A mais antiga forma de viajar no tempo é usar a memória. Primeiro, a nossa: interna, pessoal e individual. Depois, a externa: coletiva e comum — isto é, a própria história. Em ambas encontramos os limites do corpo, do meio e da versão. A música é outra forma de deslocação. Talvez a única que permite escapar ao limite das leis. Desde Einstein que sabemos da impossibilidade de viajar além da velocidade da luz. Mas a questão é: qual a importância da velocidade quando temos a eternidade para nós? A outra é: a Relatividade Geral contempla a música de Sun Ra ou de Alice Coltrane? O espaço é o lugar (“Space is the Place”) físico, mas não só, onde experimentamos as possibilidades do tempo e do ser.
Foi neste território — entre a memória, o espírito e a matéria — que, este sábado, no Auditório de Espinho, num auditório também ele próximo de extravasar limites, que assistimos à música de Nduduzo Makhathini, especialmente acompanhado pela Orquestra Jazz de Espinho. Uma música que cria universos e os religa a realidades alternativas, enquanto nos impele à viagem pelo cosmos e à redução de distâncias para o outro através da história comum. A cosmologia bantu nomeia o mundo dos vivos e o mundo dos mortos para se centrar numa energia que os enlaça. Nduduzo Makhathini vê a música como um ser todo poderoso ao qual, simplesmente, se obedece. Realiza uma mediação entre mundos que invoca o perdão e a socialização para entrelaçar a existência a uma força vital.
O concerto começou exatamente alicerçado nessa força colectiva da Orquestra Jazz de Espinho e, sob a direção de Paulo Perfeito, criou uma massa sonora que conquistou todo o espaço. Um corpo inteiro que, desde logo, integrou as mais dispersas individualidades. Percebemos aí que o contrabaixo, de José Carlos Barbosa, e a bateria, de João Cardita, formariam no groove um canal por onde a energia entrava ou se esvaía. O piano, submetido às mãos de Nduduzo Makhathini, não queria liderar, nunca quis. Integrava-se como voz comunitária que povoava o visível e o invisível.
No terceiro tema, “Iyana”, ouvimos a voz de Nduduzo, no dialeto zulu, num canto ritual que ligava a palavra ao som e construía pontes entre mundos desavindos. Ouviam-se, entre palavras, uns estalidos que pareciam efeito da percussão, mas que na realidade saíam da boca do sul-africano e que são uma característica do dialecto. Já não era Espinho o lugar, mas uma África ancestral e envolvente.
A música alcançou um patamar espiritual que exigia a voz de uma mulher. Beatriz Alves fez das suas cordas vocais um mar sem palavras que desmaterializava tudo à nossa volta. Murmúrios, breves lamentos e clamores flutuantes, enraizados numa memória coletiva anterior à linguagem, agregavam-se aos sopros e respondiam ao piano e ao canto de Nduduzo. Houve espaço para vários solos ao longo da actuação — saxofones, trompetes e trombones — em que, um a um, assumiam o protagonismo e ocupavam com talento e virtuosismo o espaço reservado ao improviso e ao acaso. Em “Koma”, o contrabaixo começou um solo que foi ao encontro da voz de Beatriz e ao saxofone tenor para um dos momentos mais brilhantes da noite. Já antes, o canto responsorial havia elevado os espíritos, quando Nduduzo recitava e toda a orquestra respondia num coro homogéneo de sussurros graves. “Tyner’s Visit” era a última paragem do alinhamento. Começou com um solo de João Cardita, na bateria, a balançar entre o som suave e o silêncio até, sem pressa, tomar posse de toda a sala e convocar a potência máxima dos trompetes.
Todo o público aplaudiu em pé demoradamente. Ainda meio atónito, voltou a sentar-se para o encore. “A Song for Bra Des Tutu” destacou João Tavares que ofereceu um solo de fliscorne que confirmou a dimensão onde havíamos chegado todos.
No vídeo que antecedeu o concerto e nas palavras que proferiu pelo meio, Nduduzo Makhathini, relevou os momentos inesquecíveis da história africana — a escravatura, o colonialismo e o apartheid — para abrir espaço ao perdão e ao entendimento entre os povos por meio da música. A sua música é essa entidade criadora de metáforas e questionamento que desenha mundos novos e pontos de encontro e contacto onde cabemos todos.
O jazz de Nduduzo Makhathini é uma tecnologia relacional que actualiza os princípios bantu — tempo circular, energia vital e presença ancestral — enquanto transforma a performance num acto cosmológico. Não reconhecer a importância da obra da Academia de Música de Espinho é como desvalorizar um oásis no deserto.