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Fotografia: SEIJIN

Três rappers assumem a dianteira deste momento que pode significar uma viragem definitiva para a expressão crioula.

O rap crioulo chegou ao mainstream: uma nova era para o movimento

Fotografia: SEIJIN

Nos últimos seis ou sete anos, o hip hop cresceu estrondosamente em Portugal. Passou da ausência já habitual nos cartazes de festivais ou festas populares e académicas para uma presença obrigatória em quase todos os eventos, dos mais mainstream aos vincadamente alternativos. As rádios em geral deixaram-se contagiar pelas rimas e batidas. Os números em plataformas como o YouTube e o Spotify não enganam.

Se o hip hop tem uma longa história de marginalização, tanto nos EUA como nos outros países para o qual se expandiu, como Portugal, isso poderá ser ainda mais verdade, no caso nacional, para o rap crioulo em específico. O exotismo da língua e o estatuto social a ela muitas vezes associado foram factores que pesaram para que estes artistas não tivessem tantas oportunidades e portas abertas como os seus pares que rimavam em português.

Isso também aconteceu durante muito tempo na relação com as grandes editoras. “Não há controlo e o rap crioulo ainda não tem edição/ Numa major nem que seja só para distribuição”, como dizia, em 2006, Sam The Kid em “Pela Música Pt. 2”, faixa de Valete do álbum Serviço Público, que também conta com a participação de Ikonoklasta. Enquanto houve vários rappers a assinar com majors ao longo da última década — num processo que obviamente se intensificou (e muito) nos últimos anos –, o rap crioulo só agora tem direito à sua era de reconhecimento mainstream, com a abertura das editoras à sua música, até porque já era fenómeno de popularidade incontornável e impossível de não conhecer.

Neste momento, a grande tríade nas labels é composta por Julinho KSD e os seus Instinto 26 (Sony), Rafa G (Universal) e DreNaz (Warner). Vários outros, obviamente, são igualmente populares e teriam o talento necessário para suscitarem o interesse de uma editora desta dimensão.



[Uma história que continua a ser contada todos os dias]

Djoek terá sido o primeiro rapper a cantar em crioulo a lançar um álbum em Portugal. Vindo de Cabo Verde para a Cova da Moura durante a adolescência, lançou, em 1996, Nada Mí N’Caten através da editora Disconorte, baseada na Amadora e com várias edições de música africana. O disco teve até direito a videoclipes e, tendo em conta a época, foi um marco histórico.

“Ele estava muito à frente. Antigamente, ter acesso a um estúdio nem nos passava pela cabeça”, conta Karlon, outro dos pioneiros do rap crioulo em Portugal, que começou a rimar durante os anos 90 e participou em várias mixtapes importantes nesse período. “A malta passava a vida nos improvisos, a fazer beats na QY10… As condições eram difíceis e bué caras.”

Na altura, a realidade das editoras e da indústria musical era algo distante para estes jovens que faziam música de forma orgânica, na casa uns dos outros e na rua, sem qualquer tipo de pretensão. Karlon explica que nunca se sentiu marginalizado por fazer rap, porque, lá está, a sua realidade era a sua comunidade. E, além disso, o factor racial muitas vezes sobrepunha-se à questão da música — já era uma comunidade afectada pela discriminação há muitos anos, independentemente de se fazer rap ou não.

“Se alguém diz que o rap crioulo era marginalizado, era por ser um público sem conhecimento, porque na comunidade que vivia nos bairros, a malta de Miraflores, Fontainhas, Alto de Santa Catarina, aí dávamo-nos todos bem e o rap era bastante aceite porque era uma voz de conforto para a comunidade, de ouvir as verdades. Tens o exemplo dos TWA da Pedreira dos Húngaros, do bairro onde cresci, que já na altura diziam ‘tá-se mal em Portugal, tá-se mal em Portugal por motivo racial’. Havia bué esse stress. A discriminação, à parte da polícia, da maneira como tratavam os blacks na altura. Pronto, a malta também não era santa, mas muita gente passava por más condições, havia muitos furtos, muito tráfico de droga… Isso é o lado mais obscuro, mas havia muita malta que trabalhava, que levava uma vida honesta. E isso acontece em qualquer parte do mundo. Havia uma certa discriminação, mas na minha óptica o rap crioulo nunca foi marginalizado porque temos que ver do lado de quem apoia… agora, os cotas se calhar não aceitavam muito, mas até acho que achavam alguma piada, falo pela minha mãe. Dizia, ‘deixa-te dessas coisas, isso não é vida e não sei quê’. E se calhar nunca parou para ouvir a palavra. Na minha cabeça não houve marginalização, mas na cabeça da malta do business se calhar sim. Mas eu também sempre cantei em português. Nunca vi a língua crioula e o português como diferentes, é tudo uma grande família.”

O documentário Outros Bairros, gravado em 1999 por Kiluanje Liberdade, Vasco Pimentel e Inês Gonçalves, em bairros periféricos de Lisboa, espelha bem esta realidade e tem até Karlon (e a cultura hip hop) como um dos protagonistas. Era uma fase em que a maior parte do rap não existia em registo discográfico, era uma cultura oral que assim funcionava por causa das poucas condições que havia. “Mas o engraçado é que havia concertos, quase que podias dizer que havia ali um álbum, concertos de uma hora, 40 ou 50 minutos, a malta cantava bué temas, com estrutura musical, com refrão… muitos deles nunca foram gravados.”



Karlon e Praga foram exceções. Juntos formavam os Nigga Poison, que viriam a estrear-se com Podia Ser Mi, disco de cinco temas lançado de forma independente em 2001. Karlon tinha 21 anos. Era o auge das edições independentes do hip hop tuga, quando nomes como Sam The Kid, Micro, Chullage, Regula, Valete ou Xeg lançavam os primeiros trabalhos de forma independente ou em editoras criadas por membros da cultura ou elementos ligados ao movimento. Foi também uma forma de afirmação, numa fase de distanciamento entre a indústria e o hip hop, depois de Mind da Gap, Da Weasel, Boss AC, Dealema ou Black Company terem trabalhado com editoras grandes.

“Editoras ainda não se via… sabes que a editora pensa em lucro, não está a pensar em ajudar ninguém. Pensa se o conteúdo musical vai bater ou não. Mas com os Nigga Poison foi muito rápido. Não tenho editora, epá vou abrir uma editora, daí fiz a Kreduson Produson. Não estava registado na SPA, como é que posso registar a minha música? Fui à SPA. Registei-me e abri a minha conta em 2001. Como é que fazíamos CDs? Se reparares, o Podia ser Mi foi uma parceria com a fábrica da Sony na Áustria. Uma vez fui ao estúdio do Tó Ricciardi, estava lá a fazer um graffiti e conheci uma senhora da Sony da Áustria. Não sei se hoje está viva, na altura já era meio velha. E foi tudo independente. Investimos com o nosso guito, pagámos à Sony austríaca o fabrico dos CDs. É engraçado porque eu fiz os beats na Playstation, que também é Sony, eu basicamente posso dizer que sou um filho da Sony sem nunca ter estado na editora [risos].”

O percurso de Karlon e dos seus Nigga Poison é interessante e relevante porque trata-se do caso de maior sucesso comercial (e dentro da indústria musical) do rap crioulo em Portugal, se não contarmos com os últimos anos. “Na altura, também com a Edel, do Peter Cooper, que lançou o J-Cap, Sam The Kid, Chullage, foi bué importante porque começámos a aparecer nas revistas, a passar na rádio. A malta comprava os CDs, tu estavas na rua e a malta a ouvir no carro.”

Cinco anos depois, lançavam Resistentes, um disco que saiu por uma editora com uma estrutura maior, a Very Deep. “Era uma estrutura grande, davam-nos condições, estúdios com qualidade. Por exemplo, os beats foram comprados, e nós não tínhamos guita para comprar beats, eles investiam na qualidade. Foi uma experiência de trabalhar com a indústria. Não vou dizer que foi tudo um mar de rosas, porque também ouvias aquelas dicas de ‘façam assim’ e ‘façam assado, porque acho que…’, mas fizemos como nós gostámos, fiz sempre aquilo com amor. É bom, mas, ao mesmo tempo, quando estás numa editora assim, tens um calendário. Começam a preparar-te espectáculos, estúdio, promoção, é normal para a coisa funcionar. Mas tens que estar dentro dos prazos. E é tudo tão rápido que tu não consegues dizer, num dia em que estás com dor de cabeça, ‘epá hoje não consigo ir gravar’. Tens que ir gravar. Hoje o meu filho está com dor de cabeça, está no hospital, mas ‘tens que ir ao estúdio, tens que ir ao concerto’, porque é muita responsabilidade, com dinheiro envolvido. Isso tudo faz parte e temos que estar aptos. Mas há coisas mínimas que é uma beca de exploração.”

Vantagens e inconvenientes à parte, os Nigga Poison tornaram-se realmente mais conhecidos e foram até nomeados para um Globo de Ouro da SIC em 2007, na categoria de Artista Revelação. Mickael Carreira levou o prémio para casa. O videoclipe de “Fazes Parte Deste Mundo” passava regularmente na MTV.

“Quando és puto, vês isso na televisão, nunca te passa pela cabeça que isso podia acontecer contigo. Não desprezo os prémios, foi uma experiência bué boa, foi o reconhecimento de que estavas no caminho certo. Sentia love do pessoal, mesmo da malta da rádio, jornalistas, realizadores, engenheiros de som, com quem tenho ligação até hoje, isso é lindo. Mas na altura o vídeo de Nigga Poison estava a passar na MTV, eu estava no bairro ‘eia Karlon, estás bué orientado, cheio de guita’. Eu: ‘Mano, achas mesmo que se eu estivesse cheio de guita estava aqui no bairro? Já não tinha comprado uma vivenda?’ Estava tudo ainda a acontecer, porque tinha de se recuperar o dinheiro investido, as pessoas não sabem como a indústria funciona.”

Ainda assim, Karlon não tem dúvidas de que o sucesso dos Nigga Poison na altura abriu portas para outros nomes do rap crioulo que se seguiram e “para perceberem que também podiam ir longe”. Foi uma forma de erguer a bandeira do rap crioulo em sítios onde nunca tinha passado. “Tanto que a nossa geração começou a interessar-se pela língua do crioulo, consumiam tanto Nigga Poison que sabiam as letras de cor, havia uma mistura de culturas. Uma vez fomos ao Luxemburgo e estás a ver a comunidade cabo-verdiana e portuguesa toda misturada a ouvir pimba. Eu senti-me no pimba como um cabo-verdiano e português, a cena da saudade. Os Nigga Poison iam tocar e o DJ antes, em vez de passar hip hop passava pimba, uma kizomba, a mistura… e isso é que eu acho que é a chave que a música tem de boa, de misturar culturas.”

Depois de Resistentes, a relação com a Very Deep complicou-se e os Nigga Poison passaram alguns anos atribulados e sofridos. “Tínhamos um contrato de cinco anos e nós não temos dificuldade em fazer música. Ficámos agarrados ao contrato e aquilo arrastou, arrastou… Primeiro vem o português que canta em inglês, depois o português que canta português, o crioulo ficou no fim, estás a perceber? Foi um obstáculo. Tivemos que abandonar tudo e fazer-nos à pista, meter os sons na street porque tínhamos de dar música ao povo”. E foi assim que, cinco anos após Resistentes, saiu Simplicidade, o último disco dos Nigga Poison até ao momento, numa edição da Optimus Discos.

Resistentes foi lançado numa altura em que a resistência às editoras estava no auge — por exemplo, saiu no mesmo ano que Serviço Público, de Valete, um manifesto anti-editoras, rádios e indústria musical no geral, que espelhava um sentimento relativamente comum dentro do movimento hip hop, de permanecer independente, de ficar underground, de não se “deixar vender”, quando a discussão no interior da cultura era underground vs. comercial, algo que durou vários anos.

“Tínhamos essa resistência às editoras, mas não tínhamos uma estrutura bem afinada, não íamos dizer que não. Nós queríamos era fazer música e que tratassem do resto do trabalho, porque era muito desgastante. Apanhei bué esgotamentos à pala de bué trabalho, e é complicado. Quando a editora entrou, ajudou nessa parte, era uma equipa. Não é como hoje, que falo com o designer para fazer a capa, depois falo com a fábrica, depois envio para as rádios, falo com a distribuidora da Fnac. Hoje faço as coisas mais calmamente. Na altura não tínhamos os contactos certos. Agora com a net é mais fácil.”

Tal como Karlon explica, a democratização da Internet e o aparecimento de plataformas como o YouTube vieram “revolucionar” o rap em Portugal — e em particular o crioulo, que tinha menos expressão nas rádios, comunicação social e editoras. “As portas estavam fechadas para a geração que estava em baixo, estavam ainda a sair da casca do ovo. Começaram a descobrir o que era o YouTube, e em 2011/2012 houve um boom de artistas com videoclipes, pessoas como o Katana que começaram a realizar vídeos, a usar Canon. Nós dantes era com aquelas câmaras quase de cinema e o orçamento era super caro. E de repente com 200 euros já fazias um vídeo a rebentar, em vez de ser apenas um som a passar no bairro de mão em mão.”

Falamos da geração de nomes como Landim, Né Jah, Babydog, Kova M ou Loreta, entre vários outros. “E muita dessa malta vingou à séria, foram para o estrangeiro. Começou a ver que era um veículo. Claro que também tem coisas más, mas isso é como tudo. A malta também tem de se adaptar aos tempos.”

Esta história, que continua a ser contada todos os dias, é a de sucessiva inspiração, quebra de preconceitos e abertura de portas uns para os outros, de geração em geração, de artista para artista. Muitas vezes, é uma forma de alcançar a tão desejada ascensão social. Karlon mostra-se contente com a geração actual de artistas com milhares e milhares de seguidores, milhões de visualizações, e que estão a trabalhar com as maiores editoras nacionais.

“Fico bué orgulhoso, porque é malta jovem que consegue tomar conta do recado. Têm energia e se a conseguirem canalizar podem ter sucesso e explorar cada vez mais. E fico muito contente porque se não souberem como é que o backoffice funciona, é bom que tenham pessoas que estejam no backoffice. E eu digo a qualquer jovem: se é para estar na rua a vender droga ou a roubar, porque não fazer um rap saudável? Como o Julinho, que está a ter sucesso, a dar concertos e a ser amado. É muito sucesso e é muito bom. Eu já vi muita coisa quando era puto, malta a nascer, malta a morrer, o que eu digo sinceramente é que espero que os rapazes estejam a fazer guita com qualquer coisa saudável, menos algo que seja ilícito. Essa é a chave do hip hop. Salvar vidas. Continua actual.”

O crioulo em si — também pelo crescimento de música fora do espectro do hip hop — até parece se ter tornado quase uma tendência, algo que é muito mais valorizado nos dias que correm, em comparação com, por exemplo, os anos 90 ou o início dos anos 2000. “Hoje há uma maior abertura, sem dúvida. Hoje em dia se calhar a editora para um gajo que canta em português: ‘olha, não queres cantar em crioulo para bateres?’ Hoje já está ao contrário [risos]. E é na boa se for um português a cantar em crioulo. Há uma geração que cresceu a ouvir crioulo. Mesmo na Pedreira dos Húngaros cresci com malta que tinha origens alentejanas e falava crioulo, conheço bastantes que ainda falam mais crioulo do que eu. Não vejo mal nenhum. Então se um preto canta em português porque é que um branco não pode cantar em crioulo? Não interessa a língua, interessa é a mistura. Gostava bué que o crioulo fosse um dicionário, que estivesse no Google Translate”. E o rap tem contribuído bastante para a valorização da língua, materna para a maior parte dos cabo-verdianos e descendentes, mesmo que o crioulo não seja sequer língua oficial em Cabo Verde. Tudo porque é uma mistura (uma crioulização) entre os ancestrais dialectos locais (e de outros países africanos) e o português.



[Uma nova brisa no rap crioulo]

Oriundo da Margem Sul e com pouco mais anos do que Karlon quando saiu Podia Ser Mi, DreNaz rima em crioulo desde que começou a escrever e a fazer rap. “Foi logo natural, escrevi logo em crioulo. Sempre falei, por isso quando fui escrever tinha de ser em crioulo. Nem estive a pensar, saiu-me. Só mais tarde é que comecei a misturar com o português. Estou em Portugal e também tinha de estar no mercado português, não podia ser só crioulo”, diz o jovem artista ao Rimas e Batidas.

DreNaz diz que misturar as línguas, algo que só tem feito mais recentemente, desde que assinou com a Warner no início deste ano (e do qual já saiu o disco Momentos), tem sido vantajoso. “Há muitas pessoas que não percebem [crioulo], podem ouvir uma vez ou outra, mas… se misturares um bocado com o português as pessoas já podem entender mais alguma coisa. É uma vantagem, mas cada vez há mais pessoas a quererem perceber crioulo.”

O rapper frisa que a ligação de artistas como ele às editoras major “é muito importante”, até porque “ajuda a levar o rap crioulo ao mais alto nível”. “Antes era muito mais complicado, agora nestes últimos anos é que começou a ganhar mais campo no mercado. Começou a atrair mais pessoas. E as editoras começaram a ver se, aquelas pessoas todas viram algo, é porque tem de se investir. Abre muitas portas e hoje em dia há uma maior abertura, claramente.”

Em declarações ao Rimas e Batidas, o A&R da Warner Music Portugal, Paulo Miranda, explica que o que os levou a querer trabalhar com DreNaz foi “o talento (o Santo Graal da nossa actividade) e, não menos importante, a postura”. “O DreNaz é muito talentoso e estou seguro de que será apenas uma questão de tempo para ser um dos nomes mais fortes da cena da música urbana em Portugal.”

Paulo Miranda diz ainda, extravasando os limites do rap, que o talento é o que tem levado a que muitos artistas em crioulo se tenham tornado fenómenos de popularidade recentes. “O que é mais importante em qualquer expressão artística, neste caso musical, é o talento. Há uma nova geração de artistas muito talentosa a expressar-se em crioulo. Quando há talento, há, mais cedo ou mais tarde, resposta do público. Essa é a simbiose a que estamos a assistir e que, acredito, se irá manter durante muito tempo. Aliás, não é só no rap. Veja-se o caso do Dino D’Santiago, da Mayra Andrade ou, se recuarmos mais, da Cesária Évora. O público sempre cá esteve. A novidade é estar a chegar a uma geração mais jovem. Pode, de facto, ser popular em Portugal. Aliás, já o é. E essa popularidade é fruto, acima de tudo, do trabalho de uma geração de artistas muito talentosos a expressar-se em crioulo. E lá está: o talento é sempre o que mais nos motiva.”

O artista em crioulo que tem sido o farol da popularidade para a geração mais jovem trata-se de Julinho KSD, que assinou (em conjunto com o seu colectivo Instinto 26) pela Sony Music Portugal em Setembro do ano passado. “É importante porque já marquei um pedaço da história de Cabo Verde. Pelo menos aqui em Portugal já reconhecem e não sou apenas marcado como rap crioulo, mas como rap tuga que também é crioulo, e vejo que me dão valor. É uma prova de reconhecimento”, explica o artista de Mem-Martins ao Rimas e Batidas. “Estamos agora a fazer acontecer com a nova geração, vamos abrir mais caminhos porque eu já consegui abrir portas, o Rafa G vai abrir mais portas, mais pessoas vão abrir outras portas e assim vai continuar a nossa jornada no rap crioulo.”

Para Julinho KSD, o desejo de reconhecimento para a música e, em concreto, o rap em crioulo, é algo que está sempre latente. O objectivo é sempre levar a bandeira mais longe, a novos lugares e pessoas. E aí também entra o factor sonoridade e todas as mudanças que têm caracterizado este departamento (se lhe pudermos chamar assim) do hip hop tuga. Tradicionalmente, o género esteve ligado a sonoridades boom bap sombrias e melancólicas, com uma descrição crua de realidades duras, mas as novas tendências musicais — nomeadamente, a abertura do hip hop às batidas afro — têm tornado o rap crioulo muito mais festivo, e Julinho é um dos melhores exemplos disso.

“O crioulo está a ter uma grande força, surgiram vários artistas. Eu sempre ouvi rap crioulo, mas sempre foi dedicado a um certo tema, e agora começámos a abrir caminhos para mais temas. Por exemplo, o meu tema é só festa, raparigas, whatever, o que tiver de ser. Mas a maioria dos rappers de rap crioulo que cantam boom bap é mais street, tem várias diferenças. Mas vamos abrindo portas e vendo as diferenças dos temas que vamos cantando. É mais difícil [furar com a mensagem street] mas aposto que daqui para a frente as coisas vão melhorar. Quando isto do corona passar vamos surgir em peso.”

Sobre as sonoridades de batidas afro que são o ADN de várias das suas músicas, Julinho diz que “é uma nova vibe que apareceu em Portugal”. “Eu também tinha noção que tinha trazido uma coisa diferente, e como correu bem sempre continuei e vou continuar, porque me estou a tentar associar a este estilo de música. Vou continuar no mesmo estilo e daqui para a frente se for preciso mudar alguma coisa mudamos.”



Tal como DreNaz (e Karlon, muitos anos antes), Julinho vai misturando o crioulo e o português, algo que até descreve como um “truque” para o sucesso. “O crioulo não é um obstáculo, mas sabia que para atingir o people português tinha que cantar e misturar um pouco com o português, tive que fazer este truque e tentar adequar-me a qualquer beat, tentar ser versátil, para isto poder acontecer. Fui sempre treinando os dois, mas no início cantava só em crioulo, vi que a minha fanbase era baixa, tentei o português e começou a correr bem, comecei a acrescentar e deu certo.”

Tem referências como Né Jah, Landim ou Puto G, entre tantos outros, e um objectivo bem claro: “Tentar ser o que os outros cantores foram para mim.” Quanto às vantagens de trabalhar com uma editora como a Sony, é fácil de perceber os pontos de contacto com aquilo que Karlon dizia sobre a Very Deep em 2006. “Somos um pouco mais organizados, temos pessoas a trabalhar connosco e há certas coisas com que não temos de nos preocupar. Simplesmente temos que nos preocupar com a música, e trabalhamos tranquilamente sem ter de nos preocupar com certas coisas.”

O A&R da Sony Music Portugal, Afonso Rodrigues, também falou com o Rimas e Batidas sobre o tema. Os motivos que os fizeram querer trabalhar com Julinho KSD foram “a diferença, a novidade, a frescura, o talento puro”. “Quando ouvimos o Julinho pela primeira vez ouvimos algo que nunca tínhamos ouvido. Penso que isso é o que procuramos sempre, alguém que seja único e que se destaque.”. Julinho KSD tem lançado novidades a solo, assim como com os Instinto 26, do qual se espera um EP.

Assim como Paulo Miranda, Afonso Rodrigues ultrapassa os limites do rap para explicar a popularidade e atracção do crioulo na música neste momento. “Nos últimos 20 anos o rap aproximou-se cada vez mais do espaço que ocupava a pop mais clássica. O rap foi deixando de ser apenas uma forma de expressão artística mais localizada para passar a ter também um appeal cada vez mais global. Portugal acompanhou essa tendência tal como o resto do mundo. A Sony já tinha uma ligação muito forte ao crioulo através de artistas como Cesária Évora, a Sara Tavares, o Dino D’Santiago, Mayra Andrade, Mário Lúcio, etc. A vontade de trabalhar com o Julinho surgiu pelo talento enorme que tem e pela facilidade de se movimentar entre a rima e a melodia. Obviamente que todos são públicos importantes e estamos atentos ao aumento da visibilidade do rap crioulo em Portugal. É uma tendência em claro crescimento nos últimos dois anos.”

O último elemento do trio de rappers nas majors é Rafa G, do Vale da Amoreira, que até enaltece, num dos seus temas, o facto de ser um dos primeiros rappers a rimar em crioulo a assinar por uma editora major em Portugal. Em Abril, lançou o EP Mr. Muda.

“Enquanto editora, sempre fizemos questão de estar próximos de artistas que nos proporcionem multiculturalidade. O crioulo sempre foi uma língua a que estivemos atentos: já trabalhamos há alguns anos com artistas como o Dany Silva ou o Nelson Freitas, que têm grande parte dos seus reportórios em crioulo. E num ecossistema cada vez mais global, é natural que nos interesse enquanto editora trabalhar com artistas que não só nos proporcionem variedade dentro de portas, como nos permitam olhar além fronteiras”, diz ao Rimas e Batidas o A&R da Universal Music Portugal, Tiago Palma. 

E acrescenta: “O crioulo também pode ser popular em Portugal, sim. Basta olhar para exemplos como o Julinho KSD que é um fenómeno tanto junto de falantes de crioulo como de não-falantes. E há todo um movimento com uma base de seguidores bastante fiel em Portugal que é impossível descurar: nomes como Rafa G, Vado Mas Ki Ás, Loreta KBA, Apollo G, Minguito ou o falecido Mota Jr são uma referência inquestionável.”

Tiago Palma diz que já era fã de alguns temas de Rafa G antes de abordarem o artista. “Nomeadamente o ‘Correria’ e o ‘Flan La’. Quando a oportunidade surgiu nem pensei duas vezes. Fui também vê-lo ao vivo e o amor que havia entre ele e o público era tanto que era impossível ficar indiferente ao Rafa G enquanto artista e enquanto pessoa.”

Numa altura que nos urge a refletir, mais uma vez, sobre a discriminação racial no mundo ocidental, é bom perceber que do lado da música podem vir boas notícias — de uma aceitação, reconhecimento e interesse cada vez maior no rap feito em crioulo, na celebração da diferença, na multiplicidade do campo musical mainstream.


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