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Fotografia: Evaristo Abreu

As insónias e inquietações do produtor moçambicano ganham vida em Plafonddeinst.

Nandele: “Percebi que música está em tudo à nossa volta, e isso abriu um outro universo na minha produção”

Fotografia: Evaristo Abreu

Foi logo no arranque deste mês de Setembro que a música de Nandele atravessou o oceano para figurar no catálogo da Already Dead Tapes and Records.

Plafonddeinst, o seu novo álbum que compila nove temas, foi alvo de uma edição em cassete, registando várias colaborações tecidas à distância, reflexo da pandemia, e ficando ainda marcada por uma profunda incursão do produtor moçambicano nos domínios da electrónica experimental e do field recording.

O trajecto de Nandele tem sido pautado pela abordagem ao lado mais cósmico do beatmaking, o que já havia resultado em três trabalhos de enorme importância — Argolas Deliciosas e Likumbi, foram ambos editados pela Kongoloti Records, enquanto Blu Kidz mereceu a atenção da sueca Insert Tapes. No último mês de Julho, o artesão sonoro viu a sua música chegar à Netflix depois de assinar a banda sonora para o filme Resgate.

Numa troca de impressões com o ReB, o artista explicou o processo de criação de Plafonddeinst e a colaboração com a Already Dead Tapes and Records, selo de culto sediado em Atlanta, Geórgia.



Já tinhas saído da órbita do hip hop no Likumbi e agora pareces estar cada vez mais perto de uma outra galáxia neste teu novo trabalho. Que terrenos, sentimentos e sonoridades são estas que andas a explorar?

Neste projecto em particular quis explorar os ambientes da cidade de Maputo, o dia a dia do povo moçambicano, os senhores que vendem os produtos no bairro da Malhangalene. Fui gravando tudo isso e também tinha já gravado, nos últimos três anos, sons no aeroporto de Lisboa, os transportes públicos em Abidjan, os pássaros, corvos, máquinas escavadoras. Gravei um pouco de tudo o que eu achava que podia enquadrar no projecto. Afinal de contas, percebi que música está em tudo à nossa volta, e isso abriu um outro universo na minha produção.

Houve alguma alteração no teu arsenal de produção? A que ferramentas recorreste para delinear estes temas?

Este álbum foi um grande desafio para mim. Tive que esquecer que fiz as Argolas, o Blu Kidz, e o Likumbi. A minha intenção era fazer um projecto que pudesse levar o ouvinte ao lugar em que essa música foi concebida, trazer o ouvinte a Moçambique, ou melhor, deixar que o ouvinte possa imaginar o local. O meu telefone foi o instrumento mais usado para gravar os ambientes. A colaboração com colegas para as produções adicionais trouxe novas dinâmicas à minha música.

Explica-me o significado deste termo que utilizaste para intitular o disco, Plafonddeinst, e de que forma é que este traduz a viagem musical que nos propões?

O título do álbum é um termo em holandês, que explica um sintoma que temos quando não temos sono e olhamos para o tecto. Neste processo há uma conversa connosco mesmos e com o que nos está a inquietar. Quis explorar essa conversa, e acredito que muitos artistas passam por isso neste período da pandemia COVID-19, em que perdemos muitas coisas.

Creio que este é o teu projecto com mais colaborações de sempre. Foi tudo criado neste actual cenário de pandemia? Como é que se desenvolveram as coisas nesse capítulo?

Foi muito interessante colaborar neste período da pandemia, porque todos os artistas com quem entrei em contacto queriam exercer as suas actividades e eu também quis ocupá-los, de certa forma. Lockdown é muito difícil, não poder sair de casa e não ter contacto com as pessoas mais importantes das nossas vidas pode ser um inferno. Mas a Internet está ao nosso alcance, colaboramos todos a partir do Google Drive e estamos em constante contacto nas redes sociais e e-mails.

Já és uma figura de destaque na cena hip hop e electrónica de Moçambique e aos poucos tens também expandido o teu terreno para a Europa. Desta vez atravessaste o oceano para te estreares pela norte-americana Already Dead Tapes and Records. De que forma surgiu esta oportunidade de editares uma cassete por eles?

Já seguia a conta no Bandcamp da Already Dead Tapes and Records e curto muito o trabalho desta editora. Entrei em contacto com eles e gostaram do álbum. Nunca imaginei que fosse acontecer e que um dia teria um trabalho editado em cassete noutro lado do oceano. Estou muito feliz e grato por esta oportunidade.

Relativamente aos espectáculos, tenho notado que não estás parado, inclusive com algumas transmissões em directo para as redes sociais. Como estás a encarar esta nova realidade e o que é que mais tens retido desta nova experiência?

Sou beatmaker, produtor e artista, não posso parar e gosto muito de fazer a minha arte. Dificuldades só podem ser ultrapassadas com trabalho. E digo sempre que nós, músicos, na última década só temos feito isso: adaptarmo-nos a novas tendências, o mundo do streaming… Aqui, em Moçambique, confesso que é um novo universo para nós mas estamos todos a dar o nosso melhor para levar a nossa música e cultura além-fronteiras. Tenho colhido boas experiências, todo este trabalho que tenho feito ao longo deste tempo de pandemia culminou com o meu novo álbum, e também novas parcerias como por exemplo a Rádio Alhara, a Already Dead Tapes and Records e a Cotch International, de UK, que vai editar ainda este ano o meu próximo EP, Final Fantasy, em vinil.


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