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Fotografia: SARAHAWK
Publicado a: 20/07/2026

Regresso à casa de partida com direito a uma merecida ovação.

Jamiroquai no Ageas Cooljazz’26: o funk voltou a vir do espaço

Fotografia: SARAHAWK
Publicado a: 20/07/2026

Ainda o concerto ia no início quando, entre duas das primeiras canções, Jay Kay se dirigiu ao público para revelar uma conversa privada que tinha tido com a mãe naquela manhã do dia 18 de Junho. Ao dizer-lhe que estava em Cascais para o derradeiro concerto da The Heels of Steel Tour, a progenitora lembrou-o de que tinha sido lá que ele foi “feito”, fruto do seu romance com o guitarrista português Luís Saraiva, que estava ali entre nós a assistir à performance do filho. O final da digressão tinha, por isso, sabor especial e era diante de uma massa adepta faminta para ver os Jamiroquai de novo ao vivo, após vários anos afastados quer dos palcos, quer das edições. Os bilhetes para esta atuação inserida no Ageas Cooljazz’26 voaram todos em muito pouco tempo e — spoiler alert — aqueles que os agarraram tiveram a oportunidade de testemunhar um dos concertos mais icónicos deste Verão em Portugal.

Tal como a “sementinha” de Jay Kay tinha sido plantada há mais de cinco décadas atrás, muitas outras certamente fizeram o mesmo caminho após a saída do recinto dos diferentes casais que popularam o Cooljazz naquela noite. Os Jamiroquai são detentores de um trajeto musical recheado de temas polvilhados com aquele funk cósmico e afrodisíaco que nos entra pelos corpos adentro e não deixa ninguém indiferente. Nem os mais tímidos escapam, e mesmo com as mãos nos bolsos vão deixando o corpo ondular ao sabor daqueles grooves vindos do espaço.

Clássicos de sempre como “Space Cowboy”, “Cosmic Girl”, “Canned Heat” ou “Seven Days in Sunny June” não faltaram à chamada numa setlist que continha ainda alguns pozinhos de um futuro que está para vir em breve: “Disco Stays the Same” e “Shadow in the Night” farão parte do próximo álbum da banda inglesa que está neste momento in the making. No final, após uma enorme ovação, “Virtual Insanity” causou uma explosão geral que nos colocou a todos em órbita ali para os lados de Júpiter ou Saturno.

Mas o que mais impressionou naquela amena noite de 18 de Julho não foi a repescagem desse transgeracional repertório que trouxe acidez à música pop feita na transição entre milénios. Esses temas emblemáticos que fizeram dos Jamiroquai aquilo que são hoje eram expectáveis por todos. A surpresa boa foi mais a forma com que tudo nos foi apresentado, numa altura em que o acid jazz que eternizaram tem vindo a ser veiculado por uma nova geração de músicos de extrema precisão técnica, como são os casos dos franceses L’Imperatrice, dos australianos Mildlife ou dos também ingleses Franc Moody. A generosa banda que acompanhou Jay Kay em cima do palco era feita de instrumentistas do mais alto calibre, cada um deles a dar diferentes camadas àquelas canções tão bem conhecidas do público — do mais óbvio trio formado pelo baixo (provavelmente o principal motor daquele Rolls-Royce), guitarra e bateria, passando por um coro de três vozes, sintetizadores abrasivos que juntavam moléculas adicionais de LSD ao já psicadélico composto sonoro, ou até um grande kit de percussão que abrilhantava toda aquela matéria com um certo glamour exótico.

A perícia de todos estes músicos era notada — quase frisada — tema após tema. As composições estendiam-se no tempo para extravasar aqueles típicos três minutos cravados em disco, montadas e desmontadas à nossa frente com algumas doses de improviso e espaço para vários solos. Em muitas dessas ocasiões em que as canções ganhavam vida própria, dava a sensação de que estávamos a recuar no tempo e a ter o privilégio de ver uma fusão em palco entre os Funkadelic e os Kool & the Gang, tal era a forma harmoniosa com que as habilidades de todos aqueles músicos se entrelaçavam.

Nessa noite perfeita em que o funk voltou a vir do espaço, nem o frontman vacilou. Aos 56 anos, Jason Luís Cheetham (que o mundo melhor conhece por Jay Kay) já não tem a capacidade de alcançar os falsetes de outros tempos, mas arranjou sempre forma de manter o registo vocal próximo das versões gravadas nos álbuns, dando interpretações seguras e fieis àquilo que os fãs conhecem. A maior surpresa terá sido o lado físico da sua performance, arriscando por inúmeras vezes naqueles seus arrojados passos de dança que, à primeira vista, apenas parecem possíveis àqueles que se encontram num estado de gravidade zero.

Não restaram dúvidas: diante uma plateia com cerca de 10 mil pessoas, os Jamiroquai deram um espetáculo digno das maiores arenas do planeta e mereciam ter, no mínimo, cinco vezes mais cabeças diante si a escutá-los. A velocidade com que aqueles bilhetes esgotaram é uma prova disso mesmo. E com uma equipa de músicos a corresponder à expectativa desta forma, foi uma clara jogada de xeque-mate para o Cooljazz.


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