial, pode ser a razão da esperança para a recuperação de um mundo em pedaços. Mesmo que as entidades assim não o entendam, fechando os olhos ao que ali acontece semana após semana, tapando os ouvidos ao que por ali passa ano após ano. Uma coisa é certa: este concerto não será facilmente varrido da memória dos presentes. Há uns que passam. Outros que ficam.


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