Oficina Radiofónica #4: Loraine James / Paul Weller / Moon Wiring Club

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [ILUSTRAÇÃO] Riça 

A Oficina Radiofónica é a coluna de crítica de música electrónica do Rimas e Batidas. Música Electrónica? Sim. Techno e footwork, house e hauntology, cenas experimentais, ambientais, electro clássico e moderno, drum n’ bass e dubstep, dub e o que mais possa ser feito com sintetizadores e caixas de ritmos, computadores e osciladores e samplers e sequenciadores e outras máquinas que façam “bleep”, “zoing”, “boom” e “tshack”.


[Loraine James] For You and I / Hyperdub

Uma das consequências da produção em modo solitário pode muito bem ser a capacidade de atravessar géneros de forma incólume, sem a necessidade de “lealdade” a nenhum deles, sem que se sinta estar-se a quebrar alguma regra quando se experimenta com formas, cruzando marcas de diferentes estilos num híbrido perfeitamente desalinhado e ainda assim totalmente significante. E é exactamente nessa ideia que se sustenta a estreia na Hyperdub de Loraine James. A produtora londrina, em entrevista à Pitchfork, explica como trabalhava, em modo isolado, numa torre de habitação social na zona de Enfield, olhando a cidade a partir da sua janela: “só se via o céu”, explicou, “era inspirador”. Como Burial, também Loraine James parece absorver uma ideia própria da cidade, traduzindo-a, como também revelou, “mais em sentimentos do que em toques de produção”. For You And I resulta assim num exercício de melancolia pura, que pega em marcas do r&b (sentidas sobretudo na matéria prima das vozes usadas e manipuladas até à abstracção), cadências footwork, rugosidade grime e até se arrisca no mergulho de olhos fechados no oceano que é o “Amen Break”, recuperando para o presente ecos da era dourada do drum n’ bass. James parece, portanto, interessada em investigar parte importante do hardcore continuum, sem que, porém, se detenha de forma mais prolongada em nenhum dos seus mais célebres capítulos. E apesar de assomos de assertividade rítmica, For You And I não é um álbum para a pista de dança, a menos que a pista exista dentro do nosso crânio, iluminada por uma bola de neurónios que espalha sonhos na parte de dentro das nossas pálpebras, quando, de olhos fechados, carregamos no play e deixamos que os auscultadores nos transportem para o tal céu que se avista das torres de um qualquer bairro periférico de uma metrópole europeia. Funciona em Londres. Ou em Odivelas.


[Paul Weller] In Another Room / Ghost Box

Pegando no exemplo de um dos seus heróis, Paul McCartney, também Paul Weller, por muitos visto como um dos derradeiros heróis de uma forma particularmente britânica de estar no rock, tem arriscado pontuais desvios à norma que a parte de leão da sua discografia a solo tem defendido acerrimamente. A sua banda sonora para Jawbone, em 2017, continha alguns exercícios mais exploratórios e experimentais, mas ainda assim nada de tão pronunciadamente “fora” quanto o material que agora cedeu à Ghost Box para edição num muito antecipado sete polegadas. A Ghost Box é, como se sabe, o mais forte pilar da “cena” hauntológica, um micro-género que tem visto os seus mais destacados protagonistas criarem importantes, ainda que discretas, obras que buscam referências na memória catódica distante, no Radiophonic Workshop (que inspirou o nome desta coluna…), nalguns excêntricos pioneiros da electrónica (White Noise…) ou na discografia dos Broadcast e dos Boards of Canada. In Another Room (o título é revelador, pois claro, mostrando-nos o rocker a explorar um outro quarto, porventura “secreto”, no seu particular edifício estético) investe pelos terrenos da música concreta com recurso a gravações de campo (pássaros) ou “sons encontrados” (helicópteros), com o resultado final a impor-se como uma pintura sonora altamente abstracta que faz, de facto, pleno sentido num catálogo que também conta com projectos como o Focus Group, por exemplo. E quando se pressente um assomo de canção, como na breve “Rejoice” (cujo piano poderia vir de algum registo clássico de Sir Macca), logo a ideia se interrompe com um golpe preciso da “lâmina” na fita master. Comme il faut.


[Moon Wiring Club] Cavity Slabs / Gecophonic Audio Systems

Dentro do universo da hauntologia, o caso do Moon Wiring Club de Ian Hodgson é dos mais fascinantes: como já tive a oportunidade de explicar com algum detalhe, o particular universo desenhado por este produtor é aural e gráfico e extremamente imaginativo. E tão regular como o relógio de uma estação de comboios: como sempre acontece anualmente, a última quadra natalícia assistiu à edição de mais um LP, Cavity Slabs, trabalho que, certeiramente, a Boomkat descreveu como “uma rave numa casa assombrada”. Rave, de facto (o título poderá referenciar o maxi Cavity Job que os Autechre editaram há quase 30 anos…), mas antes num campo aberto e vasto, como Hodgson sugere quando explica que este é um trabalho com que pretende evocar “vozes antigas da paisagem”. O que significa breakbeats lo-fi, arpeggios sintetizados e sons que parecem emanar dos circuitos ainda intactos de velha tecnologia caída em desuso – leitores de VHs, gravadores de bobines, Zx Spectruns… E há vozes, obviamente, envoltas num manto de reverb que parece sugerir que chegam até aqui vindas de uma qualquer dimensão paralela, como se além de atravessar paredes (e paisagens) elas conseguissem furar a barreira do tempo, escapar-se a distantes memórias e surgirem, algo difusas mas ainda perceptíveis, nas colunas da nossa aparelhagem. Moon Wiring Club não é apenas a designação deste prolífico projecto de Ian Hodgson, é quase um género em si mesmo, com uma identidade extremamente vincada que parece derivar de uma abordagem altamente pessoal a uma colecção de clássicos da cena electrónica britânica, de Aphex twin a Photek, de Coldcut a Boards of Canada. Com resultados invariavelmente viciantes.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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