O grande Homecoming de Beyoncé: a fanfarra como acto radical de educação

[TEXTO] Pedro João Santos [FOTO] Direitos Reservados

“You a bad girl and your friends bad too, ooh/ We got the swag sauce, she dripping swagu, ooh”. Começamos a dançar, sôfregos, em sincronia. O piso suado é um tablado da noite que nos une, um tabuleiro para o jogo táctil em que o instinto é o convite. Da fila anónima formamos família, coreografamos um bailado das nossas pulsões, a batida do nosso coração rivaliza com o som estereofónico. Os dígitos vermelhos dos decibéis tendem a crescer enquanto cruzamos e afastamos olhares, cada um sujeito do seu íman muscular e do do companheiro. Bebemos do copo ao nosso lado, do sorriso mútuo, da libertação um do outro. Somos muitos, a história de cada um pronunciada em corpos diversos, o privilégio e a dor manifestados em acordos tácitos, coisas que não dizemos, códigos que lemos. A energia está no contrato imaterial que nos leva ali na coda de outra sexta-feira. Isso está no ar, respira-se e abocanha-se em cada letra, mimetiza-se em cada passo de teledisco ou digressão, abraça-se em braços de desconhecidos que em poucas horas serão vínculo de uma memória que esperamos guardar.

E repetir, no próximo Beyoncé Fest. A iniciativa construída no Porto assume como prioridade “a diversão, a expressão e a liberdade”, em gritante repúdio de “qualquer comportamento abusivo, de assédio ou hostilidade.” Dizer que este é um espaço seguro é uma pregação óbvia, mas não se sente até se estar sob a ogiva do portuense Maus Hábitos ou do alfacinha Titanic Sur Mer. Somos muitos, vindos de pontos diferentes, sobreviventes de tribulações distintas. A pista é pisada por diferentes cores, sexualidades, etnias, crenças, sensibilidades; não as funde nem revoga, não as anula na mesma equação. Reconhecemo-nos e protegemo-nos. Preservamos as essências individual e comunitária, para que possamos coexistir. Isso é prova incontestável da universalidade da obra de Beyoncé, que se duplica nesse toldo de salvaguarda para todo o marginalizado, e que se revisita e dança diligentemente: do primeiro ao último álbum, das canções de assinatura à obscuridade bónus de um lançamento japonês.

Ir no sentido de Lemonade é perceber o encaminhamento do posterior trabalho de Beyoncé para contornos mais interiores e pessoais, terminadas as cedências comerciais e trocadas as voltas de uma política de talento sobreposto à cor (convém pensar esta postura no tempo em que a artista se iniciou profissionalmente, e o quão tarde a celebração racial fora dos limites da comunidade deixou de ser anátema). A exaltação sem limites da sua origem bastou para que a comunidade a talhasse definitivamente como um dos pilares da iconografia negra, num tipo de relação que quem assiste de fora pode admirar com amor, absorvendo a radiação. Agigantaram-se as vibrações que já nos faziam gravitar até Beyoncé. Mas isso não significa que um ponto-de-vista dissemelhante do seu possa diluir o que é intrínseco da experiência original: como podemos interpretar livremente, desenraizar de Lemonade o orgulho negro? É impossível. Também é verdade que boa parte da sinalética da obra de Knowles-Carter se dispõe a um entendimento global, extensível ao empoderamento de quem o queira, o que faculta a miscigenação de tanta gente boa, por exemplo, num Beyoncé Fest. Mas isso não glosa a reivindicação de um refúgio importante na sua música para uma demografia específica. No grande quadro, isto não é um corte, mas só um foco.

Podemos pressentir isso em Homecoming, o monumental grito lançado no mundo por Beyoncé na passada quarta-feira. O registo das duas actuações históricas no Coachella de 2018, enquanto primeira mulher negra a encabeçar o festival, erradica qualquer passividade de escuta ou visualização. Era isto que nos vinha à cabeça enquanto víamos Beyoncé dissertar franca e calorosamente sobre a esquadria em que são postas mulheres como ela, e como a massiva celebração montada em palco se destinava a todas elas, um antídoto à escala mundial para a opressão sistemática, para o branqueamento da sua cultura. É nobre a sua orgulhosa declaração da ambição juvenil de estudar numa HBCU, a sigla que denota uma instituição prestigiada, injustiçada: as universidades historicamente negras dos EUA, cuja iconografia, moda e som compõem a matiz total desta obra áudio e vídeo.

Ter visto um dos concertos na transmissão por YouTube ou em retalhos de odiosa qualidade faz a diferença, por mais do que um motivo. Logicamente, nada disso poderia imortalizar este patamar de proficiência artística: a coordenação imaculada de uma trupe de dançarinos, vocalistas secundários e instrumentistas, o erigir de uma estrutura que os acomodasse, um olhar 360º reconfigurado sobre uma das mais relevantes discografias do século XXI. Ambas as componentes deste radiante projecto beneficiam da complementaridade, tanto quanto subsistem em independência.

A gravação sonora reparte-se em 40 pedaços, mas é um documento único da consistência de Beyoncé enquanto voz que flutua, brada, flui — praticamente sem intervalo ou apoio — nunca se camuflando ou vegetando nas densas camadas de metais que são batidos e soprados em pujança. É ela no palco, a luxuriar-se nessa instrumentação arrepiante, que traz a festividade e o fresco da celebração nocturna, a organicidade a material engenhado até à perfeição; amplifica sobremaneira músicas que há muito apropriamos como hinos, os mesmos que entoamos no Titanic Sur Mer, e faz delas ambrósia para os ouvidos, com o soar grandiloquente de tubas, trompetes e trombones, o murro gutural de caixas, pratos, bombos e tambores, como nas marching bands que traduzem o orgulho das instituições de ensino que inspiraram este espectáculo.



Não há dúvida que Beyoncé é quem melhor conhece Beyoncé, ou não nos desse ela o racionamento perfeito de pompa e suspense: quem mais poderia transformar “Sorry” num épico de 7 minutos, entrecortado por uma sequência cómica e fragmentos certeiros de “Me, Myself and I” e “Kitty Kat”? Quando isto acontece diante de nós, já é o sexto momento da sequência pirotécnica que dá o pontapé de partida: depois das apoteóticas “Crazy in Love” e “Freedom”, o hino nacional da América negra em transição espantosa para o lógico sucessor “Formation”; antes ainda do díptico “Bow Down”/“I Been On” e a avassaladoramente grandiosa “Drunk in Love”… (Reticências para a infinitude de momentos pivotais numa primeira parte que é sucedida pelo centro emocional de “Don’t Hurt Yourself” e “I Care”; reticências para conter as mil perguntas que poderemos fazer sobre a humanidade da Queen Bey — não vale a pena!) E os melhores momentos são seleccionados, ponderados para alimentar a fome dos fãs; venha parcimónia ou generosidade, prevalece a inteligência. (Pontos bónus para a regravação da altamente simbólica “Before I Let Go” e a conclusão com “Love on Top”, que só fica mais vital a cada novo ano — e modulação).

Homecoming, o filme, é uma sublimação — e inversão no que toca ao rácio das partes — da fórmula do primeiro longo documentário da artista, Life Is But a Dream: o concerto integral é reproduzido (a gravação alterna entre as duas apresentações) e intercalado com imagens dos bastidores. As revelações emocionais são, se expressivas, caracteristicamente reservadas: a paixão da Queen B pelo arquivamento de toda a sua vida está bem documentada e esta é nova prova disso, mas surge a par da clássica questão de saber o que foi orquestrado, o que disto é produto e manipulação emocional — este tipo de controlo e opacidade sobre a imagem pública é raro e talvez seja a chave da sua longevidade, mas não é algo que interfira nem com a missão holística nem com o plano do entretenimento. Partes do processo desmistificam-se (os oito meses de ensaios, as tecnicidades motivadas pelo alto número de colaboradores, a dieta pós-gravidez…). Ao nível do icónico Stop Making Sense, este artefacto faz-nos mil coisas — incluindo inundar-nos com perguntas sobre logística e humanidade, mas repetimos que não vale a pena — : embebe-nos num desfile de cores e glórias, planos milimetricamente desenhados e luzes tempestuosas; amplifica a genialidade da logística, dando forma e palco ao divino zumbido de metais e sopros e vozes que não terminam.

Mas há algo que precisa de ficar explícito. A fanfarra não está ali só para nos abraçar sonoramente: serve para nos educar a todos. Se ouvimos os instrumentos e nos deslumbramos com a coordenação dos steppers, se vemos as danças e captamos os bramidos de potência humana, vemos o quanto a melanina na pele de quem abrilhanta a performance e quem é destacado na plateia emana poder e também percebemos o quanto as vestes amarela e cor-de-rosa irradiam orgulho. A negritude é glória; o motivo universitário é cultura. Um segmento de história raramente acessível fora de uma larga camada do tecido social norte-americano cuja simbologia raramente extravasa a sua comunidade (muito menos aporta na Europa). Como escreve Craig Jenkins, Homecoming está submerso na “cultura sulista, HBCU, no orgulho e na história negros”.

“Tantas pessoas que são cultural e intelectualmente conscientes licenciaram-se em faculdades e universidades historicamente negras, incluindo o meu pai. Há algo incrivelmente importante sobre a experiência HBCU que deve ser celebrado e protegido”. Beyoncé foi aluna com louvor de uma tradição quase mitológica, mas obscurecida, e hoje é laureada docente. Havendo um elemento intrínseco de egocentrismo numa actuação que tem como espinha dorsal uma carreira com mais de vinte anos — e goste-se ou não —, é uma boa instrumentalização: de um catálogo musical amado produz-se algo palpavelmente maior. Primeiro, para retribuir às raízes, e também para as expor não em cru, mas revelá-las em diamante para os desconhecedores — sem as arrancar, conservando-as envoltas numa constelação de sacrifício e união.

Cada pessoa pode sentir-se albergada pela mensagem, definitivamente inspirada, mas terá de reconhecer o propósito maior original: Homecoming não é só mais que palatável, é electrizante, sem restrição, mas não foi feito expressamente para todos nós. É a lógica do limão, novamente: basta o senso comum e a leitura deste documentário para entender que Homecoming é um manifesto anti-comodificação, uma tomada de posse de riquezas históricas e uma ponte. Mas existe também para que possamos aprender com ele — mais do que a história talvez, o sentido de propriedade irremovível.

Sacrifício, história, propriedade: as traves-mestras da obra. É algo muito nobre. A única forma como poderemos marchar em direcção a uma sociedade mais simétrica é se reconhecermos as diferenças de cada um, e evitar esse discurso da homogeneização, da falsa equivalência que se usa para diminuir a luta. Precisamos de exposição mútua e de aliança, de valorizar o que foi oprimido e de gritá-lo a plenos pulmões em comunidade, validando quem está em dúvida, habituando quem não está habituado. Esse é o primeiro passo para perceber o porquê das coisas serem como são, e isso começa com a arte. Às vezes, não basta uma escuta em plano secundário, uma ginga isolada, uma redução ao universal. Todos temos a prerrogativa de dançar e rejubilar à masterclass absoluta em som e vídeo de Homecoming, mas não de forma irresponsável; é com a obrigação de nela reconhecer um documento imortal da excelência e do sacrifício negros.


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