Os Mão Morta vão apresentar-se como nunca no primeiro dia do Serralves em Festa. Umas semanas depois de receberem o Prémio da Crítica, com Viva La Muerte!, nos PLAY, a banda bracarense mostra-se fiel à sua essência inquieta, lasciva e irreverente, convidando João Barradas e Mariana Vilanova para um concerto único, especialmente pensado para o festival e para o improviso do acordeonista.
Este encontro promete acrescentar novas camadas, convocar sonoridades improváveis e relançar novas leituras sobre alguns dos temas da icónica banda nortenha. Um concerto dos Mão Morta é sempre singular, efervescente, ácido e que nos faz respirar o ar do tempo por meio de um rock cru e sujo. Desta vez, poderá também tornar-se particularmente memorável pela forma como abre espaço a outras sensibilidades, altera perspectivas e explora territórios latentes na sua discografia.
O Rimas e Batidas falou com Adolfo Luxúria Canibal sobre os motivos e sobre o que tem vindo a ser preparado para este encontro, marcado para as 22h00 da próxima sexta-feira (29 de Maio), no prado de Serralves.
O que vos atraiu neste convite para actuar no Serralves em Festa?
O Serralves em Festa é um evento incontornável. É um dos principais eventos do país e do norte, está na sua vigésima edição e é muito sustentado. Todos os anos é uma referência para quem vive aqui no norte ir ao festival, pelo menos um dia. Além disso, é um evento em que definitivamente se descobrem coisas. Há sempre coisas diferentes a acontecer e esse formato contínuo de acontecimentos é muito interessante. O convite já tinha surgido no ano passado mas não pudemos aceitar porque estávamos ocupados com o “Viva la Muerte!”. Mas ficamos muito interessados e entusiasmados. O convite implicava um concerto especial, diferente do concerto habitual dos Mão Morta e, nesse sentido, propusemos fazer um concerto com convidados – convidados que não fossem meros ornamentos, mas que participassem de facto e transfigurassem, de alguma forma, as músicas que íamos tocar. Assim surgiu a ideia de convidar o João Barradas e a Mariana Vilanova: duas participações completamente diferentes, uma musical, outra mais visual mas que poderiam contribuir para essa transfiguração das músicas, que também foram escolhidas em função dessas participações.
Este espetáculo foi pensado especificamente para o contexto de Serralves e para essa ideia de transfiguração.
Sim, é um espetáculo pensado para o festival. No alinhamento, apesar de serem temas da história e do repertório dos Mão Morta, são temas pensados para o festival e, sobretudo, pensados musicalmente para dar espaço à participação do João Barradas. São temas escolhidos especificamente para este encontro com o João e também para o facto do nosso concerto decorrer no Prado de Serralves, com as pessoas sentadas ao ar livre. Toda essa ambiência influenciou a escolha do alinhamento.
Como surgiu este encontro artístico com o João Barradas e o que reconheceram no universo dele que fazia sentido cruzar com os Mão Morta?
Nós já conhecíamos o trabalho do João. Ele é muito polivalente, trabalha em diversas áreas. É mais conhecido no jazz e na música erudita mas não se cinge a isso. Não tínhamos conhecimento da sua colaboração com bandas rock e, nesse sentido, achámos que poderia ser interessante junta-lo a nós e desenvolver os nossos temas a partir desse universo, já de si transversal, do João Barradas. Não o conhecíamos pessoalmente, contactámo-lo, fizemos-lhe o convite e ele aceitou imediatamente. Ficou muito contente, pelo menos, aparentemente. O trabalho que fizemos nos ensaios correu muito bem. Ele apareceu com belíssimas ideias e nós estamos muito contentes com o que ouvimos na sala de ensaio. Espero que isso se reproduza também no concerto.
O acordeão não é um instrumento imediatamente associado ao universo sonoro dos Mão Morta. O que vos interessou nessa tensão ou contraste?
Nós nunca tínhamos trabalhado com o acordeão. O acordeão do João Barradas é particular, não é o acordeão que nós associamos imediatamente à música celta ou à música tradicional portuguesa. É um acordeão para todos os efeitos, mas trabalhado por ele, tem outro tipo de timbre, outra sonoridade. Achámos que poderia casar com alguns temas nossos e trazer uma riqueza mais expressiva e mais harmónica ao que os temas já têm. No fundo, apontar-lhes outros caminhos, trazer à tona outras reminiscências. Estou a lembrar-me, por exemplo, do “Berlim”, que é um tema que vamos tocar. Toda aquela sonoridade do acordeão remete imediatamente para a Berlim dos anos 20, da canção alemã e francesa, desse eixo Paris-Berlim ligado às vanguardas artísticas. Essa dimensão estava ausente do tema, que remete mais para uma Berlim do final de 80 e início dos 90, mas através do acordeão conseguimos ir buscar essa Berlim do passado, da República de Weimar. Isso dá imediatamente outras leituras, outras camadas ao tema. E isso replica-se nos outros temas que vamos tocar. Procuramos explorar essa sonoridade, muito interessante, e que nunca tínhamos usado nem casado com o som dos Mão Morta, que é normalmente mais agreste e mais sujo.
É isso que acontece à música dos Mão Morta quando se cruza com o acordeão do João Barradas. Este encontro procura desviar a música dos Mão Morta para outro território ou, de algum modo, expandir aquilo que ela já contém?
Sobretudo da-lhe outras camadas. Mesmo em termos harmónicos funciona muito bem. Expande os temas para outras outras leituras e isso é muito interessante.
Esta colaboração levou-vos a revisitar canções antigas ou é sobretudo sobre o Viva La Muerte! que vão trabalhar?
Não, nós não tocámos no Viva La Muerte!. Para esta colaboração fomos buscar temas anteriores da discografia dos Mão Morta e escolhemo-los exactamente a pensar na colaboração com o João Barradas. Ou seja, fomos buscar temas onde achámos que a intervenção do acordeão poderia trazer essa densidade suplementar interessante de explorar.
Escolheram e exploraram os temas que melhor poderiam dialogar com o acordeão do João?
Exatamente. Ou seja, que dessem espaço, por um lado, ao João Barradas para trabalhar o seu instrumento e, por outro lado, que a introdução deste instrumento pudesse expandir os próprios temas para outras leituras e para outros sons que à partida não estariam tão evidentes.
E quais são esses temas?
Eu falei do “Berlim” e já estou arrependido [risos]. Não queria falar dos temas que vamos tocar, quero que sejam uma surpresa.
Como têm corrido os ensaios? O João Barradas vem do jazz e da improvisação: isso alterou a dinâmica criativa da banda?
Não mudou muito. Quando começámos os ensaios o João já trazia trabalho de casa feito, portanto a coisa saiu à primeira, naturalmente. Os temas foram escolhidos em função da possibilidade de improviso. A estrutura está lá, os temas estão lá, mas há muito espaço para o improviso acontecer e aí o João está perfeitamente à vontade. Ele tem um belíssimo gosto e, quando começamos a tocar, parecia que tocávamos há séculos.
Qual é a importância de trazer para o universo dos Mão Morta este tipo de colaborações, este sangue novo e estas novas linguagens?
Para nós é um grande prazer. Como sempre dissemos, fazemos música porque gostamos de fazer música. Divertimo-nos a fazê-la. Tudo o resto vem por consequência. Claro que, de vez em quando, fazemos música de intervenção porque sentimos necessidade disso, mas não somos militantes, nem somos activistas. Fazemos música porque nos queremos divertir a fazer música, porque queremos descobrir coisas e ir além de nós próprios. O lado mais interventivo vem porque existimos no mundo, e quando olhamos à nossa volta, raramente conseguimos escapar ao que nos rodeia. De maneira que, com todos estes incentivos que nos fazem, divertimo-nos ainda mais. Esta colaboração é como encontrar um amigo novo e fazer uma brincadeira nova. O que nos move é esta possibilidade de descobrir e trabalhar de maneiras diferentes para chegar a resultados diferentes, divertindo-nos. A essência dos Mão Morta é mesmo esta. É conseguir, não só mas também, através de colaborações, chegarmos a este âmago do prazer.
O lado visual, teatral, dos concertos dos Mão Morta foi sempre um espaço de criação e afirmação da vossa identidade performista. Que papel terão os visuais de Mariana Vilanova neste espetáculo?
Para mim é a grande incógnita. Já ensaiámos todos juntos, com ela e com o João, mas não tive oportunidade de ver o que ela está a fazer. O ecrã está de costas para nós e só ela consegue acompanhar o trabalho em tempo real. Mas pela postura, parecia-me que estava agradada com o que estava a acontecer. Nós conhecemos o trabalho dela, temos confiança nesse trabalho, achamos que é um trabalho belíssimo de bom gosto e boa intervenção. Será uma surpresa, também para nós, vê-lo projetado ao vivo e em tempo real durante o concerto. Certo é que esteve a ensaiar connosco e pela postura dela pareceu-nos que estava bastante agradada com o que estava a acontecer no seu ecrã.
Ou seja não têm nenhuma participação criativa nesse momento.
Não. Quando convido alguém, confio nessa pessoa. Não gosto de interferir no trabalho criativo dos outros, a não ser que me peçam opinião. Se convido alguém é precisamente porque acredito no trabalho dessa pessoa e porque quero que tenha liberdade total para fazer o que lhe apetecer.
Os últimos concertos dos Mão Morta apresentaram um lado cénico muito forte e trabalhado, isso vai acontecer em Serralves?
Não. Não trabalhámos a esse nível. Não será um espetáculo teatralizado, digamos assim. É um espetáculo estritamente musical com convidados. Não vamos fazer essa parte de figurino, quer dizer, o trabalho cénico existe sempre, a disposição em palco, etc. Mas não passa disso e das projeções. Esse trabalho mais teatral de criação de figurinos e personagens não iremos fazer neste concerto.
O que pode o público esperar deste espetáculo que não encontrará em mais nenhum concerto dos Mão Morta?
Vão encontrar Mão Morta num espetáculo particular porque é um trabalho muito interessante de improvisação com o João Barradas e um forte trabalho visual da Mariana Vilanova. Além disso, será com temas que, muitos deles, já não tocamos há imenso tempo. São temas mais calmos. Digamos que é o lado menos visceral – ou nem tanto – pensado para a colaboração com o João, mas também para o espaço onde vamos tocar que é o prado de Serralves.
Este encontro com o João foi pensado como experiência única ou abriu possibilidades que gostariam de continuar a explorar? Mais concertos, álbum novo…
Isto foi pensado exclusivamente para o concerto em Serralves. O que o futuro trará não fazemos a mínima ideia porque para nós também é sempre uma surpresa. Neste momento, a ideia é fazer o Serralves em Festa e partirmos para outra. O João já falou que seria engraçado, pelo menos, gravarmos o concerto, para ficarmos com o documento. Não sei se o faremos ou não. Normalmente, gravamos os concertos que damos, mas depende se tivermos o material técnico para isso. Mas sem mais. A ideia é só fazer este concerto.
Não sei se quer deixar algum apelo ao público…
Não tenho nenhum apelo particular. O Serralves em Festa é gratuito como toda a gente sabe. Começa na sexta-feira, exatamente na noite em que vamos tocar, de maneira que, se não tiverem nada que fazer ou não estiverem muito cansados da semana de trabalho, é um bom motivo para sair à rua e, como nós, divertirem-se. E, claro, irão ver os Mão Morta de uma perspetiva diferente e inédita.