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Fotografia: Renato Pinto
Publicado a: 13/05/2026

Entre ondas e peixes, sem mapas nem destinos certos.

Kassa Overall no Jazz Valado’26: fazer do jazz e do hip hop um só mar

Fotografia: Renato Pinto
Publicado a: 13/05/2026

Kassa Overall estreou-se em Portugal na passada sexta-feira, na Casa da Criatividade, em São João da Madeira, e desceu no sábado até à Nazaré para um dos momentos mais intensos da 29ª edição do Jazz Valado. Apresentou-se em formato trio clássico, acompanhado pelo pianista Matthew Wong e pelo baixista Giulio Xavier Cetto. O ponto de partida era CREAM, o mais recente trabalho do músico norte-americano. Mas apenas isso: um ponto de partida. Nenhuma escuta do disco – por mais atenta – prepara verdadeiramente para aquilo que Kassa Overall faz em palco. No renovado cineteatro da Nazaré, a poucas cadeiras de estar esgotado, Kassa Overall e os seus companheiros deram um concerto épico que levou o público a exaltações constantes e a intervenções entusiásticas. Não era para menos.

Há muito que jazz e hip hop dialogam entre si, mas Overall enceta uma inversão inédita na relação desses estilos quando transforma temas de hip hop em standards de jazz. Trata Biggie, A Tribe Called Quest, Outkast ou Digable Planets da mesma forma que o jazz tratava Cole Porter, Parker, Gershwin ou Monk. Vira a página do tempo em que o hip hop samplava jazz e reverte essa lógica primordial. Encara o cancioneiro do hip hop dos anos 90 como uma tradição finalmente assumida como património canónico afro-americano. Reinterpreta-o como património histórico enquanto transforma o flow em phrasing jazzístico, os loops em dinâmica orgânica e substitui sampling por improvisação coletiva. Sempre sem artifícios. 

Em palco apareceu vestido com uma espécie de poncho oversized em tons terra, coberto por padrões geométricos negros e beges, com grafismos tribais que convocavam a memória da diáspora africana e deixava as primeiras pistas para o sua música espiritual e magnética. Os óculos de sol e o bucket hat conferiam-lhe a aura de um mestre de cerimónias africano, um afro-poeta futurista. Na primeira intervenção, apresentou a banda e o setup, e revelou que, por entre a improvisação e partindo de temas mais antigos, tocariam alguns nunca escutados. 

O concerto começou com sons aquáticos disparados por Kassa, na máquina da Teenage Engineering, envolvendo a sala com texturas ambientais que esboçavam um contexto imersivo. Kassa produzia texturas em tempo real, construía uma espécie de colagem orgânica entre sound design, improvisação, percussão digital e produção ao vivo. O tema inicial, anotado no alinhamento como “Ready Freedom”, parecia indicar a fusão de “Ready to Ball”, de ANIMALS, com “Freedom Jazz Dance”, de CREAM, funcionando como síntese do seu trajecto recente. Dessa colisão surgiu organicamente uma música nova onde emergiam o talento de Matthew Wong, ao piano, a percussão digital e os versos de Overall, num registo spoken word

Uma das curiosidades era perceber como seriam substituídos ou reformulados os sopros do disco por um trio sem sopros. Podemos dizer que foi, sobretudo, pela genialidade de Wong que não sentimos a falta deles. O jovem pianista é brilhante – e não tinha poucas responsabilidades. Além de tocar com mestria um piano de cauda, tinha a seu cargo um sintetizador, e mesmo assim parecia que todas essas teclas lhe eram sempre poucas. Tocava como se tivesse várias linhas melódicas a acontecer simultaneamente nas mãos. Esse virtuosismo ficou bem explícito no tema “Big Poppa” em que começou no sintetizador e terminou no piano. Em “Fahh Green” – aparentemente um tema novo ou não editado ainda – assinou um solo extraordinário, algures entre o spiritual jazz e a abstracção electrónica.

Giulio Xavier Cetto é um baixista completo. Seja no baixo eléctrico ou no contrabaixo, seja quando concretizava ou simplesmente quando sugeria, a sua contribuição foi sempre constante e indispensável. Movia-se entre contenção e propulsão com enorme inteligência – uma espécie de eixo gravitacional. Em “Rebirth of Slick”- recriação do clássico dos Digable Planets – Kassa volta a abrir a linguagem jazzística escondida dentro do hip hop dos anos 90, enquanto Cetto parecia literalmente controlar a gravidade da música, desacelerando e precipitando o trio com pequenas alterações de intensidade. Por vezes juntava a voz à de Kassa, para desenhar uma sombra grave e subterrânea ao spoken word do líder. O hip hop deixava de surgir como citação ou referência estética: tornava-se corpo vivo, groove humano, matéria elástica.

O verdadeiro epicentro do concerto chegava sempre que Kassa Overall tomava conta da bateria com os seus oito braços. Aí, tudo mudava de escala. O músico norte-americano tocava como se tivesse vários centros rítmicos a acontecer ao mesmo tempo. A configuração de duas tarolas acentuava ainda mais a sensação de desdobramento físico. Era impossível acompanhar todos os detalhes: pratos, ataques, fragmentos de beat, explosões sincopadas e desvios abruptos apareciam numa lógica simultaneamente caótica e rigorosa – absolutamente impressionante a energia, a coordenação, o ritmo, a loucura com que o músico captava a atenção e hipnotizava o público. Foi ao revisitar “Spottieottiedopaliscious”, de Outkast, que se deu a primeira explosão de genialidade, e onde o magnetismo se tornou irresistível. Nenhum olhar, por muito desviante, conseguiu mais escapar ao que estava a acontecer em palco. 

“Check The Rime” – tema original de A Tribe Called Quest – foi o pico enérgico e fumegante de todo o concerto. Um atropelamento em massa das almas que levantou aplausos a cada trinta segundos. A dada altura, nem os óculos nem o chapéu resistiram a tamanha profusão de sons e movimentos. Indescritível momento que, lamentavelmente ou não, não está no disco.  

O concerto confirmou, aliás, aquilo que o próprio Kassa havia sugerido: CREAM funciona como cartografia parcial. Em palco, os temas expandem-se, mudam de direcção e transformam-se em plataformas abertas para improvisação coletiva. Não há mapas completos ou destinos certos. O pior é não ser possível reproduzir o que ali se passou em casa. O publico saiu eletrizado, enérgico e com a perfeita consciência de que o que se havia passado na sala era irrepetível. Mesmo assim, praticamente esgotou os CDs disponíveis, como quem procura uma rota para um reencontro. O trio veio até à mesa de venda para distribuir assinaturas, pousar para fotografias e trocar algumas palavras com as pessoas que ainda tentavam libertar-se da energia acumulada durante aquela hora e meia. 

Não menos impressionante do que o concerto é perceber que uma pequena povoação piscatória como a Nazaré recebe, ano após ano, alguns dos nomes mais distintos da vanguarda nova-iorquina do jazz contemporâneo. Isso muito se deve à visão persistente, desempoeirada e ousada da programação do Jazz Valado que, ao longo de quase três décadas, transformou um território improvável num ponto de encontro para a música mais livre e desafiante do presente. O festival continua nos próximos fins de semana de maio na sala da BIR, em Valado dos Frades, e termina no centenário e pitoresco Teatro Chaby Pinheiro, no Sítio, a 6 de junho, prolongando essa rara possibilidade de escuta e descoberta longe dos grandes centros urbanos.


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