João Ervedosa (Rave Tuga): “Acredito que a pista de dança pode ter um papel transformativo na sociedade”

[TEXTO] Vasco Completo [FOTO] Direitos Reservados

Rave Tuga, sub-label da Paraíso, editou o primeiro volume da compilação homónima no dia 29 de Março. Esta edição promete ser apenas a primeira de quatro que estão já agendadas para os próximos meses de Abril, Maio e Junho.

Com músicas de nomes conhecidos da electrónica nacional como Violet, Mind Safari, IVVVO, BLEID, Alex FX, Photonz, José Acid, Odete ou Caroline Lethô, este projecto pretende colocar a pista de dança na sua dimensão de espaço “transformativo da sociedade”, num conjunto emocionante e diversificado de faixas com base no house e no techno que se faz em Portugal. Nesse sentido, todos os rendimentos dos vários volumes de Rave Tuga vão para associações que contribuam para um mundo melhor. De acordo com a publicação no Facebook, a venda em formato digital ou físico (em cassete) remete para a Casa Qui, organização sem fins lucrativos que apoia a juventude LGBTQ+ e as vítimas de abuso.

A compilação do selo criado por João “Shcuro” Ervedosa já pode ser ouvida e comprada via Bandcamp.



De onde surge a motivação para a criação desta sub-label da Paraíso? 

A Paraíso começou como um programa na Rádio Quântica que consistia em entrevistar as primeiras pessoas a fazer/passar música de dança em Portugal. Comecei a receber mensagens de várias pessoas, amigas e desconhecidas, que partilhavam a influência que estes pioneiros tinham tido na sua formação enquanto DJs/produtores/ravers, tanto através de histórias, como de música que faziam inspirados por estas pessoas e por este boom inicial da música de dança em Portugal. A certa altura tinha tanta música exclusiva que começar a editora me pareceu um passo lógico e natural.

Entre faixas novas que fui recebendo, faixas perdidas em DATs, e discos rígidos que pedi a vários destes pioneiros da rave portuguesa para procurar, a quantidade de música incrível que juntei tornou impossível apresentá-la na Paraíso através de discos. A isso aliou-se uma vontade, já antiga, de usar a música como veículo para lutar contra a discriminação e o preconceito, pelo que decidi criar a Rave Tuga como uma sub-label dedicada a contribuir para causas que acredito serem urgentes. O custo de produção do vinil ser tão alto tornava a ideia de doar os lucros a instituições pouco viável. As cassetes foram, por isso, a escolha lógica em termos de formato.

Uma das afirmações que nos parece mais clara do lançamento da Rave Tuga é a ideia de que todos os rendimentos da editora vão para associações que trabalhem a favor da paridade. A ideia de manter a pista de dança como forma de expressar um determinado discurso ideológico ganha ainda maior relevo. Como pretendem continuar a fomentar o debate, a dar espaço a estas ideias na música?

A música de dança tem, desde a sua origem, um carácter político. Acredito que a pista de dança pode ter um papel transformativo na sociedade. É importante que cada vez mais pessoas tenham consciência que estes desequilíbrios são reais e têm que ser combatidos diariamente. É preciso reconhecer que o privilégio existe e, quem dele usufrui, tem o dobro da responsabilidade de lutar contra a discriminação e o preconceito. É muito fácil ignorar o quão privilegiado sou, ter uma atitude apolítica e fechar os olhos a estas questões, dizendo que só a música é que importa. Só se pode dar a esse luxo quem não sofre as consequências desses desequilíbrios na pele.

Num projecto com tantos nomes, e tendo em conta a riqueza do que se tem feito na electrónica portuguesa, quão difícil é limitar o espectro de artistas que ingressam tanto na Paraíso como nesta Rave Tuga?

A minha intenção é que a editora funcione como uma plataforma de expressão musical para pessoas em cuja música acredito. Na maioria dos casos, ou são pessoas de quem já sou próximo, com quem já colaborei de alguma forma no passado, ou pessoas que conheci através do programa da Rádio Quântica. Há também pessoas que, por saberem que tenho a editora, me enviam música. É importante para mim identificar-me com os artistas em termos de valores, aparte da óbvia identificação musical ter que existir. Não acredito na separação entre artista e obra.

Há intenções de trazer estas compilações (ou até outro tipo de projectos) para outros formatos?

Esta compilação é o maior projecto discográfico em que já estive envolvido. Começou por ter uma dimensão reduzida (a ideia inicial era ter 12 músicas de amigos próximos e pessoas que fui convidando para tocar na Noite Paraíso) mas foi crescendo rapidamente, de uma forma orgânica. Entre ter pedido uma faixa a algumas pessoas (houve até quem me enviasse várias!) e outras que fui recebendo desde que comecei a Paraíso, deparei-me com 48 faixas. Fico muito feliz e agradecido por tanta gente, que ao se ter identificado com o projecto, contribuiu com música, masterização, promoção, etc.

Como vês o panorama actual da música electrónica portuguesa?

Uma compilação desta dimensão é a melhor resposta que posso dar a essa pergunta!


[TRACKLIST]

Vol. I – 29 de Março
A1 Violet – BB 
A2 Sheri Vari – Buy That! 
A3 Ka§par – Quebrado 
A4 Lost In Space – Close Your Eyes 
A5 Pedro – Can U Hear Me 
A6 Santa Bárbara – A Lado Nenhum 
B1 Model 9000 – If You Only Knew 
B2 Alex Santos (AKA Urban Dreams) – Who Am I 
B3 Pal+ – Amsterdam Skyline 
B4 Daino – All Over The Place 
B5 Unfixed & Broken – Gone 
B6 Alex FX – Outbreak (Parts I & II) 

Vol. II – 26 de Abril
A1 Mind Safari – Interstellar Communication 
A2 Emauz – Extreme Moody Samplage (I Didn’t Get Any Money From This) 
A3 Slug Beetle – Etherealismo 
A4 Photonz – Overzen 
A5 BLEID – Me And The Dragon Still Chase All The Pain Away 
A6 Internal NY Rhythms (AKA Trikk) – Sal (Tribal Dub) 
B1 EDND – The Factory 
B2 Savant Fair – Penumbra 
B3 2Jack4U – 808-10 
B4 Chaosmos – Graffiti Vandal 
B5 Elite Athlete – Portugal Radical 
B6 Sabre – Altar Glider 

Vol. III – 24 de Maio
A1 Caroline Lethô – To Paradise 
A2 DJ Senior Vasquez – Heal Me 
A3 J. Daniel – Paragon 212 
A4 Silvestre – Máquina De Lavar 
A5 Ricardo Ferro (AKA DJ Ferro) – We Are Alright 
A6 Daisy Chain (AKA DJ Jiggy) – PJjazz 
B1 Une – Vista 
B2 Odete – Techno 
B3 DJ Ze MigL – Tripper 
B4 Rosebud – Há Bronca Na Discoteca 
B5 Apart – Eloquent 
B6 VIL – Evolution 

Vol. IV – 28 de Junho
A1 Diogo – B-Trails 
A2 Roundhouse Kick – Run 
A3 Temudo – Dintch 
A4 Unknown (AKA IVVVO) – Untitled 
A5 A. Paul – Rupture 
A6 José Acid – Untitled 17 
B1 ketia – This Is Not Being Dramatic 
B2 Benficker – Ensaio 98 
B3 Wla Garcia – Forward Looking 
B4 Morrice (AKA Fauvrelle) – Bias 
B5 Infestus – Metabolic Pump 
B6 Valody – New Phase 


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