Moon Wiring Club // Ghastly Garden Centres

[TEXTO] Rui Miguel Abreu 

Ian Hodgson é um tipo muito especial e bastante singular que construiu um universo paralelo — Clinkskell — com existência no seu Blank Workshop. Aí, Hodgson, que é um espantoso ilustrador, construiu toda uma intrincada galeria de personagens que habita Clinkskell, lugar situado numa dimensão espácio-temporal alternativa, no norte de Inglaterra, entre a época vitoriana, o período que se seguiu à segunda guerra mundial e um qualquer futuro que bem poderia ser pós-apocalíptico. Fantasmas, cientistas, lojistas e outra gente estranha povoa as ruas — e os jardins… — da delirante imaginação de Ian Hodgson que é também o criador do prolífico projecto Moon Wiring Club que acaba de lançar, por estranho que pareça (e já se explica o porquê dessa estranheza…), um novo álbum, Ghastly Garden Centres.

Desde 2007, com absoluta precisão, o Moon Wiring Club tem lançado novos trabalhos a cada Natal, álbuns nos mais diversos formatos que, no entanto, quando se apresentam em CD têm a particularidade adicional de contar sempre com 22 faixas.

Já aconteceu — por exemplo em 2010 com A Spare Tabby at the Cat’s Wedding (os gatos são uma das suas muitas obsessões…) — um novo álbum ter edição em CD e vinil, mas sempre com música diferente, com cada um dos suportes a significar distintos arranjos e misturas para o mesmo material. Em 2011, e fazendo jus à designação que Hodgson já uma vez sugeriu para a sua música, “confusing british electronic music”, no mesmo dia o Moon Wiring Club lançou Clutch it Like a Gonk, Clutch It Like a Gonk: Gonk Edition (estes dois em CD, com 22 faixas cada, pois claro) e ainda Somewhere a Fox is Getting Married, todos com o mesmo número de entrada no catálogo da Gecophonic Audio Systems — o GEph005 –, mas cada um com o seu alinhamento, com material distinto. Só mais um exemplo: em 2017, para o mesmo número de catálogo, GEph011, mais duas entradas na discografia do MoonWiring Club: o duplo CD (2×22 faixas, como já adivinharam…) Tantalising Mews e o LP Cateared Chocolatiers.

Ora, idêntico gesto editorial deveria ter acontecido em Dezembro de 2018, com o álbum Psychedelic Spirit Show, lançado em vinil, que supostamente seria acompanhado por uma outra edição paralela em CD. Ghastly Garden Centres é, então, esse CD que com Psychedelic Spirit Show partilha a entrada número 12 no catálogo da Gecophonic. Uma dúzia de referências em catálogo que, no entanto, se traduzem numa vintena de títulos, vários deles em duplo ou até triplo CD (como aconteceu, em 2016, com When a New Trick Comes Out I do an Old One). Ou seja, o senhor Ian Hodgson é mesmo prolífico e a boa notícia é que, assim sendo, em 2019 ainda deveremos ser agraciados com mais um lançamento especial lá para o próximo mês de Dezembro.

E boa notícia porquê, afinal de contas? É que a música deste Moon Wiring Club é, de facto, extraordinária e tão singular quanto a mente que a produz. Ghastly Garden Centres surgiu, aliás, no Blank Workshop juntamente com o número inaugural de Catmask, uma revista, “exceptionally fancy”, como é descrita, que inclui artwork de edições passadas e uma incrível galeria das espantosas criaturas mágicas que Hodgson vai congeminando e que funcionam como uma espécie de guias visuais para o seu igualmente fantástico (no sentido literário ou cinematográfico do termo) universo sonoro. 



Como, em diferentes dimensões e com distintos resultados, Aphex Twin ou Burial, também o Moon Wiring Club pode reclamar a construção de um universo próprio, sem paralelo, habitado por criaturas distintas, banhado por uma luz que é só sua. Ainda assim, é possível associar a música do Moon Wiring Club, como de resto a de Aphex Twin ou Burial, a uma mais vasta corrente ou linguagem. Se as discografias de Richard D. James ou William Emmanuel Bevan se inscrevem nesse longo arco do hardcore continuum que tem marcado a música electrónica britânica desde a era das raves até ao presente, já o trabalho de Ian Hodgson é facilmente associado à hauntologia, corrente de que a editora Ghost Box é uma clara representante. 

O Moon Wiring Club participou, aliás, tanto na Study Series (2010-2013) como na Other Voices (2014-2018), duas séries de 10 singles cada (a maior parte em regime “split”) que a Ghost Box lançou e para que Hodgson contribuiu, em ambos os casos, repartindo espaço com o Belbury Poly de Jim Jupp. Além disso, Hodgson ainda criou o projecto Woodbines & Spiders, lançado na sua própria Gecophonic, com Jon Brooks, outro dos arautos da corrente hauntológica que edita também na Ghost Box como The Advisory Circle. Como se percebe até pelas designações “hauntológicas” escolhidas por estes projectos — Moon Wiring Club, Belbury Poly, Advisory Circle, mas também Focus Group — a ideia de colectivos imaginários é estruturante e ajuda a projectar os tais mundos fantasiosos desenhados a partir das memórias de cada um.

A música que o Moon Wiring Club edita em 2019 soa, em termos técnicos, muito parecida com a que já lançava em 2007, o que faz pressupor que os seus métodos de produção e os seus recursos tecnológicos não se devem ter alterado muito. Originalmente, Hodgson afirmava que a música que assina como Moon Wiring Club era produzida numa velha Playstation e esse poderá muito bem ser igualmente o caso aqui: beats de hip hop lo-fi, ecos de drum n’ bass em câmara lenta, ambientalismo sépia, e muitas vozes e frases resgatadas a documentários e inusitados programas de televisão, farrapos de uma memória catódica que parecem pontuar toda a obra do Moon Wiring Club. Tudo isto combinado com classe num laboratório envolto numa névoa lisérgica qualquer (verde e espessa, quase de certeza…), o que resulta numa música que, muito justamente, pode reclamar o rótulo (tantas vezes erradamente aposto…) “psicadélico”. É que a deslocação das noções de tempo e espaço através de efeitos, a manipulação de vozes e a abordagem experimental à produção configuram, de facto, uma natureza decididamente psicadélica para a música deste Moon Wiring Club.

A temática dos jardins já despontou noutros lançamentos de Hodgson, mas aqui é levada ainda mais longe, como se o Moon Wiring Club quisesse propor uma banda sonora para nos acompanhar na deambulação por um qualquer jardim abandonado em que a natureza tenha tomado o seu próprio curso, ignorando os limites antes impostos por quem pudesse ter desenhado e mantido esse espaço. O avanço da natureza é, nestes casos, o recuo da presença humana e são esses espaços de ausência, tomados por memórias e “fantasmas”, portanto, que interessam ao Moon Wiring Club, que o inspiram na criação da sua música profundamente evocativa, sombria, mas ao mesmo tempo também profundamente lúdica.

Sejam então bem-vindos a Clinkskell. Não se assustem: é tudo a fingir e daqui a nada acordam…


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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