Oficina Radiofónica #12: Vítor Rua / Osso Exótico / Diana Policarpo & Afonso Simões

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [ILUSTRAÇÃO] Riça 

A Oficina Radiofónica é a coluna de crítica de música electrónica do Rimas e Batidas. Música Electrónica? Sim. Techno e footwork, house e hauntology, cenas experimentais, ambientais, electro clássico e moderno, drum n’ bass e dubstep, dub e o que mais possa ser feito com sintetizadores e caixas de ritmos, computadores e osciladores e samplers e sequenciadores e outras máquinas que façam “bleep”, “zoing”, “boom” e “tshack”.


[Vítor Rua] Electronic Music 1995 – 2010 / Marte Instantânea

Electronic Music 1995-2010 marca o nascimento de um novo selo, Marte Instantânea, “editora irmã da Holuzam” que conta com condução de José Moura (que também partilha responsabilidades na Príncipe e Holuzam). Este CD (cuja embalagem reflecte uma preocupação da editora com a reutilização de materiais) conta com artwork assinado por Nicolai Sarbib e reúne uma selecção do que é descrito como “um vasto arquivo digital que Vítor Rua colocou nas plataformas digitais habituais ao longo dos anos”. É, portanto, a consequência de uma vontade de conferir dimensão física e palpável a “música alienígena” que corria o risco de ficar perdida no “limbo online”. A sugestão por parte da Marte Instantânea para que esta música seja escutada em auscultadores é de facto acertada: Vítor Rua oferece-nos aqui um conjunto de minimais peças electrónicas, entre planos mais espirituais e contemplativos e outros mais maquinais e repetitivos, com nuances texturais que ganham com o detalhe aural que a audição atenta pode proporcionar. O membro fundador dos GNR e dos Telectu afirmou-se como uma das mais criativas e inquisitivas mentes da nossa música mais exploratória, tendo nesse vasto território erguido ampla obra que se estendeu entre o rock mais experimental, a música improvisada, a solo ou em variados ensembles, e a electrónica mais desalinhada. As peças aqui incluídas são provenientes de trabalhos como Telectu Cats (2010), Computer Music (1995), Hello, I Am Mister Ed (1996) e Dance Music (1999), mas essas são, na realidade, balizas meramente temporais para um trabalho que vive de uma coerência profunda e que poderia até ter surgido todo de um mesmo corpo ou de uma mesma sessão. Há um tranquilo arco, não necessariamente narrativo, mas estético, que coloca esta música no terreno do estudo de possibilidades, com Rua a tomar cada peça como ponto de partida para exercícios de coloração tímbrica, de exploração rítmica e de invenção melódica e harmónica que por vezes se acerca do que alguns dos mais entusiasmantes compositores japoneses andavam a fazer também nos anos 90 (conferir obra de Haruomi Hosono, por exemplo). Especialmente intrigante é a última sequência de peças, extraídas da obra Dance Music, que vivem de esparsos pulsares electrónicos que se afiguram como tangentes ao que o mais funcional techno procurava fazer em meados da década de 90 do século passado. “L”, por exemplo, dá-nos o estímulo suficiente para que a nossa imaginação parta em delirantes derivas quando a pergunta “e se Rua tivesse colaborado com Jeff Mills?” surge inadvertidamente na nossa cabeça…


[Osso Exótico] L’Assemblage / Russian Library

“O mármore é para o ácido um deleite”, peça para guitarra e fita magnética nocturna, “de alguns que acima de tudo apreciam os caracóis”, para flauta boliviana e parede de bronze, ou “o crítico lúcido vê o que pretende”, para caixa shruti, guitarra, órgão e taças de cobre tocadas com arco, são alguns dos exercícios que Patrícia Machás, André Maranha, David Maranha, Francisco Tropa e Manuel Mota assinam neste novo single da Russian Library. Verdadeiro marco da nossa música mais experimental, os Osso Exótico continuam, 30 anos depois da edição do título inaugural da sua discografia, I, a distinguir-se com uma das mais intensas e abrasivas visões musicais que podemos experimentar. E graças ao delicado trabalho com drones, ruídos, feedback, gravações de campo e trabalho de colagem sobre manipulação de gravações de sons gerados com os mais variados objectos (além do que já se citou escuta-se por aqui “costeletas, lombo e perna de porco de bronze”, “pequenos limões de bronze”, “copo de água”, “presunto de bronze” – presumivelmente a perna do dito bicho de metal semi-precioso já devidamente curada… –, “interferência de rádio no amplificador de baixo”, “bicicleta” e “candeeiro de gás”), obtém-se um vívido mural aural feito das mais variadas texturas, rico na sua variedade, e com um saudável sentido de humor que não resulta apenas dos títulos (“lamentávamos um pouco esse monte de mercadorias” ou “o genealogista observa-lhes a botija de água quente”) mais ou menos surreais, mas também da natureza inquisitiva da própria música. E quando se julga que na lista de instrumentos citados um “arghul” é apenas mais uma fantasia para denominar um ruído de fundo que se escuta enquanto se agitam potes de cobre, a dúvida do crítico lúcido leva ao Google que desvenda que o que poderia parecer simples onomatopeia ou até ser nome inspirado noutro possível inimigo de Batman (familiar, certamente, do Ra’s al Ghul), é, afinal de contas, um tradicional instrumento de sopro egípcio e palestiniano. Que ele surja num tema com o título “de onde em tempos idos Galileu lançava os potes” é mais uma prova desse refinadíssimo sentido de humor: é que se calhar os astrónomos dos mais progressistas faraós já tinham concluído, muito tempo antes do cientista italiano, que o sol estava, de facto, no centro, dando a Hórus um destacado lugar na sua teologia.


[Diana Policarpo & Afonso Simões] s/título / Russian Library

Apesar de ter vasta obra no domínio de intersecção entre as artes visuais e sonoras, com múltiplas peças e instalações exibidas em galerias ou museus, Diana Policarpo, que também estudou no Conservatório Nacional de Música de Lisboa e se apresenta igualmente como compositora, tem pouca música publicada (há uma cassete de 2016 listada no Discogs e alguns temas na sua página SoundCloud). Saúda-se, também por isso, esta sua participação no catálogo da Russian Library ao lado de Afonso Simões, homem de Stasera ou Gala Drop, por exemplo, de quem temos mais referências neste campo editorial. Juntos, Policarpo e Simões, assinam dois temas, “Metais” e “Peles”, que remetem para o universo da percussão, que aqui é menos explorado na sua vertente rítmica e mais pelo seu lado tímbrico, textural e harmónico. A ressonância dos címbalos e a sua reverberação é aqui mostrada em toda a sua exuberância, deixando-nos igualmente adivinhar ou pressentir um vasto espaço físico em que o fenómeno da propagação das ondas sonoras aqui captadas sucede. Já o lado dedicado às “Peles” quase soa como uma gravação de campo de natureza antropológica, talvez pela natureza mais monocromática do registo, bem mais “baço”. O que é luz e nitidez no lado A do single, é, no lado reverso, nevoeiro e formas difusas. Bastante curiosa é a sugestão que a dupla nos faz para que ambos os temas se escutem ao mesmo tempo, efeito que se pode obter com duas cópias da limitadíssima edição em acetato ou, em alternativa, tocando em simultâneo o lado A e o lado B do single disponível em streaming na página Bandcamp da editora (em dois browsers diferentes) resultando tal experiência numa nova peça que revela que as duas dimensões se conjugam na perfeição, como a terra e o ar, ou a luz e a sombra, o que até leva a pensar se não terão sido as duas faixas, “Metais” e “Peles”, gravadas ao mesmo tempo, em diferentes canais, tal a sua perfeita harmonia quando escutadas juntas. Trata-se de uma nova dimensão na proposta programática da Russian Library, parecendo que aqui se abandonam os terrenos da memória e que se investe mais pelo lado sensorial e acústico. O que não deixa de fazer pleno sentido no conjunto do ainda contido catálogo da editora, que nos seus cinco momentos diferentes é consistentemente inquisitivo, exploratório e intrigante. Como importa.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu