MAR: “Estou a tentar focar-me em criar uma linha musical que se adeque a mim”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

MAR, uma das mais recentes apostas da Sony Music Portugal, acaba de lançar um novo single. “Alright” tem versos dos MCs de MGDRV, produção de Von Di — com Jimi Morini e Zé Maria no baixo e teclas, respectivamente — e videoclipe da autoria de YoCliché.

É com recurso ao nome que lhe consta no documento de identificação que MAR assina as suas canções originais desde 2017. Apesar de ter nacionalidade espanhola, a cantora cresceu no Algarve e desde cedo se dedicou à música, tendo gravado e editado os primeiros covers na Internet com apenas 12 anos.

Após concluir a escolaridade obrigatória, a música passou para primeiro plano e uma mudança para Lisboa levou-a ao encontro de Von Di, produtora ligada à electrónica que assume as batidas que podemos escutar no projecto MAR. Depois de lançarem “Secret” e “Dance”, a Sony Music Portugal entrou em cena e convidou as duas artistas a juntarem-se aos seus quadros. Editados em 2018, “Body On Me” e “Be Like” foram os primeiros dois temas a nascer dessa nova fase, com este novo “Alright” a apontar para um voo de maior escala: a faixa é o primeiro avanço de Purple.Wav, um EP que MAR garante estar já praticamente concluído.

O Rimas e Batidas falou com a jovem cantora, que deu a conhecer o seu trajecto até aqui, a origem da colaboração com os MGDRV e os pormenores do curta-duração de estreia.



Como é que começa a tua aventura no mundo da música?

Eu comecei muito cedo, aí por volta dos 12 anos, com uns vídeos de covers na Internet. Nessa altura tive um amigo meu que me disse, “se quiseres viver da música acho que devias criar algo original”. Isso inspirou-me a começar a escrever. Até ao meu 12º ano de escolaridade escrevi músicas, mas sem gravar nada. Foi o meu treino. Escrevi muitas músicas e, após o 12º ano, decidi aventurar-me — vim para Lisboa tentar a minha sorte, sem saber absolutamente nada. Eu já estava a fazer uma música com o Beatoven na altura, para o álbum dele, que ainda vai sair. Vim para Lisboa para trabalhar com ele e entretanto conheci a Von Di, que foi a pessoa que puxou por mim para eu começar a formar uma carreira. Foi ela quem produziu o meu primeiro single. Começámos a trabalhar juntas há cerca de dois anos. Produzimos uma série de músicas. O “Secret” foi o nosso primeiro single, depois lançámos o “Dance”… Depois de lançarmos o “Dance” foi quando surgiu a Sony — assinámos por eles e desde então que é por lá que os singles têm saído.

Nesses vídeos de covers que tu fazias, tinhas ajuda de alguém ou metias tudo em prática sozinha?

Foi sozinha. O primeiro vídeo que eu fiz foi literalmente com uma câmara da minha mãe, no meu quarto, onde eu tinha um piano pequenino da Casio. Eu tocava as músicas e cantava-as. Tudo de ouvido, na verdade, porque nunca aprendi a tocar. Teve uma boa recepção na altura, entretanto já os retirei todos da net [risos].

E neste trabalho que agora desenvolves com a Von Di, tu também tens alguma mão na parte musical ou focas-te apenas na voz e na letra?

Trabalhamos 50/50, mas all over the place. Fazemos tudo juntas, de raiz. A nossa criação musical é um bocado à base de: ela começa o beat, depois vamos à procura de samples… Assim que temos um loop, eu testo uns flows e escrevo por cima. Basicamente fazemos tudo em conjunto, mas ela é a produtora e eu [sou] a cantora.

Ou seja, é tudo feito uma ao lado da outra, certo? Não têm aquele hábito, que é tão comum nos dias de hoje, de trocar ficheiros e ideias entre vocês pela Internet?

Sempre presencial. Estamos sempre em estúdio, todo o santo dia [risos].

E de onde vem a escolha do inglês para interpretares as canções? É apenas porque é o idioma que te sai mais naturalmente para escrever ou tem que ver com a dimensão da tua ambição, em exportar a tua música para fora de Portugal, por exemplo?

É natural para mim. Para além de ouvir música lá de fora, americana, como toda a gente, eu sempre tive aquela obsessão pelo inglês e pela cultura deles. Desde pequena que tento perceber ao máximo da língua. Aqueles anos que referi, que passei em casa, foram um treino para conseguir cantar e escrever em inglês num nível em que as pessoas não possam notar [que não é a minha língua nativa]. E eu sou espanhola, por isso é um mix assim esquisito. Há cerca de três anos comecei também a escrever em espanhol. Tenho explorado um pouco isso e a misturar. Cada vez mais misturo esses dois idiomas.

Chegaste a residir em Espanha? Tens em ti presente toda a cena cultural urbana que por lá se vive?

Tenho, sem dúvida. Não cheguei a viver lá — fui a única da minha família que já nasceu cá. A minha mãe ficou por Portugal e eu cresci cá. Mas toda a minha família é de Espanha e uma parte de Cuba. Não há ninguém português além de mim. Que nem o sou [risos]. Mas sinto-me como tal.



Na tua música tens presentes elementos da pop, da electrónica e da música urbana global. Como é que defines o teu projecto?

Quando as pessoas me perguntam qual é o género de música que eu faço, a minha resposta mais automática é r&b. Acho que é o género que mais me influencia. Mas estou a tentar focar-me em criar uma linha musical que se adeque a mim, algo mais pessoal. Não quero ficar dentro do r&b ou da música electrónica. Quero misturar e criar algo que é “meu”. Tenho andado à procura. É quase como estar a fazer um estudo da música. Tenho andado a criar e a tentar encontrar esse som. Agora sinto que estou mesmo a conseguir encontrar isso. No meu próximo projecto vai-se notar isso. Mas eu diria que o género que mais me move é o r&b e o hip hop.

E onde entra a Sony no meio disto tudo? Parte de uma vontade tua de te profissionalizares e lhes mostrares o projecto ou foram eles que te encontraram e te propuseram a ligação?

Eu estava muito calminha, estava independente e a fazer as minhas cenas todas com a Von Di. Estávamos a safar-nos bem. O approach foi da Sony. Recebi um e-mail deles, encontraram-me na Internet e tinham gostado muito. Contactaram-me para marcar uma reunião e eu lá fui. Não é que eu estivesse à procura, mas, ao receber o contacto, fiquei, no mínimo, com curiosidade para saber que tipo de propostas e ideias é que eles tinham para uma artista como eu cá em Portugal. Fui e fiquei [risos].

Isso mudou alguma coisa na forma como passaste a trabalhar os teus temas?

De certa maneira sim. Não porque eu quisesse. É algo que é natural quando trabalhas com uma editora — as coisas demoram um bocado mais de tempo, porque há todos estes processos a nível burocrático e tal. Há certas lições que eu aprendi logo nos primeiros tempos em que estive com eles. Se calhar quero preparar as músicas com mais antecedência, lançá-las em determinada altura do ano… Obrigou-me a organizar-me muito melhor e a ter uma noção de que tenho de escolher bem as músicas nas quais me quero focar. Tenho de acabá-las, deixá-las organizadas e, finalmente, tratar de ver a música não só como uma criação artística — que é a parte que eu mais gosto — mas também como business, como um negócio. Com a Sony, a parte artística passa um bocado para segundo plano, porque estamos lá para tentar trabalhar este objecto, que é a música, da melhor maneira possível. Foi isso que mais se alterou no meu mindset.

Estás a editar agora o teu terceiro single pela Sony, uma colaboração com os MGDRV em que te aproximas muito mais do hip hop. Como surgiu esta parceria?

Foi através de um amigo em comum, que é o Zé Maria, um instrumentista. Eu e a Von Di estávamos a trabalhar com ele durante algum tempo e ele já andava a mencionar “temos de combinar com este e com aquele…” Até que um dia fizemos uma sessão em casa dele, para a qual ele tinha convidado também os MGDRV. Conhecemo-nos lá. O feeling estava nice e eu disse “bora fazer um som” [risos]. Já tinha uma ideia do tipo de som que eu achava giro fazermos em conjunto. Disse “Von Di, faz um beat assim, tu sabes”. Fizemos um refrão, eu cantei e eles gostaram. Fizemos tudo num dia.

Ou seja, fizeram a faixa logo no próprio dia em que se conheceram?

Basicamente. Foi só preciso regravar um verso do YoCliché.

Esse instrumental é todo da Von Di ou também houve espaço para o Apache dar uns toques na composição?

O beat foi todo produzido pela Von Di. Tivemos só uns adds de baixo, do Jimi, e de teclas, do Zé Maria.

Este tema já aponta para um possível projecto mais longo da tua parte ou tencionas continuar a trabalhar single a single?

Este single vai pertencer a um EP, vai ter um seguimento. Vamos trabalhar o single por um bocado e, a seguir, quero lançar um EP, que já estou a terminar ao nível de mix e master. Já estou até a fazer o próximo, também [risos].

Dos temas que lançaste anteriormente, há mais algum que faça parte desse EP?

Não. Só este é que vai fazer parte.

Esse EP já tem título?

Vai chamar-se Purple.Wav. Há todo um conceito à volta disso, mais a nível de imagem. A temática anda à volta da cor roxo.

E além dos MGDRV, há mais alguma colaboração que tenhas presente nesse projecto?

Há uma participação de um rapper holandês, que é o Leeroy, dos Zwart Licht. Eles são uma banda muito conceituada na Holanda. Conhecemos-nos no Amsterdam Dance Event, uma conferência muito grande dedicada à música electrónica. Eu acompanhei a Von Di, que ganhou lá um prémio, e o Leeroy era um dos júris. Combinámos logo uma sessão de estúdio e foi interessante criar outro tipo de musicalidade com pessoal de fora. Também tenho andado a trabalhar com outras pessoas lá de fora e vamos andar a fazer umas coisas assim esquisitas [risos].


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira