LYFE: “A paixão pelo lo-fi surgiu numa fase difícil da minha vida e ajudou-me imenso a todos os níveis”

[TEXTO] Vasco Completo [FOTO] Mariana Xavier

Se o artista é um reflexo do seu contexto, a verdade é que a Internet trocou as voltas a isto tudo num passado recente. Na era do excesso, os millenials estão expostos a uma quantidade de informação que, sem os filtros adequados, se pode tornar bastante perigosa.

Olhando para o lado positivo (e musical), existem as playlists — muitas delas com uma finalidade — criadas por pessoas pelo mundo fora. Umas das mais conhecidas do universo lo-fi roda no canal de YouTube “lofi hip hop radio – beats to relax/study to”. No Spotify, e com pouco mais de um milhão de seguidores, “Jazz Vibes” também se inclui nessa lista de selecções que catapultam temas de músicos desconhecidos para números que dificilmente imaginariam. Foi isso que aconteceu a LYFE, beatmaker português que lançou recentemente o seu primeiro álbum SMOOTH THOUGHTS pela editora alemã Vinyl Digital.

Numa linha próxima de sleep在patterns, rafxlp ou até sien, falando exclusivamente de Portugal, Pedro Eira trabalha maioritariamente com sampling na sua produção, deixando espaço para diálogos vindos da sétima arte ou refrões e linhas de vozes sampladas.

A imagem e o som convivem harmoniosamente na vida Pedro: pegou num postal americano dos anos 60 para criar a capa de SMOOTH THOUGHTS, por exemplo. Em conversa com o Rimas e Batidas, o músico confessou que o cinema é uma das suas grandes paixões, tendo estudado Vídeo e Cinema Documental no IPT.

Falámos com LYFE sobre a sua produção, sampling e a importância do lo-fi no hip hop.

 



O que tencionas explorar e apresentar com SMOOTH THOUGHTS, o teu primeiro álbum?

A paixão pelo lo-fi surgiu numa fase difícil da minha vida e ajudou-me imenso a todos os níveis. O meu principal objectivo com este álbum é bastante simples: dar às pessoas um pouco do que o lo-fi me deu a mim. Existem milhões de pessoas no mundo que sofrem de ansiedade e depressão. Na maioria dos casos, a vergonha de partilhar um simples pensamento faz com que o mesmo se transforme numa enorme bola de neve cheia de incertezas e sofrimento. Espero que as minhas músicas ajudem essas pessoas a perceberem que não estão sozinhas e, de certa forma, fazer com que não dêem tanta importância a esses pensamentos. Torná-los mais leves.

Notámos que usas vários samples de filmes. Servem para reforçar o conceito do mesmo?

O cinema sempre foi uma das minhas grandes paixões, por isso é que em 2012 decidi tirar a Licenciatura em Vídeo e Cinema Documental. Muitas das vezes, quando estou a ver um filme ou série e ouço algo que me cativa, carrego no pause, faço rewind e gravo esse excerto no meu SP-404. Depois, quando estou a produzir, volto a essas gravações e tento sempre encontrar aquela frase que mais se adequa à sonoridade que estou a trabalhar.

No ano passado juntaste-te à Slow Habits. Como é que surge a Vinyl Digital?

Em primeiro lugar, a Slow Habits e a Vinyl Digital são duas coisas completamente diferentes para mim. Eu vejo a Slow Habits como uma família, um grupo de pessoas super talentosas com o qual eu tenho a oportunidade de trocar ideias, experiências e espero que assim seja por muito tempo.

Quanto à Vinyl Digital, fiquei bastante feliz quando recebi o convite. Mesmo tendo consciência da visibilidade que isso me ia dar, a principal razão pela qual assinei o contrato foi pelo facto de passar a pertencer a uma produtora por onde já passaram os maiores nomes (e grandes inspirações para mim) do lo-fi internacional. Foi simplesmente um sonho tornado realidade!

Em termos de produção baseias muito do teu som em sampling. Tencionas experimentar outros métodos de produção ou instrumentos?

Estudei piano e guitarra clássica desde muito novo em várias escolas e academias. No sampling encontrei algo que nunca tinha experienciado na produção musical apenas com instrumentos. Existe e sempre existirá um conjunto de pessoas que vê a arte de samplar como uma forma de plágio. A verdade é que nos dias de hoje, com a Internet e a quantidade de informação a que temos acesso, muito dificilmente consegues criar algo que nunca foi feito. Se eu pegar numa guitarra ou num piano e fizer uma música com quatro acordes, de certeza que vou encontrar centenas de músicas feitas com o mesmo instrumento e com os mesmos acordes. Enquanto se eu pegar numa melodia que o Wes Montgomery escreveu em 1960 para a mãe, numa frase de um filme que ouvi milhares de vezes quando tinha cinco anos e na última snare que o J Dilla usou antes de morrer, vou juntar um conjunto de experiências únicas e criar algo que tem um significado muito especial para mim.

A música “one time” já conta com mais de 300 mil reproduções no Spotify! Como é que isso aconteceu?

Uma das vantagens que tens quando estás ligado a uma grande produtora é a facilidade de apareceres em playlists de lo-fi no Spotify (que neste momento são uma grande sensação com milhões de seguidores). Tive a sorte de aparecer na “Jazz Vibes”, que é uma playlist que acompanho há muito tempo e ouço praticamente todas as semanas. Por isso, é um privilégio enorme.

Quais são as tuas maiores influências? 

Mujo, Jaeden Camstra, bsd.u, wun two foram produtores que me influenciaram bastante a nível musical. Neste momento tenho a sorte de fazer parte da mesma produtora que eles, como referi acima.

Quanto à parte visual dou bastante valor ao projecto espanhol Craneo Media. Conta com grandes rappers e grandes produtores como Made in M, Craneo, Juan RIOS, etc. Um bom exemplo disso é o último projecto lançado pelo colectivo FANSO — “Música para Lagartos” — em que criam uma curta-metragem de 30 minutos que na verdade é o videoclipe do álbum inteiro.

Com que artistas gostarias de trabalhar no futuro?

No que toca à música gosto sempre de levar as coisas tranquilamente e não pensar muito no futuro. A maioria das minhas colaborações foram com artistas estrangeiros, até porque a maioria do meu público não é português. Claro que se surgir a oportunidade de colaborar com grandes artistas nacionais que admiro, vou aproveitar. Até porque um dos meus objectivos passa por dar a conhecer este género musical ao maior número de pessoas possível no panorama do hip hop nacional.

 


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