Nandele: “O Likumbi é a minha tese sonora”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] @mariocumbanaphotography

Likumbi é o primeiro álbum assinado por Nandele e foi editado na passada quarta-feira por intermédio da Kongoloti Records.

O produtor moçambicano surgiu em cena há quatro anos, aquando do lançamento de Argolas Deliciosas, o EP de estreia, criado em homenagem a J Dilla e ao hip hop mais tradicional, alimentado por samples de drum breaks, um dos destaques apresentados pelo Rimas e Batidas durante os primeiros passos enquanto revista digital. Depois disso, o SoundCloud foi a plataforma de eleição para acompanhar a evolução de Nandele, que no ano passado lançou a cassete Blu Kidz pela sueca Insert Tapes. Além do trabalho a solo, o músico divide-se também em projectos como a The Mute Band ou o Cantinho das Cores.

Para o seu primeiro longa-duração, Nandele inspirou-se no Likumbi, um ritual de iniciação da tribo Makonde, que reside na província de Cabo Delgado. “A pergunta que me veio a cabeça foi ‘quando é que na minha vida senti muito medo?’ E a resposta estava lá. Foi quando o meu pai me disse que ia fazer o Likumbi. Imagina só o teu pai a dizer-te que vais ficar no mato durante duas semanas aos 12 anos de idade. Resgatei esse sentimento e com ele desenvolvi este projecto.”



Que importância teve o ritual Likumbi no teu crescimento?

O Likumbi foi muito importante no meu desenvolvimento como ser humano, porque foi a partir dele que tive a abordagem mais profunda do que é ser Makonde no meio em que vivo. E Moçambique é um país multicultural, com muitas tribos em cada província, e na capital, a cidade de Maputo, tens toda essa mistura. Mas com o Likumbi comecei a perceber melhor de onde venho, e as razões dos comportamentos culturais e sociais. Já não era um peixe fora do aquário.

Pensaste nisso desde cedo como fonte de inspiração para uma obra musical? Em que momento é que este disco se começa a formar na tua cabeça?

No início estava a trabalhar num outro conceito que era o Golden Zebra, e depois disso pensei que ficaria preso no conceito ao ter que definir o que é isto de Golden Zebra. No meu primeiro EP, Argolas Deliciosas, tive que construir um universo para fazer a música. Entretanto parei de fazer música para o Golden Zebra e pensei logo em fazer algo que fosse mais de encontro com o meu dia a dia. A pergunta que me veio a cabeça foi “quando é que na minha vida senti muito medo?” E a resposta estava lá. Foi quando o meu pai me disse que ia fazer o Likumbi. Imagina só o teu pai a dizer-te que vais ficar no mato durante duas semanas aos 12 anos de idade. Resgatei esse sentimento e com ele desenvolvi este projecto.

Explica-me qual foi o processo que utilizaste para chegar a estas faixas. Foi composto mais à base de samples, instrumentos virtuais ou reais?

Este álbum teve um processo muito interessante comparativamente ao Argolas Deliciosas, que foi mais na base de samples, prestando homenagem ao J Dilla. Para o Likumbi foi uma mistura de samples gravados e processados, como o caso da musica “Mapiko Project”. Foram também usados instrumentos virtuais como no “Final Boss”. Há samples e vozes gravadas no “Fo20”. Contudo foi uma mistura no geral, estava constantemente a experimentar, nonstop, sempre em busca de uma sonoridade obscura e sinistra. Sempre imaginei o Ableton Live como a percussão fina do Mapiko. Gravei muita coisa no processo e também usei samples pouco convenientes para um beatmaker, saindo um pouco da minha zona de conforto e puxando pelos meus limites.

Quatro anos passaram desde o Argolas Deliciosas, o teu EP de estreia. Do teu ponto-de-vista em que difere a sonoridade deste novo projecto em relação ao seu antecessor?

O Argolas foi minha forma de mostrar ao mundo de onde venho e o amor que tenho pelo hip hop e a música concebida de forma digital ou electrónica. Não foi só uma homenagem ao Dilla, mas a todos aqueles artistas e beatmakers que oiço desde a década de 90. O Likumbi é um álbum em que trago mais da minha sonoridade, o hip hop psicadélico. Posso assim dizer que o Likumbi é a minha tese sonora.


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira