Fomos ao encontro das palavras da violoncelista e artista — uma dos três autores hoje às 21h em destaque na Culturgest, e a única que se torna visível no palco — para melhor entender o que os rege na exploração do som, da luz e da imagem. Um corpo de trabalho que ouve, emite e vê; numa peça que vive em tempo real, numa existência performativa.
Uma peça — chamemos-lhe assim, por simplificação — que parece decorrer num confronto magnético entre o espectro orgânico e o inorgânico. Com essa frase-chave em tela: “I was thinking about the light spinning on its axis, locked in its own cycle, everything can move in relation to that”. Uma luz como um atrator, que suga as palavras, que encadeia pela sua força. E nisso uma estética que estimula o pensamento ou mesmo uma ideia que se serve do mecanismo da luz e da matéria para nos fazer pensar. Talvez mesmo o melhor desses estímulos ande próximo dos estados de sinestesia. Em que o som é luz, em torno desse eixo central, quando surge em rodopio constante um microfone hiper-amplificado.
Railton que — na breve troca de ideias — termina por clarificar que “o título nunca pretendeu ser uma recusa à comunicação”. Aponta a um sentido da linguagem, que explora mais até do que explica em última análise a obra. “Trata-se mais dos limites da revelação e do que permanece por dizer”, como nos esclarece.
Aquando de “Not A Word From Me” na estreia em Portugal, no Semibreve, escrevi uma crítica em que lhe chamei “que isto já não é um concerto”. Estarás de acordo que esta peça se afasta de todo dessa ideia de um acto performativo como concerto e traz uma outra linguagem, híbrida, a que talvez nem saibamos dar uma designação?
Quase, não totalmente, mas percebo o que queres dizer. Às vezes, nós os três falamos de “anti-música” ou “anti-performance” no que diz respeito ao nosso trabalho conjunto; isso também é evidente no trabalho da Rebecca, claro. Ouvir e observar o som, a luz e a imagem a evoluir em tempo real, no espaço, é um foco principal, por isso somos tanto o público como os próprios intérpretes. À medida que os três elementos colidem, queríamos flexibilizar a hierarquia que normalmente existe numa situação de concerto ou num formato audiovisual. Não queríamos que a obra funcionasse como uma apresentação musical com componente visual. A relação entre som, luz, imagem, gesto e presença física tinha de parecer muito mais interligada do que isso. Talvez o que mude seja a orientação do público. Num concerto, costuma haver uma ideia pré-concebida sobre onde a atenção deve fixar-se, enquanto aqui a atenção está em constante movimento. Às vezes é o som que conduz, outras vezes é a imagem, outras vezes algo quase invisível ganha importância. Gosto dessa instabilidade. Cria um espaço onde a própria perceção se torna ativa.
No vosso processo de criação — entre ti como artista sonora (até mais que violoncelista), o desenho de luz de Charlie Hope e a arte vídeo de Rebecca Salvadori — como foi a construção? Um modo partilhado a três, ou houve quem fosse avançando com primeiras ideias que os demais respondiam de forma complementar?
O Charlie, a Rebecca e eu conhecemo-nos há muitos anos e já partilhávamos uma linguagem comum antes mesmo deste projecto existir. Essa história foi importante porque nos permitiu trabalhar de uma forma muito aberta. Não havia uma disciplina dominante a orientar as outras. É claro que o material sonoro foi o ponto de partida inicial, uma vez que parte dele surgiu do meu álbum Corner Dancer, mas muito rapidamente o trabalho passou a centrar-se na forma como cada meio poderia transformar os outros. Grande parte do processo consistiu em ouvir e ajustar. As projeções da Rebecca influenciam o comportamento da luz, a iluminação do Charlie altera a presença física do som e do meu corpo no palco, e os meus movimentos pelo espaço mudam a forma como as imagens são percebidas. Passámos muito tempo a refletir sobre proximidade, escala, ocultação e revelação. A obra é estruturada, mas contém também uma forte sensibilidade improvisada.
Precisamente, e em Braga (no Semibreve), a Rebecca Salvadori não pôde estar presente. Suponho que haveria uma acção em tempo real no vídeo em palco. Diria mais até que se sentiu essa ausência no decurso das imagens — talvez um tanto estáticas. Agora de volta a Portugal, no palco da Culturgest, poderá haver diferenças sobre isso?
A ausência da Rebecca em Braga mudou definitivamente alguma coisa. Esta peça é muito sensível à energia e às relações. Mesmo quando a estrutura se mantém a mesma, a atmosfera muda consoante quem está fisicamente presente e a forma como todos reagimos uns aos outros e ao público. Por isso, sim, acho que a apresentação na Culturgest vai parecer diferente outra vez. Na verdade, espero que se mantenha sempre um pouco instável e inacabada nesse sentido.
“Not A Word From Me” aponta para uma relação prévia, vinda do teu álbum Corner Dancer (2023), como referias. Há um ponto de partida em palco nessa canção de embalar, feita de estranhas possibilidades, assustadoras, entre golpes de chicote e arranhadelas. Como que um processo traumático em resolução — podes aclarar-nos sobre essa ideia?
A ligação com o meu álbum Corner Dancer é muito directa do ponto de vista emocional, mesmo que o trabalho ao vivo vá muito além do álbum. A faixa “Not A Word From Me” já continha tensões que eu queria explorar mais a fundo: intimidade e violência, ternura e aspereza, ocultação e exposição. Interessa-me os estados emocionais frágeis que são interrompidos por forças materiais — arranhões, sons mecânicos, distorção, pressão. Essas rupturas despertam o meu interesse. Interesso-me por estados que não conseguem estabilizar-se totalmente. Uma canção de embalar pode, de repente, tornar-se ameaçadora. O ruído pode tornar-se estranhamente reconfortante. Gosto desses momentos em que as categorias emocionais deixam de se comportar como deveriam.
Nos primeiros momentos da obra, na tua acção estás longe da ferramenta que te associamos — o violoncelo. Para depois, e aos comandos dos arco sobre as cordas, massificares a atmosfera com cascatas de harmonias em microtonalidades. Como num entreter paciente, num convite lento à espera. É no violoncelo que sentes que tens mais vocabulário para comunicar?
O violoncelo continua a ser o principal instrumento com que trabalho; é a minha voz mais imediata e, por isso a mais expressiva. Costumo utilizá-lo bastante no meu trabalho de electrónica, como fonte de transformação. Acho que o que me interessa agora não é tanto o instrumento enquanto objecto associado à tradição, mas sim o violoncelo enquanto corpo através do qual exploro a ressonância e a textura. Quando toco um instrumento (e nesta peça toco violoncelo, violino e canto), a presença do instrumento e do meu corpo cria um outro tipo de escuta; é simples, acontece naturalmente. A performance num instrumento permite-nos, enquanto público, ver a respiração, o toque e a expressão. Trabalho com ferramentas físicas com as quais também tenho de lidar; é fisicamente exigente tocá-las e executar as frases. No final, toco violino como se fosse um violoncelo, está desafinado de uma forma muito estranha, sempre que toco é como se não fizesse ideia do que estou a fazer, e esta é uma tensão de que gosto, uma luta que transparece na música; não preciso de ser perfeita como no repertório tradicional, posso estar cheia de erros e ficar nesse desconforto, é divertido, é estranho, gosto desse tipo de dificuldade.
Estranho como esta entrevista pode ter contida uma contradição, pedindo-te palavras e reflexões sobre uma obra que tem por título “Not A Word From Me”…
Quanto à contradição de falar sobre uma obra intitulada “Not A Word From Me” — na verdade, gosto dessa contradição. O título nunca pretendeu ser uma recusa à comunicação. Trata-se mais dos limites da revelação e do que permanece por dizer ou é intraduzível. A linguagem continua a fazer parte da obra, mas não necessariamente como explicação. Por vezes, a omissão pode criar um tipo diferente de intimidade.