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Fotografia: Direitos Reservados

O beatmaker moçambicano não pára e viu recentemente a sua música chegar à Netflix.

Nandele: “Ter o Resgate na Netflix vai abrir muitas portas para Moçambique e para os PALOP”

Fotografia: Direitos Reservados

A música da Kongoloti Records chegou no mês passado à Netflix. Nandele e Milton Gulli assinaram a banda-sonora de Resgate, o primeiro filme proveniente de um PALOP a dar entrada na gigante do streaming.

O marco histórico para a cultura moçambicana deu-se no dia 29 de Julho, um ano após a estreia da longa-metragem nas salas de cinema tradicionais. A peça tem a realização de Mickey Fonseca, que lançou o convite aos dois músicos da Kongoloti para o ajudarem com o score — as composições são da autoria de Nandele e Milton Gulli mas a trilha regista também vozes de Azagaia, Xeny Wa Gune ou Ziqo.

Levar a sua música até a uma plataforma como a Netflix é, por si só, um grande feito para o beatmaker moçambicano, principalmente numa fase tão atípica como aquela que atravessamos. Mas o autor de Argolas Deliciosas e Likumbi (agora juntos num bundle) está longe de se querer ficar apenas por aí, já que trabalhou recentemente com o artista visual Lauro Munguambe em COVID-MAKONDE, ajudou na produção de um jingle para um programa de rádio da Palestina e tem ainda dois discos a solo prestes a serem lançados por editoras internacionais — Plafonddienst (Already Dead Tapes and Records) e Final Fantasy EP (Cotch International).



Fala-me do teu envolvimento no filme Resgate. Como surgiu esta oportunidade?

Primeiro [quero] dizer que Mickey Fonseca (realizador) e eu somos amigos de longa data, e a ideia do filme surgiu e eu estava por perto, mas era tudo segredo nem fazia ideia que estavam a trabalhar no filme. Até que um dia o Mickey encontra-me no Chayenne Studios e [eu] estava a finalizar o “Roaches” do Likumbi. Ele ouviu a track e, enquanto o beat rolava, contou-me umas cenas do filme, tudo isto parecia que estávamos na sala de cinema a ver o resgate ao som da minha música. Foi uma experiência inesquecível. Contudo fui convidado para fazer o score para o trailer do crowdfunding e depois para o filme.

O que mudou na tua abordagem aos temas para esta banda sonora comparativamente ao trabalho que costumas apresentar a solo?

No meu ponto de vista foi muito natural, muita gente aqui em Maputo tem comentado que quando ouvem a minha música é cinematográfica, elas contam histórias. E o Mickey Fonseca sempre deu-me feedback nesse sentido. Por essa razão, no processo de produção da trilha não assisti ao filme! Estava mais engajado no roteiro, acabava a track e enviava para o Mickey. Queria ser surpreendido, então só vi o enquadramento das músicas na ante-estreia do filme, e vi que estava tudo nos lugares que estava a imaginar. Até parecia telepatia.

O Resgate foi o primeiro filme de um PALOP, neste caso Moçambique, a entrar no vasto catálogo da Netflix. Tu já estás habituado a ter a tua música nas plataformas digitais, mas esta terá certamente um gosto especial por só seria possível através do cinema ou das séries. O que significa para ti poder levar a tua música até este mercado?

Este facto faz-me muito feliz porque vai abrir muitas portas para Moçambique e também para os países africanos de língua portuguesa.
Já tenho trabalhado com teatro, dança contemporânea e acho que o destino levou-me para o cinema e é neste mercado que definitivamente quero ter mais trabalhos — gosto muito de colaborar e assim posso trazer novos elementos para minha música. Gosto muito de soundtracks, o trabalho do Stewart Copeland no Rumble Fish é um dos meus preferidos, nunca pensei que fosse gostar de um filme por causa da música. Quem sabe se não lanço uma curta-metragem?

Durante este período de isolamento social não tens tido mãos a medir no que toca a novos trabalhos — colaboraste com o Lauro Munguambe, fizeste um jingle para um programa da Radio Alhara e tens dois projectos a solo na calha para editar. Encontraste uma dose extra de inspiração no meio do caos ou apenas começaste a ter mais tempo livre? Como tens passado nestes últimos meses?

Estou constantemente a trabalhar e a produzir beats. Sem beats não existo! A pandemia COVID-19 e a falta de concertos só trouxe mais inspiração. É um momento de tragédia, mas oportuno para melhor expressarmos o que temos passado através das artes. Nunca tivemos um período tão sombrio enquanto artistas, mas sempre evoluímos. Já ninguém sai de casa para comprar discos mas não deixamos de existir. Estamos aqui!


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