pub

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 06/05/2026

Quando o palco vira Terra do Nunca.

Lloyd Banks no Lisboa ao Vivo: um artista refém de sucessos passados

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 06/05/2026

Estatuto de vedeta? Over nine thousand. Não havia dúvidas quanto à reputação do artista quando o relógio estava prestes a bater as 23h e este ainda não tinha chegado ao palco do Lisboa ao Vivo. O homem por quem todos esperavam estava quase uma hora atrasado e tinha-nos todos na mão pelo considerável catálogo de sucessos que foi amealhado ao longo da primeira década do presente milénio — primeiro como parte dos G-Unit, depois a solo assinando como Lloyd Banks.

Vamos ser sinceros: por maior que tenha sido o impacto dessa sua incursão no game, havia uma genuína curiosidade para perceber como funciona ao vivo o novo repertório do MC nova-iorquino que atravessa um momento de particular atividade nos últimos anos, através de discos como os três volumes de The Course of the Inevitable ou a mais recente entrada da série Halloween Havoc. Longe da pressão de ser comandado por 50 Cent e ter de responder com sucessos de vendas, Banks tem estado a trilhar um percurso que prima mais pela mestria com que disfere golpes com a caneta e encontra vários pontos de contacto com uma nova vaga de rappers que tem puxado o boom bap de cunho mais autoral para cima, como Freddie Gibbs, Ransom ou a turma da Griselda, mas também com alguns dos veteranos que se recusam a atirar a toalha ao chão e se vão mantendo relevantes na presente década, como são os casos de Method Man, Roc Marci, Jadakiss ou Styles P — e todos os nomes aqui citados têm precisamente feito parte do trajeto atual do ex-G-Unit através do intercâmbio de versos.

Se estávamos na expectativa de poder testemunhar ao vivo faixas de alto quilate lírico como “Death By Design”, “Speeding Season”, “Eat What You Kill”, “Daddy’s Little Girl” ou “Propane”, saímos defraudados do concerto de ontem que trouxe Lloyd Banks à capital portuguesa, mais de 20 anos após a estreia na cidade como parte da grande comitiva que acompanou 50 Cent num dos eventos mais memoráveis da história do hip hop no nosso país, que tinha tido lugar ali não muito longe, no MEO Arena. Mas fomos, provavelmente, os únicos a ter ficado com este amargo de boca: a atuação no Lisboa ao Vivo pareceu a mesma que daria há duas décadas atrás, embora numa escala mais pequena, para pouco mais de 100 pessoas que estavam claramente ali para o escutar a interpretar os clássicos, tal era a forma exuberante com que dançavam e acompanhavam os beats de braço levantado em movimentos verticais.

Talvez a questão mais pertinente de se colocar deva ser dirigida ao próprio artista: estaria Banks realmente a gostar de estar ali a evocar memórias de um passado que já não volta, ao invés de interpretar as letras que retratam aquilo que tem realmente sentido em temporadas mais recentes? Foram várias as vezes que perguntou “are you ready to go home?” nos intervalos entre temas e havia momentos que parecia estar a fazer um frete para estar ali a cantar pela milésima vez “On Fire”, “Hands Up”, “I Smell Pussy” ou “Stunt 101”. 32 euros por 40 minutos de uma performance que vem a ser replicada há mais de uma década soa insano e em nada ajuda na longevidade da carreira do MC de Queens. Sim, pode parecer utópica a ideia de um concerto de Lloyd Banks sem três ou quatro das maiores pérolas do seu catálogo incluídas no seu alinhamento, mas limitar a setlist a material editado entre 2000 e 2010 torna-o num “escravo” do seu próprio passado — não educa os fãs antigos a apreciar o novo repertório e defrauda as expectativas daqueles que apreciam o que faz ao dia de hoje e gostavam que o seu amadurecimento não se limitasse aos discos, mas chegasse também aos palcos. Até porque já existe toda uma nova geração de ouvintes que pode muito bem ter descoberto Lloyd Banks pelo que faz agora sem estar tão inteirado com os clássicos em que assenta o seu legado.

O que vimos ontem foi um rapper que se recusa a crescer em pleno e prefere jogar pelo seguro à boleia da irreverência musical que brotou da sua jovialidade. Não há como esconder alguma frustração pelo facto de estarmos diante um artista que está a boicotar o seu presente, ainda para mais quando o output com que continua a alimentar as ruas ainda é sólido e consegue rivalizar com muitos dos talentos mais novos que entretanto brotaram na mesma lane. Mas é bem possível que tenhamos sido os únicos a ter esta sensação, pois à nossa volta a animação era geral e ninguém se parecia preocupar com o espírito revivalista estilo Revenge of the 2000’s, nem tão pouco com a hora de atraso e os parcos 40 minutos quase arrancados a ferros para uma performance que podia muito bem servir de emancipação artística para uma das mais carismáticas vozes que o rap trouxe ao mundo no virar do milénio.


pub

Últimos da categoria: Reportagem

RBTV

Últimos artigos