Nandele: um beatmaker cósmico em Moçambique

[Foto]: Direitos Reservados

Argolas Deliciosas marca a estreia de Nandele com selo da Kongoloti Records, pertença de Milton Gulli, homem que já conhecíamos de projectos como Philarmonic Weed, Cacique 97 ou Cool Hipnoise.

Acima está um live set de instalação do projecto – um exclusivo Rimas e Batidas – e mais abaixo Nandele orienta-nos através do seu percurso e explica como foram cozinhadas as Argolas Deliciosas que são igualmente uma sentida vénia a J Dilla.

 

Descreve-nos o teu percurso como beatmaker, quais os passos mais importantes até teres chegado a Argolas Deliciosas?

Tudo começou quando um amigo me passou o software Ableton Live em 2008. Já tinha experimentado outros softwares como Fruity Loops e Reason, mas Ableton Live foi o que mais gostei porque tens a opção de fazer live performance, DJ sets e produzir beats. E assim comecei a fazer instrumentais durante um período de 7 anos, até culminar com o projecto Argolas Deliciosas. Mas antes disso tudo, de vez em quando, passava os meus beats em DJ sets e no SoundCloud para ouvir o feedback do público – que foi positivo, embora com algumas criticas, que logicamente me ajudaram muito a melhorar o que faço.

É diferente ser um artista hip hop em Moçambique? Como está a cena musical por aí nos dias que correm?

Ser artista de hip hop no meu pais é algo que, hoje em dia, já é comum porque já temos alguns artistas que são escutados nos outros países ao nível dos PALOP. Mas ser artista um que faz beats, que lança projectos de instrumentais é algo que ainda está a começar deste lado. Por essa razão ainda é um cenário underground que está a crescer devagar. A cena musical em Moçambique está mais direcionada para a música popular, o cenário alternativo ainda esta a conquistar o seu espaço, mas já começa a existir público que quer ouvir coisas fora do comum no panorama musical moçambicano. Temos por exemplo o grupo Gran’Mah que faz um reggae muito moderno e que no ano passado ganhou um prêmio no MMA (Mozambique Music Awards). Isso foi muito bom para os fazedores de musica alternativa, os media passaram a ter mais atenção para o outro lado da história no que diz respeito a música moçambicana.

A família Kongoloti tem-se feito ouvir no exterior. Como funciona essa dinâmica de grupo?

A Kongoloti é uma label independente que em pouco tempo tem conquistado o seu espaço. É a minha família, ela tem uma dinâmica extremamente saudável, sem nenhum preconceito sonoro em termos criativos. Colaboramos muito nas ideias no intuito de trazer o melhor do artista. A coisa que mais gosto na label é que sempre tenho espaço para me expressar musical e artisticamente.

Fala-nos destas Argolas Deliciosas: inspiram-se nos Donuts de J Dilla?

Argolas Deliciosas tem uma influencia muito forte do Donuts de J Dilla. O Donuts estavam em rotação constante no meu iTunes, no meu smartphone, e com isso passei a conhecer a beat scene, os beatmakers/produtores pós-Dilla, como é o caso do Flying Lotus, Co.Fee, Mndsgn, Nosaj Thing, Juj, Kaytranada entre outros. A base do beatmaking, em termos técnicos, é o sample e, na minha opinião, somos influenciados pelo Dilla, manipulamos todos os samples. Mas uma coisa tem de ficar bem clara: J Dilla é o mestre.



Quais são as outras influências mais marcantes na tua abordagem à produção?

Todos temos influências, desde o ambiente em que vivemos, as pessoas com quem convivemos, etc.. Em termos musicais as minhas principais influencias são os Massive Attack, J Dilla, Flying Lotus, Co.fee, Pretty Lights, Orelha Negra. Neste momento estou ouvir o colectivo Soulection, Mr. Carmack, Moderat, Action Bronson, Joey Bada$$ e o Michal Menert.

Como produzes, quais as tuas ferramentas principais?

As minhas produções não têm uma abordagem linear. Depende muito do meu estado de espírito e as possibilidades que o sample pode oferecer. Como ferramentas uso Ableton Live, Native Instruments Massive, Akai, Novation Launchpad e o Nano Kontrol2.

No país da marrabenta não há samples bons à espera de serem descobertos?

Em termos sonoros somos um país muito rico, temos muitos ritmos para além da marrabenta. Vivo num pais em que, além do português, fala-se várias línguas em cada província e logo temos um vasto catálogo de estilos musicais. Entretanto o mais difícil é conseguir os direitos para usar as músicas como samples, os direitos de autor ainda não são levados a sério em Moçambique. A organização SOMAS faz este trabalho, mas tem poucas condições para o fazer como deve ser.

Há qualquer coisa de cósmico na tua música: esta ligação ao espaço, a ideia de afro-futurismo, é algo que te inspira?

Certíssimo, eu gostaria de poder ir a outros planetas e com a minha música consigo alcançar esses locais distantes, posso fazer o impossível. O Sun Ra fez isso com os seus projectos, o Ras G, beatmaker da Stones Throw, tem o seu African Space Program e eu tenho a minha “Destination Planet Donut“.

Próximos passos na tua carreira? O que vai seguir a estas argolas deliciosas?

No momento estou a preparar a versão ao vivo das Argolas Deliciosas com a minha banda, Nandele and The Mute Band. Estou constantemente a ensaiar com eles. No mês de Julho vai acontecer a estreia do cartoon no festival de curtas-metragens denominado Kugoma. O cartoon foi produzido por Ricardo Jorge, o artista que fez o comic strip e a capa do meu projecto. Estou a trabalhar o meu primeiro álbum que vai sair no proximo ano.

 

[Clica na imagem para fazer o download gratuito de Argolas Deliciosas. Olha que só há 100 acessos!]

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Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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