LP / CD / Digital

Makaya McCraven

Universal Beings E&F Sides

International Anthem / 2020

Texto de Rui Miguel Abreu

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Tal como já tinha acontecido com In The Moment, também Universal Beings, aclamado álbum de 2018 de Makaya McCraven, merece agora expansão com a edição de E&F Sides, dois lados do que passa a ser um triplo álbum em que se adiciona material inédito resultante das sessões originais. Essas novas peças servem igualmente de banda sonora para o documentário da autoria de Mark Pallman sobre a feitura deste projecto, que envolveu músicos americanos e britânicos. (A nova edição de Universal Beings e o filme com o mesmo título ficarão disponíveis no último dia do corrente mês).

Makaya, como amplamente discutido aqui a propósito do trabalho de reinvenção do derradeiro registo de Gil Scott-Heron, faz parte de uma nova geração de criadores, músicos que são fluentes nos discursos do jazz e das músicas electrónicas, nomeadamente do hip hop (os casos de Karriem Riggins, Kassa Overall ou Gerald Cleaver – e não é por acaso que todos sejam, antes de mais, bateristas), e que não separam essas diferentes capacidades, preferindo integrá-las numa visão abrangente que harmoniza universos que provavelmente se consideraram inconciliáveis durante muito tempo. E isso significa que a matéria que foi recolhida nas sessões ao vivo que, no caso destes Lados E&F, envolveram músicos como Brandee Younger (harpa), Joel Ross (vibrafone), Dezron Douglas (contrabaixo), Soweto Kinch (saxofone), Kamaal Williams (teclados), Nubya Garcia (saxofone tenor), Ashley Henry (Rhodes), Daniel Casimir (contrabaixo), Josh Johnson (saxofone alto), Miguel Atwood-Ferguson (violino), Jeff Parker (guitarra), Anna Butterss (contrabaixo), Carlos Niño (percussão), Junius Paul (contrabaixo), Shabaka Hutchings (saxofone tenor) e Tomeka Reid (violoncelo), foi depois retrabalhada em estúdio, tendo o beatmaker Makaya McCraven ao alcance do seu sampler não uma colecção de discos, mas um vasto depósito de material que ele mesmo ajudou a gerar em vários palcos e estúdios.

A música que aqui se reúne é, por isso mesmo, uma espécie de novo híbrido, um hip hop mutante e não-quantizado, não curvado perante a frieza matemática do loop, antes liberto da quadratura esquemática imposta pelos sequenciadores através de um pulsar vivo, vibrante, enérgico e espontâneo. O próprio Makaya McCraven descreve o seu “som” como “organic beat music”, uma forma de tentar sublinhar a mais funda sintonia entre o que é humano e o que resulta de processo mais laboratorial. Não deixa de ser profundamente simbólico que o tema a que Makaya McCraven deu o título “Beat Science”, e que bem poderia ter sido atribuído por Pete Rock a uma das faixas do seu último álbum de instrumentais cozinhados na SP 1200, comece com o clamor do público e depois nasça de um vigoroso solo de bateria a que se acrescenta a harpa de Brandee Younger e o vibrafone de Joel Ross, os rasgos de cor no tema, e o contrabaixo ondulante de Dezron Douglas. O laboratório pode também, afinal de contas, ser o palco. Mas essa pode também ser apenas a primeira etapa da experiência de criação… Inversamente, e citando peças do já mencionado trabalho do veterano produtor de hip hop realizado com o sampler da E-mu, é igualmente curioso que Rock ofereça a alguns dos seus instrumentais títulos como “Round Midnight”, “Harps of Heaven” ou “Kool Jazz”, mais um sinal da umbilical relação entre os dois géneros que, como têm defendido vários artistas, são, afinal de contas, uma coisa só.

E é nessa complexa noção de novo swing que reside a magia desta música: se essa base estruturante do jazz resultou de um devir histórico e cultural, moldado por décadas de experiências com o tempo rítmico, actualmente é impossível não inscrever nessa evolução o revolucionário trabalho de criadores modernos como J Dilla ou Madlib, “bateristas” de outro tipo que injectaram um novo tipo de pensamento nas suas SPs e MPcs, acrescentando novas nuances à ideia de swing que, por seu lado, marcaram o baterismo de criadores como Makaya (ou Karriem, Kassa e Gerald…). Tudo isso resulta em explosivos e reveladores momentos, como a sequência de “Travelling Space”, “Kings and Queens” e “The Loneliness, secção de astral elevação carregada pelo pulso de Makaya, pelo violoncelo de Tomeka Reid, pelo hipnótico baixo de Junius Paul e pela capacidade de livre invenção de Shabaka Hutchings cujo expressivo tenor é por Makaya reorganizado em pequenas e incisivas frases circulares. Mais hip hop ou mais jazz? Mais vivo e mais urgente, certamente, como se requer de seres universais como estes.


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