Oficina Radiofónica #9: Vitor Joaquim / Beatrice Dillon / Tomás Tello

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [ILUSTRAÇÃO] Riça 

A Oficina Radiofónica é a coluna de crítica de música electrónica do Rimas e Batidas. Música Electrónica? Sim. Techno e footwork, house e hauntology, cenas experimentais, ambientais, electro clássico e moderno, drum n’ bass e dubstep, dub e o que mais possa ser feito com sintetizadores e caixas de ritmos, computadores e osciladores e samplers e sequenciadores e outras máquinas que façam “bleep”, “zoing”, “boom” e “tshack”.


[Vitor Joaquim] Nothingness / Ed. Autor

Vitor Joaquim é um veterano que tem incansavelmente navegado nas mais remotas águas da experimentação electrónica nacional e que, ao longo de uma carreira que recua a meados dos anos 80, aplicou as suas ideias a um vasto conjunto de contextos, do cinema à dança contemporânea, do teatro às vídeo-instalações. Esse percurso é pautado por um dilatado conjunto de lançamentos, entre obras de maior fôlego em nome próprio e colaborações em diversas antologias, com que o artista baseado em Setúbal foi firmando uma identidade singular, expressa numa música profundamente íntima e evocativa. Nothingness é a mais recente entrada nesse vasto catálogo pessoal, trabalho que parece erguer-se a partir de fragmentos de memória, presente no que por vezes soam a interferências de rádio, ténues vozes que parecem surgir do vazio para nos assombrarem no presente. O próprio Vitor Joaquim oferece pistas preciosas para se descodificar este Nothingness: “Uma vez que nada parece resistir à passagem do tempo”, escreve na apresentação deste registo na sua página Bandcamp, “e no entanto tudo parece durar como se o tempo não passasse, este álbum é como um barco preso no tempo, ancorado numa doca de lugares esquecidos onde, de tempos a tempos, a música se escuta vinda do passado para logo depois se desvanecer, como uma neblina carregada pela brisa do mar. Tudo é impermanente e só pode mesmo ser assim”, conclui. “Como se estivesse ausente, nem aqui nem além, perdido em todos os lugares, sem esperar saber onde possa estar, mas estando noutro lugar e em nenhum lugar ao mesmo tempo”. O tempo e o espaço, as difusas visões do que já foi e continua, de certa forma, a ser resguardado na memória das pessoas e na memória dos lugares (coisas diferentes, mas comunicantes…): a música de Vitor Joaquim evoca tudo isso, assumindo até uma dimensão quase hauntológica, permitindo-se, via subtil sampling, ser assombrada pelos distantes ecos que certos sons carregam e que aqui surgem, entre o caos organizado do ruído e o lento deslize dos drones, como marcas com carga emocional associada, como se o retrato que aqui nos é apresentado fosse o possível de obter quando se fecham os olhos e se procura olhar bem fundo para dentro de nós mesmos, quando nos deixamos cair livremente num vazio abismo e vislumbramos, durante a queda, fugazes fragmentos de vivências, de sons, de cores e imagens, de sabores e sensações. É essa vertigem, esse vazio – porque na queda interminável não conseguimos segurar-nos a nada que não sejam esses pequenos e breves flashes – que Vitor Joaquim aqui representa, com uma música altamente evocativa, impressionista e decididamente estimulante para a imaginação. Como um reconfortante bálsamo aural que nos devolve a um estado de equilíbrio.


[Beatrice Dillon] Workaround / Pan

Logo nas primeiras páginas de Elevator Music – A Surreal History of Muzak, Easy-Listening, and Other Moodsongs (St. Martin’s Press, 1994), Joseph Lanza assegura-nos que “nem todo o músico devia ser obrigado a garantir-nos que não somos zombies”. E por “zombies”, pois claro, deverá entender-se algo como “pequenas peças na imensa máquina capitalista moderna”. O autor defende depois que “também há um espaço para música que é contida, discreta e até distante e estranha”. Sem dúvida. E essa é uma perfeita descrição de Workaround, o álbum de estreia de Beatrice Dillon: contido, discreto, desligado e estranho (“alien” é aliás a palavra a que Lanza recorre no original…). Antes de mais, considere-se até o quão aparentemente absurdo pode soar o classificativo “álbum de estreia” quando aplicado a uma artista que já soma quase uma vintena de entradas na sua página Discogs, ela que entre DJ sets, mixtapes, múltiplos exercícios de colagem, projectos colaborativos, eps, emissões especiais de rádio, etc, tem sido uma presença constante no agitado panorama presente da mais desafiante electrónica. Mas Workaround, trabalho agora lançado pela sempre exigente Pan, assinala, de facto, a sua estreia a solo. E que estreia é esta? A artista britânica sempre demonstrou ser uma atenta observadora da cena clubbing e aqui propõe-nos um estudo desapaixonado do seu mais elementar pulsar sob a forma de um álbum em que todas as faixas são estruturadas em torno da cadência fixa de 150 BPMs, uma espécie de “zona neutra” entre o domínio metronómico do techno (que se expressa sobretudo no intervalo que decorre entre as 120 bpms e as 140 bpms) e a expansividade do drum n’ bass (que se alarga das 160 bpms às 180). Curiosamente, ainda que revele uma significativa lista de colaboradores (Kuljit Bhamra, Laurel Halo, Batu, Untold, Kadialy Kouyate, Jonny Lam, Verity Susman, Kenichi Iwasa, Lucy Railton, Petter Eldh, James Rand, Morgan Buckley) que se espraiam entre a voz, saxofone, violoncelo ou tablas, Dillon trata toda a matéria musical de forma clínica, reduzindo-a à sua essência sónica e despindo cada som usado de possíveis conotações “emocionais” ou “identitárias”, como se cada fragmento aural aqui disposto fosse obtido nos presets de um qualquer VST e não através de métodos convencionais de captura de performances (implicando microfones a registarem deslocação de ar num espaço físico). A inspiração, referem as notas que acompanham este lançamento, vem das modernas técnicas de produção pop. De facto, a produção “in the box” de boa parte da música contemporânea esvaziou a personalidade sónica que nas décadas de 60, 70 e 80 do século passado era assegurada pelas diferentes salas em que se registaram marcos do devir pop, de Abbey Road em Londres com os Beatles aos estúdios Sound City de Los Angeles com os Fleetwood Mac e daí até aos Compass Point Studios das Bahamas com Grace Jones. A música que hoje domina o topo das tabelas que se desenham entre o Spotify e o YouTube não tem denominação de origem controlada e um número 1 pode ser gravado em Atlanta em cima de um beat comprado online a um produtor holandês e mais tarde carregado para uma plataforma de streaming criada em Berlim. Tudo, pois claro, para depois ser escutado no mesmo tipo de dispositivos através de pequenos auscultadores. Esta “normalização” estava na base da experiência proposta pela companhia Muzak que produzia música aparentemente “genérica” para consumo acrítico em espaços públicos. Esse parece ser o impulso conceptual na base deste trabalho tão intrigante quanto fascinante de Beatrice Dillon, capaz de extrair a humanidade à voz de Laurel Halo e de fazer as 150 BPMs soarem como o hipnótico ritmo da informação que se propaga através de fibra óptica. Um dia esta música vai ser criada por máquinas dotadas de inteligência artificial, mas por enquanto é necessário o génio particular de Beatrice Dillon para que possamos escutar um pouco do futuro.


[Tomás Tello] Cimora / Discrepant

Logo a abrir Exotica – Fabricated Soundscapes in a Real World (Serpent’s Tail, 1999), o histórico livro que David Toop nos ofereceu em vésperas da viragem do milénio, escreve-se, mesmo antes da introdução e em jeito de manifesto: “Exotica / um sonho / colonização / uma imagem bizarra / uma imagem do Paraíso / incompreensão mútua / uma qualidade imaginada de outro lugar / uma projecção do inconsciente / um lugar, pessoa ou atmosfera conjurada / …” Na página seguinte, o autor adianta ainda que “Exotica é a arte das ruínas, do arruinado mundo do encantamento deitado por terra em fervilhante imaginação, o paradoxo de um paraíso imperial libertado da intervenção colonial, uma idade dourada recriada através das cores fantásticas de um copo de cocktail, ilusórias e remotas zonas de prazer e paz sonhadas depois da bomba”. Há 20 anos (e qualquer coisa…), David Toop já tinha sonhado com Cimora, trabalho com que o peruano Tomás Tello, actualmente residente em Tavira, se estreia na Discrepant. Este projecto de imaginação quarto mundista de um criador que começou por estudar a folk andina e agora expande os seus horizontes estéticos recorrendo a gravações de campo, sampling, colagem concreta, efeitos, circuit bending e pequenos sintetizadores revela-se um fascinante objecto, um mapa psico-emocional de um mundo que provavelmente não existe, mas que de alguma forma sobrevive nas memórias deste artista “exilado”. A sua música é tão luxuriante e majestosa como as paisagens que certamente evoca e remete, cuidam de referir as notas de lançamento, para as obras de gente como Jorge Reyes, Arturo Ruiz del Pozo ou Walter Maioli. Poderíamos ainda apontar sintonias com o trabalho do mexicano Luis Perez em Ipan in Xiktli Metzli, México Mágico Cósmico, El Umbligo de La Luna (trabalho de 1981 recuperado em 2018 pela Mr. Bongo) ou até da brasileira Priscilla Ermel (a ser alvo de antologia a editar em breve na Music From Memory): a busca de uma identidade regional através das field recordings ou do uso de instrumentos tradicionais e a projecção no futuro de marcas ancestrais são comuns a essas obras e também a Cimora. Na apresentação deste álbum, as mentes pensantes da Flur sublinham a condição psicadélica desta obra de Tomás Tello: “Cimora é psicadélico pelo modo como altera as cores da música de que fala”. De facto, é no imaginativo tratamento das recolhas musicais, na forma como tudo é colado em pequenos murais sonoros de profunda exuberância, nos detalhes da intervenção por via da adição de novos elementos, que o carácter psicadélico ou exótico da música de Tello se torna mais nítido, como uma imagem em três dimensões que revela pequenos e preciosos detalhes à medida que o nosso olhar nela se perde. E à distância de Tavira, este Perú mágico de Tomás Tello impõe-se como um mundo rico, absorvente e hipnótico, um Paraíso conjurado a partir de memórias toldadas por um cocktail, como diria Toop. Irresistível.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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