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Ilustração: Carlos Quitério
Publicado a: 06/01/2026

O jazz em primeiro plano.

Notas Azuis #145: Makaya McCraven

Ilustração: Carlos Quitério
Publicado a: 06/01/2026

Na coluna Notas Azuis vai abordar-se jazz, música livre, música improvisada de todas as eras e nacionalidades, editada em todos os formatos.


[Makaya McCraven] Off The Record! (International Anthem)

No campo do jazz, o que durante muito tempo distinguiu o estúdio do palco foi apenas o nível de concentração: na companhia de um engenheiro de som como Rudy Van Gelder, os músicos beneficiavam do detalhe que um inteligente posicionamento de microfones possibilitava e, obviamente, da ausência de “distracções” ou limitações técnicas, como, por exemplo, o clamor do púbico ou as deficientes condições acústicas de determinados clubes. De resto, a entrega e interacção directa de um ensemble eram captadas pelos microfones tal como seriam escutados por uma atenta audiência num espaço como o Village Vanguard ou similar. Com a evolução da tecnologia e a possibilidade de alocar cada instrumento a diferentes canais de uma mesa de mistura e a diferentes pistas de um gravador tudo mudou. Teo Macero terá sido um dos primeiros produtores a encarar a matéria gravada por Miles Davis e pelas suas bandas não como produto final, mas antes como peças de um puzzle que poderia ser criativamente montado, com inteligência, sensibilidade, imaginação e também com lâmina e fita-cola. O que se escuta em Bitches Brew não são takes completos, antes um amplo mosaico feito de distintos momentos de uma mais dilatada performance livre. Aí, o produtor assume-se também, pelo menos em parte, como autor.

Pode argumentar-se que Makaya McCraven se tem vindo a afirmar, de forma cada vez mais nítida e em simultâneo, como sendo uma espécie de híbrido de Rudy Van Gelder, Teo Macero e Miles Davis, no sentido em que acumula os papéis de sound designer, de produtor e, obviamente, de músico e compositor. Tome-se, para início de conversa, In The Moment (2015), o seu álbum de estreia na International Anthem que, como se esclarece nas notas técnicas, é o resultado de “quase 48 horas de performances improvisadas ao vivo gravadas num local ao longo de 12 meses e 28 espetáculos — selecionadas, editadas, renderizadas e remisturadas em 19 potentes peças de música beat orgânica”.

Numa das entrevistas que concedeu ao Rimas e Batidas, a propósito do seu trabalho de reinvenção de I’m New Here, o derradeiro álbum de Gil Scott-Heron, Makaya McCraven explicava bem como enquadra a sua abordagem criativa. “Acho que ser capaz de largar o instrumento e olhar para a tecnologia como uma ferramenta criativa só amplia a minha visão”, começou por explicar. “E nem sequer é apenas o hip hop que me amplia os skills, mas também as ideias que foram avançadas por gente como o Teo Macero, que referiu, ou o Les Paul, que teve a ideia de fazer os overdubs e que ajudou a tornar a gravação multipistas uma realidade”.

Makaya desenvolve depois essa ideia e mapeia de forma mais detalhada as suas referências no que à criativa abordagem ao estúdio diz respeito: “Os Beatles que pensaram o estúdio como uma dimensão diferente do palco. Ou coisas como o Mellotron, o teclado que usa loops de fita para nos dar novos sons. Há pouco mais de 100 anos que temos a possibilidade de gravar música. Antes disso tínhamos máquinas mecânicas, como a pianola, com os rolos de música, que nos deram um vislumbre do que podia ser a programação. A história que nos levou à gravação, aos estúdios, aos samplers e sequenciadores é incrível, abriu tantas novas avenidas para a criação musical. Tudo isso culminou num novo contexto, o disco gravado, que é um meio diferente de mostrar a música, bem diferente do palco. Mas hoje até cruzamentos entre o que está gravado e o que é tocado ao vivo são possíveis. Tudo isso me fascina e me tem influenciado, esse universo de possibilidades. É o que me tem inspirado a estar no estúdio, ser um produtor, fazer discos. E nem me interessa só fazer coisas electrónicas em modo solitário, mas trabalhar com bandas. Tenho investido muito por aí, em trabalhar com bandas desenvolvendo os meus skills enquanto produtor. Quero fazer mais, não me limitar a tocar bateria, mas ser também compositor, arranjador. Mas também me inspira a improvisação colectiva, estarmos todos juntos num mesmo espaço e a energia colectiva poder levar-nos a algum lugar novo. Isso pode ser tão especial. Por isso nos discos tento fazer algo que englobe todo esse universo de possibilidades e nuances. É importante, no entanto, que as pessoas percebam que quando ouvem um disco meu, isso não é necessariamente o que vão depois escutar ao vivo. São coisas tão diferentes…”

Essas múltiplas dimensões foram sendo cruzadas de diferentes formas na sua já generosa discografia: no mesmo ano em que se estreou na International Anthem também lançou In The Moment Remix Tape acrescentando um nível adicional de complexidade manipulativa ao seu trabalho: “A In the Moment Remix Tape retrabalha as composições espontâneas já cortadas, alteradas e repetidas do álbum duplo In the Moment, de Makaya McCraven”, clarificava-se nas notas de lançamento. “Ultrapassando as fronteiras da improvisação, composição e sampling, nove produtores/beatmakers de todo o mundo reelaboraram as faixas, criando novas batidas a partir de áudio reaproveitado. Makaya então misturou essas remisturas em duas faixas contínuas de uma mixtape, misturando-as com suas próprias batidas voltando a samplar os samples das suas composições espontâneas originais cortadas e já de si sampladas”.

Highly Rare (2017), Universal Beings (2018), Where We Come From (ChicagoxLondon Mixtape) (2018), o já mencionado We’re New Again (2020) e o álbum de abordagem ao catálogo histórico da Blue Note, Deciphering The Message, são todos marcos nesse altamente personalizado percurso de Makaya McCraven, que se tem mostrado decidido a derrubar essas fronteiras entre o palco e o estúdio, entre a performance e a pós-produção. Na verdade, não se pode dissociar a sua entrega atrás de um kit de bateria da sua compenetração no ecrã de um computador quando está a rearranjar, remisturar e retrabalhar o material que improvisa ao vivo com os ensembles que vai desenhando à sua volta.

Quando lançou In These Times (2022), Makaya voltou a falar com o Rimas e Batidas e aprofundou o seu pensamento sobre o seu próprio perfil de criador: “Eu gosto de pensar no espaço onde gravo como um médium. Outro dos meus grandes interesses é a tecnologia musical, mesmo não sendo eu, necessariamente, tão superentendido na coisa como gostaria de ser. Mas é algo que sempre quis que estivesse integrado naquilo que eu faço, para tentar manter-me minimamente actualizado ou apenas para perceber quais os pontos em que essas ferramentas se podem interceptar com a minha música. Isso vai desde o aprender a trabalhar com tecnologia do passado, como loops de fita e misturas em dub, até aos sintetizadores analógicos, ao sampling e ao sound design. Acho todas essas coisas interessantes e tudo isso teve um grande impacto naquilo que foi o início da música moderna, tal como quando se criou o kit de bateria. E eu posso usar tudo isso quando estou a tocar, mas prefiro toda aquela experiência do ‘isto é o que estás a ouvir agora’. Gosto da cena do momento. Tem qualquer coisa de especial”.

No último Verão, Makaya McCraven anunciou a edição de quatro EPs para o final de Outubro: Techno LogicThe People’s MixtapeHidden Out! e PopUpShop. Na notícia que por aqui se publicou, esclarecia-se:

As novas composições foram registadas ao vivo e depois trabalhadas por McCraven através de edições e pós-produção. Techno Logic inclui contributos de Ben LaMar Gay e Theon Cross e inclui performances captadas em Londres, Berlim e Nova Iorque. Já The People’s Mixtape tem origem numa gravação feita em Nova Iorque em Janeiro deste ano.

Hidden Out! consiste em registos captados durante a residência do artista em Junho de 2017 no Hideout, em Chicago, e conta com participações, entre outros, de Jeff Parker; e, por último, PopUpShop foi resgatar as composições com mais tempo, registadas em 2015 numa performance em Los Angeles.

‘Num tempo em que estamos cada vez mais ligados através dos telefones, num mundo virtual em que não se consegue realmente distinguir o que é real do que é falso, há algo de especial quando nos juntamos e partilhamos um espaço, há algo de especial quando estamos a partilhar música, arte’, diz Makaya McCraven num comunicado de imprensa. 

‘Quero criar uma energia que amplifique a magia nos momentos underground em que nos juntamos e experienciamos algo selvagem, diferente, improvisado, humano. O que estou a tentar apresentar é uma alteração onírica dessa energia, que só existe no domínio da gravação. Mas ter estado lá, na vida real, é que é especial.’”

Os quatro EPs editados digitalmente por Makaya McCraven foram logo depois reunidos no duplo álbum Off The Record!, que assim se estrutura como um impressionante trabalho de fôlego que pode ser entendido como uma súmula dos diferentes passos exploratórios do produtor e baterista ao longo da sua discografia. E ouvindo este álbum de uma assentada percebe-se, enfim, e de forma muito clara, que, de facto, há momentos na história do jazz em que a tecnologia deixa de ser apenas um interface de registo para se tornar ela mesmo uma nova linguagem — foi assim com o aparecimento do rolo de cera e do fonógrafo de Thomas Edison, do microfone, do gravador de fita, da amplificação e por aí adiante. Não é, portanto, um fenómeno recente, como aliás se começou por argumentar: quando a gravação multipistas permitiu separar instrumentos em canais autónomos, abriu-se uma nova possibilidade de escuta e também de intervenção. O estúdio deixou de ser um espaço neutro e passou a ser um lugar de decisão. A partir daí, o jazz gravado nunca mais foi apenas documento de um momento impondo-se também como parte de um contínuo processo de construção.

É precisamente nesse território que se inscreve o trabalho de Makaya McCraven e Off The Record pode ser lido como a sua afirmação mais clara enquanto autor desse novo paradigma. Não enquanto baterista — papel que assume com reconhecida autoridade —, mas enquanto verdadeiro pensador do som gravado. No seu entender, a música não é tocada apenas para ser fixada, mas para se enquadrar num constante fluxo criativo e transformativo.

O duplo álbum reúne os quatro EPs que agregam material gravado ao longo de uma década, em diferentes cidades e contextos, mas a ideia de que essa história se reduz a mero arquivo é enganadora. Mais do que organizar o passado, Off The Record! reimagina-o e reclama-o como uma dimensão do presente. As gravações ao vivo funcionam como matéria bruta, captadas no calor do momento, mas tratadas posteriormente com a mesma liberdade criativa que um produtor de hip hop munido de um sampler aplicaria a uma caixa de discos acabada de adquirir numa loja de segunda-mão. O corte, o loop, a repetição e a reorganização são deliberadas decisões composicionais. E dessa forma o estúdio também é performance. Esta abordagem coloca McCraven numa linhagem muito específica da história do jazz: a daqueles que compreenderam que improvisar não é apenas tocar, mas também escolher. Escolher o que fica, o que se repete, o que se desloca no tempo. Em Off The Record!, o tempo deixa de ser linear para se tornar maleável. Um groove pode estender-se até revelar texturas escondidas; uma frase pode regressar transformada, carregando consigo a memória da sua iteração anterior.

Importa sublinhar que esta música não se afasta do jazz para se aproximar do hip hop. Muito pelo contrário: ela nasce precisamente do ponto onde essas linguagens já se reconhecem mutuamente. O pulso é central, mas nunca rígido. Há boom bap, há swing, há polirritmia africana e há a herança clara da cena criativa de Chicago, onde a improvisação sempre conviveu com uma consciência profunda do espaço social da música. McCraven trabalha com comunidades, não com sessões de estúdio isoladas. Cada faixa carrega consigo a marca de um encontro singular. Essa dimensão coletiva é talvez o elemento mais constante ao longo de Off The Record!. Apesar de ser o grande organizador do material, McCraven nunca se impõe como centro absoluto. Pelo contrário: funciona como mediador entre músicos, momentos e geografias. As intervenções de Jeff Parker, Ben LaMar Gay, Theon Cross ou Marquis Hill não surgem como “participações”, mas como vozes integrantes de um ecossistema sonoro em permanente mutação. O álbum soa menos a banda fixa e mais a ampla rede de cumplicidades criativas. Por isso mesmo, Off The Record! insiste na importância do momento partilhado. Mesmo filtradas pela edição, estas gravações mantêm a respiração do espaço onde nasceram. O erro é incorporado, assumido como marca distintiva ao ponto de nos obrigar a deixar de pensar em determinadas decisões como “erros” e antes como nuances de linguagem. McCraven parece recordar-nos que a música não acontece apenas no som, mas na relação entre pessoas — músicos e público — num determinado lugar e num determinado instante.

Enquanto síntese de percurso, Off The Record! é revelador. Não aponta para uma rutura, mas para uma continuidade cada vez mais consciente. Tudo o que McCraven tem explorado ao longo da sua discografia, a relação entre improvisação e edição, entre tradição e tecnologia, entre palco e estúdio, encontra aqui uma resolução particularmente clara. Mais do que um ponto de chegada, o álbum soa a afirmação de método. No fundo, Off The Record! propõe uma escuta que recusa a ideia de obra fechada. Em “Lake Shore Drive Five”, a mais longa peça de Off The Record! (e tema que fecha o EP The People’s Mixtape), Makaya, excelentemente ladeado por Junius Paul no baixo, Joel Ross no vibrafone, Jeremiah Chiu no sintetizador modular e Marquis Hill no trompete, apresenta todas essas ideias estruturadas de forma clara. O tema arranca com a sua bateria muito processada, quase como numisco de dub, a impor um tempo quebrado, enquanto os bleeps de Chiu se esfumam na atmosfera do arranjo. Logo depois, o vibrafone de Ross parece citar o recorrente motivo melódico do tema principal do filme World War Z, numa insistente passagem repetitiva que cria o tipo de tensão que exige uma certa dose de libertação que se adivinha de forma lenta e crescente quando as texturas “jonhassellianas” de Chiu e Hill se entrelaçam numa densa teia harmónica que nos faz flutuar a todos. Quem porventura possa ter estado presente quando, há precisamente um ano, a performance foi registada no espaço da Public Records em Brooklyn, talvez não reconheça imediatamente o que Makaya aqui construiu usando todos os recursos à sua disposição. Mas, quem sabe, talvez seja capaz de identificar a sua própria voz no final, quando a música se desvanece e dá lugar aos aplausos: é algo de novo, mas decididamente ancorado na memória de uma experiência real. O melhor de dois mundos.


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