Oficina Radiofónica #11: Gil Scott-Heron / Jan St. Werner / UR

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [ILUSTRAÇÃO] Riça 

A Oficina Radiofónica é a coluna de crítica de música electrónica do Rimas e Batidas. Música Electrónica? Sim. Techno e footwork, house e hauntology, cenas experimentais, ambientais, electro clássico e moderno, drum n’ bass e dubstep, dub e o que mais possa ser feito com sintetizadores e caixas de ritmos, computadores e osciladores e samplers e sequenciadores e outras máquinas que façam “bleep”, “zoing”, “boom” e “tshack”.


[Gil Scott-Heron] I’m New Here (10th Anniversary Edition) / Xl Recordings

De certa maneira, abordar Gil Scott-Heron numa coluna focada na música electrónica pode ser quase uma heresia. O malogrado poeta, desaparecido em finais de Maio de 2011, começou por escrever poesia, deu voz a ideias formadas num tempo de lutas reais, nas ruas, quando os mais básicos direitos civis não eram sequer uma certeza no horizonte de vida de qualquer jovem negro, inspirou-se em John Coltrane e James Brown e criou uma música de combate e elevação a partir de uma conjugação feliz e profundamente humana de jazz, soul, política e filosofia. Quando em 2010 assinou I’m New Here na XL de Richard Russell, mais de década e meia depois do seu trabalho anterior, Spirits, Gil era já ele mesmo um mero espírito, um espectro talvez, a braços com recorrentes problemas com a justiça causados pelo consumo de drogas ilícitas. O álbum soava como o resultado de uma breve passagem do homem de Winter in America pelo estúdio, com o material a ter sido certamente gravado acapella – o modo spoken word é dominante – ou no máximo com esparsas bases de referência, tendo depois o patrão da XL tratado essa preciosa e nobre matéria colando-a a beats que exploravam o espaço existente entre o hip hop e um certo sentido de desolação pós-dubstep, entre a América de Kanye West e a Inglaterra de Burial, entre o passado e o que era então um negro presente em que o medo que se abateu sobre o mundo depois do 11 de Setembro ainda imperava e a esperança trazida por Barack Obama, que se tinha instalado na Casa Branca apenas um ano antes, ainda não se tinha começado a fazer sentir. Entre palavras da sua própria lavra, outras pedidas emprestadas a Robert Johnson, Brook Benton ou Bill Callahan – marcos especiais numa particular sensibilidade espiritual americana – Gil assinou uma intensíssima despedida, desviando-se da norma jazz-funk que tinha seguido em boa parte da sua discografia para se acercar de uma mais nocturna, pulsante e “moderna” visão musical. Russell foi inteligente o suficiente para manter a sua moldura musical discreta, permitindo que todos nos focássemos na dor profunda que emanava daquela voz torturada e carregada de cicatrizes. E há momentos de absoluto brilhantismo: o clássico blues do grande fantasma do Delta Robert Johnson, “Me and The Devil”, desvia-se do curso original e veste as mais negras roupas de um hip hop de recorte gótico; “Where Did The Night Go” é ainda mais soturno, um fugaz tremor de sub-graves que se faz ouvir enquanto Gil confessa que talvez esteja a sonhar; já o blues que o poeta-cantor deixa desprender-se da garganta na premonitória “New York Is Killing Me” casa na perfeição com o clap e o som do trovão, num tema a que Chris Cunningham, o homem dos pesadelos visuais de Richard D. James, cede umas malhas de guitarra e uns sombreados de sintetizador. Uma década depois, este espantoso adeus faz-se de novo matéria presente por via de uma justamente expandida edição que nos revela mais uma incursão por cancioneiro alheio, desta vez com a belíssima “Handsome Johnny”, pérola folk de Richie Havens, revisitações espartanas de “Home is Where The Hatred Is”, “Winter In America” e “Is That Jazz?” com voz e piano do próprio Gil (“I dabble”, diz ele…) e ainda se acrescenta ao alinhamento uma passagem por “In My Cloud” (tema já conhecido de We’re New Here). Há algo de profundamente solene e nobre na voz de Gil Scott-Heron, mas também, talvez por ela aqui ter sido gravada na solidão desoladora que um estúdio pode impor, quando o microfone e o espírito são a única companhia do artista, revela possuir uma natureza quase sobre-humana, aqui transformada em zeros e uns, graficamente traduzida numa onda que ocupa várias pistas numa sessão de pro-tools. A mesma matéria que Makaya McCraven acabou de usar, inspirou Richard Russell neste autêntico requiem, disco tão belo quanto duro, tão carregado de dor quanto despido de adornos supérfluos. Faz tanto sentido nesta oficina radiofónica como os moldes usados noutras oficinas para que se continuem a fabricar novas peças.


[Jan St. Werner] Molocular Meditation / Editions Mego

Como a voz do poeta mencionado acima, também a de Mark E. Smith, o lendário líder dos Fall desaparecido há um par de anos, possui uma gravitas particular, uma densidade que nenhum outro vocalista rock conseguiu alguma vez replicar, parte escárnio etílico, parte ácido gástrico, parte retórica esquerdista, parte discurso literário sério ancorado em referências tão distintas quanto Ezra Pound ou Philip K. Dick. Matéria perfeita para a electrónica trabalhar, o que certamente há-de ter justificado a parceria estabelecida com Jan St. Werner e Andy Toma, dupla conhecida como Mouse On Mars, no projecto Von Sudenfed. “VS Cancelled”, derradeiro tema no lado B deste Molocular Meditation, parte aliás da leitura de Mark E. Smith de um email da Domino a dar conta da resolução do contrato de edição dos Von Sudenfed, com o editor discográfico a invocar razões de mercado que levaram depois o desbocado velho rocker a não esconder o seu profundo desdém e sarcasmo durante a “performance”. Uma voz com estas ricas características dramáticas, texturais e performativas presta-se a esta encenação experimental e Jan St. Werner não cede um milímetro na sua habitualmente obtusa visão, cercando-a de pulsares arrítmicos, de nevoeiro de frequências abrasivas, transformando-a em matéria tão abstracta quanto as paisagens que aqui ergue. A peça original construída por St. Werner em torno da voz de Smith foi originalmente apresentada no Cornerhouse, em Manchester, em 2014. Como se revela nas notas que acompanham esta edição, a versão presente resulta de uma nova mistura do material multi-canal para uma versão estéreo que conjuga partes gravadas na cidade do norte de Inglaterra (voz e feedback de guitarra) e outras registadas em Berlim (electrónica). No lado B deste curto álbum, St. Werner adicionou peças criadas na mesma altura de “Molocular Meditation”, pedaços de pura experimentação comprometidos com a ideia de implosão de padrões rítmicos repetitivos e com a exploração de colorações tímbricas de natureza assumidamente digital, como se o artista alemão estivesse interessado em subverter as possibilidades normativas oferecidas pela tecnologia que usa como ferramenta de criação. E, claro, a fechar esta “meditação” há ainda espaço para o tal tema baseado no email que descartava os Von Sudenfeld, alinhando-se St. Werner dessa forma com o crítico espírito de Mark E. Smith que nunca deixou verdadeiramente de combater a dimensão capitalista da cena musical em que ele mesmo foi agente interventivo.


[UR] Knights of The Jaguar EP / Underground Resistance

Este clássico de 1999 já foi alvo de variadas reprensagens ao longo dos anos, facto que se justifica tanto quanto as constantes recatalogações do melhor que gente como Prince ou os Kraftwerk nos ofereceu. 2020 estava a pedir mais uma, o que em boa hora acontece. DJ Rolando, aka The Aztec Mystic (e se o devir electrónico afro-americano nos deu um amante egípicio, vários discípulos de Shaolin, descendentes de Atlântida e sacerdotes de múltiplas fés, porque não um místico asteca?), criou com “Jaguar” um verdadeiro standard, amplo mural feito de pinceladas de cordas e de uma cadência que lembra, paradoxalmente, tendo em conta o título que poderia remeter para as florestas sul-americanas, o passo incessante que a indústria parece ter injectado no ADN de todos os nativos de Detroit. A sofisticação da peça é total e se na sua identidade tímbrica há elementos que se podem ancorar numa era específica, isso não é, no entanto, suficiente para que se classifique a produção como datada. Muito pelo contrário, parte do charme de “Jaguar” advém, precisamente, do facto de não esconder que foi assim que o futuro se projectou diante dos nossos ouvidos há pouco mais de 20 anos. E sem padecer da típica quebra com crescendo que se tornou no viciante algodão doce do EDM – as únicas variações aqui resultam de estratégicos mutes na mesa durante a mistura – “Jaguar” não tem um único detalhe que lhe belisque a grandiosidade techno. No lado B há “Ascension”, exercício decididamente mais musculado, com propulsão de kick e clap a 140 à hora numa recta de asfalto infinita, o suficiente ainda assim para nos colocar rapidamente em órbita, sobretudo quando o modo swing é accionado nos claps da 808 e um feel mais tribal nos empurra para o centro da pista, conduzindo ao hipnótico abandono que já todos experimentámos (pelo menos…) uma vez na vida, quando tudo – luz, corpos, som, volume, energia/cansaço, sintonia espiritual e eventual ajuda química – se conjuga e de repente damos por nós 10 ou 15 CMs acima do chão sem que ninguém ache tal facto estranho.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu