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Ilustração: Riça

Techno, house, hauntology e outras ondas.

Oficina Radiofónica #33: Nacho / FUSCO / Colónia Calúnia

Ilustração: Riça

A Oficina Radiofónica é a coluna de crítica de música electrónica do Rimas e Batidas. Música Electrónica? Sim. Techno e footwork, house e hauntology, cenas experimentais, ambientais, electro clássico e moderno, drum n’ bass e dubstep, dub e o que mais possa ser feito com sintetizadores e caixas de ritmos, computadores e osciladores e samplers e sequenciadores e outras máquinas que façam “bleep”, “zoing”, “boom” e “tshack”.



[Nacho] Social Dist Dance Vol 1 / Favela Discos

Introspective music for lock downs”, garante-se nas telegráficas notas que acompanham o lançamento. Na verdade, pouco mais é necessário para nos elucidar acerca de um disco como este Social Dist Dance Vol 1 da autoria do misterioso Nacho. A música, uma série de abrasivos pulsares, com propulsão rítmica que parece evoluir em órbita longe da força gravitacional que nos mantém os pés presos na Terra, é profundamente abstracta e liberta da ideia de “funcionalidade” que marca tanta da música de dança que se verga às necessidades da pista de dança. A rave aqui é outra: mental, interior, profunda. Distante, como o título refere. E dessa forma, este baile socialmente distanciado que Nacho nos propõe nasce do techno e propaga-se até dele já não ser mais do que um eco distante, uma miragem longínqua. Mas não é de memória, de uma interpretação nostálgica de uma qualquer epifania experienciada numa pista que se trata, antes de um anseio futuro qualquer inspirado pelo estranho e pandémico momento que todos atravessamos, pensando talvez, como sugere, por exemplo, “(de)generative muinheira 2”, que a dança do futuro será feita numa câmara hiperbárica enquanto se escuta música nos implantes cerebrais que Elon Musk nos há-de vender a todos daqui a alguns anos. E dessa forma, como se “prevê” em “lonely dance”, o acto de dançar deixará de ser comunal, utópico, físico e espiritual e passará a ser solitário, distópico, neural… Quem sabe…?



[FUSCO] Fusco / Favela Discos

O drone pode, obviamente, ser tratado como uma chave, como uma forma de abrir um normalmente inacessível espaço mental, uma forma de indução da nossa mente num plano a que habitualmente estamos impedidos de aceder. Nils Meisel sabe bem disso. O músico que aqui responde ao nome Fusco já navegou por outras paragens: é sintetizadores que toca no abrasivo trabalho de Sereias lançado em 2019 pela Lovers & Lollypops, mas a sua pontual participação no curioso Sangue Quente Sangue Friode Daniel Catarino faz-se com banjo, “pormenores” que, no mínimo, atestam a sua alargada capacidade de encaixe. Aqui, no que realmente interessa neste momento, enquanto FUSCO, em dois lados de uma cassete ou, talvez até de forma mais eficaz, no YouTube (sobre hipnótico vídeo de cores fortes que pulsam em figuras abstractas e ultra pixelizadas criadas por Henrikas Riskus – as mesmas que são recuperadas no artwork), Meisel carrega-nos durante 35 minutos para uma dimensão paralela, para uma paisagem pós-techno que parece pertencer a um planeta deserto, estranho na sua morfologia topográfica, árido e seco. Minimal, económico e lo-fi, este pós-techno ou alien-electro de FUSCO é sufocante na sua densidade, urgente na sua cadência e decididamente intrigante. No lado B, há mudança abrupta de velocidade que acentua a ideia de deslocamento, de estranheza, um abrandamento que soa como metal a corroer-se em tempo real sob o efeito de uma qualquer chuva ácida. Estranho, viciante, hipnótico, este FUSCO.



[Colónia Calúnia] Flor de Paiva / Colónia Calúnia

É deveras curiosa a opção da Colónia Calúnia de diluir num espírito identitário colectivo as individuais contribuições de que se vai fazendo o seu labiríntico catálogo. FLOR DE PAIVA é a mais recente proposta e chega com assinatura de Recondido, o misterioso produtor que soube virar o rosto e contornar as perguntas qual Neo a desviar-se das balas em Matrix na intrigante entrevista que concedeu ao Rimas e Batidas. Os beats de Recondido parecem tão distantes do hip hop (embora a esse género permaneçam obliquamente ligados) quanto Neptuno do Sol: essa distância permite-lhe tratar de outra forma a força gravitacional que o género impõe a quem o circula em órbitas mais próximas. Assim, embora se perceba que o sampling continua a informar a sua praxis, também se entende igualmente que a matéria que lhe alimenta o sampler é bem diferente (gongos budistas, drones, vozes que são ecos difusos, inóspitas frequências que hão-de resultar de manipulações profundas de sons eventualmente mais familiares na sua forma original, pianos distorcidos como se o seu som pudesse ser reflectido por aqueles espelhos côncavos das feiras…). Obtém-se assim uma beatologia altamente pessoal, de câmara lenta, algo absurdista e ao mesmo tempo capaz de nos eriçar os cabelos da nuca, como a música de alguns filmes em que o terror mais psicológico possa ser a fórmula para nos manter na ponta do sofá. E este é exactamente o tipo de música que em vez de nos fazer abanar a cabeça em concordância, nos obriga aqueles movimentos de ligeiro desconforto, como acontece quando algo que desconhecemos nos assusta e intriga em simultâneo. Para ouvir num quarto escuro de que desconheçamos a disposição dos móveis…

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