House: A História X

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

 

Décimo capítulo da publicação periódica no Rimas e Batidas dos capítulos do livro “House – A História” assinado por Rui Miguel Abreu e editado em 2006.

Revejam todos os capítulos da série aqui.

 


 

[DJ PIERRE E O CAMINHO PARA INGLATERRA]

Como quase sempre aconteceu nos domínios da música de dança e da sua relação com a tecnologia, tudo teve origem num “acidente” primordial. Tal como os gira-discos não foram desenhados como ferramentas de scratch, também a 303 não foi concebida para debitar ácido analógico sobre beats 4/4. Terá sido ainda antes de 1985 que DJ Pierre, juntamente com os seus companheiros Herb Jackson e Earl “Spanky” Smith – os Phuture – começou a mexer numa máquina da Roland de nome TB-303. Essa peça desenhada por Tadao Kikumoto havia sido originalmente pensada como geradora automática de linhas de baixo para acompanhar guitarristas, mas Pierre, que não fazia a mínima ideia de como a utilizar, começou a mexer aleatoriamente nos seus botões e descobriu que conseguia gerar um glorioso ruído analógico, contagiante e perfeito para públicos que dançavam sob o efeito de drogas, como era o caso da multidão que seguia Ron Hardy no Music Box. DJ Pierre (no foto acima) tinha claras noções do que poderia funcionar numa pista de dança, uma vez que ele próprio tinha experiência nessa área por tocar em “Roller Discos” (22) de Chicago.

 


 

 


O primeiro tema criado com esse método, “Acid Tracks”, foi imediatamente entregue a Hardy que o tocou quatro vezes na mesma noite. Pierre reviveu o momento quando entrevistado por Bill Brewster e Frank Broughton no livro Last Night A DJ Saved My Life: “(Primeiro) a pista esvaziou-se! E nós sentámo-nos a pensar ‘Ok, é óbvio que ele nunca mais vai tocar o tema’.” Mas, como escrevem Bill & Frank, Hardy acreditava no tema e esperou que a pista enchesse de novo e voltou a insistir em “Acid Tracks”. À segunda vez a reacção foi mais calorosa e à terceira um pouco melhor, mas, por volta das quatro da manhã, quando voltou a tocar o tema para uma pista já sob o efeito das suas drogas de eleição, um cocktail polvilhado com LSD, a reacção foi estrondosa. Explica DJ Pierre: “As pessoas dançavam de pés para o ar, havia um tipo deitado de costas, a espernear. Foi espantoso. As pessoas começaram a dançar descontroladamente, deitando-se umas às outras abaixo, em plena loucura.” Claro que o mundo do House nunca mais foi igual. De repente, a TB 303 passou a ser uma peça fundamental em todos os estúdios e a sua personalidade única começou a “contaminar” as produções dos mais importantes nomes de Chicago, afastando-se definitivamente a ideia do Disco que ainda norteava as primeiras produções de house. Uma simples peça de equipamento ajudava assim a traduzir o espírito de uma época.

 


 

 


A TB-303 (a sigla TB significa Transístor Bass) foi apresentada ao mundo juntamente com a TR-606 (Transistor Rhythm) no início de 1982. O seu criador foi Tadao Kikumoto (que também assinaria a TR-909!), um dos developers de novos conceitos da Roland. Essas peças foram pensadas como acessórios de acompanhamento de músicos solistas, principalmente guitarristas, mas revelaram-se extremamente complexas de programar e a Roland abandonou a sua produção apenas 18 meses depois de as introduzir no mercado, tendo fabricado apenas 20 mil unidades para todo o mundo. Ninguém parecia querer aquela máquina até que DJ Pierre a revelou ao mundo em toda a sua glória. Basicamente, foi popularizada a ideia de que a 303 compõe sozinha e para tanto basta ligá-la e mexer nalguns dos botões para que comece a debitar aquele ruído característico que haveria de adornar tantos e tantos discos de acid house. A 303 já custava o equivalente a cerca de 300 euros quando apareceu, mas o seu preço foi aumentando com o passar dos anos e agora há quem as venda por cerca de 1200 euros no mercado de instrumentos usados.

 

[DJ INTERNATIONAL & TRAX RECORDS]

Em meados dos anos 80, toda a cena de Chicago encontrava-se concentrada em duas etiquetas: a DJ International e a Trax Records. Ambas eram puramente amadoras e notórias por não pagarem aos artistas e por se envolverem em esquemas de legalidade duvidosa. Ainda assim, eram estes dois os selos responsáveis por documentarem a intensa actividade dos produtores de Chicago. Actividade que não passava despercebida em alguns pontos da Europa, nomeadamente em Inglaterra onde algumas lojas possuíam secções de importações para acomodarem as novidades que tinham origem em “Chi Town”.

A história da Trax Records confunde-se com a própria história do house. Larry Sherman, o dono da Trax, era igualmente o dono da única fábrica de vinil em Chicago, a Musical Products, desde 1983. Foi com Sherman que Jessie Saunders foi ter quando quis prensar “On and On” e a história da Trax começa aí. Sherman era um sobrevivente, um daqueles homens capazes de arranjar esquemas para tudo. E quando percebeu que Chicago estava a ser berço de uma revolução, criou a Trax para recolher os seus lucros. O primeiro disco da Trax, nem de propósito, foi assinado por Saunders: tinha por título “Wanna Dance” e era creditado a Le Noiz.

 


 

 


Não demorou muito tempo para que outros artistas começassem a ir ter com Larry Sherman para tentarem ver os seus trabalhos impressos em vinil, facto que logo deixou claro que um certo espírito herdado da época em que os gangsters dominavam a cidade continuava bem vivo. Marshall Jefferson que o diga: “Quando quis prensar o Ep de Virgo chequei a etiqueta de outros vinis e tirei os contactos da Trax. Fui lá e o Larry disse-me ‘claro que imprimo o disco, paga-me 1500 dólares e eu trato disso.’ E então eu paguei-lhe. Paguei-lhe 1500 dólares e até hoje não vi um tostão desse disco que deve ter vendido imenso.” (23) Esta história é bem exemplificativa do tipo de negócios que estão na base da criação dos primeiros discos de House de Chicago. Talvez por isso mesmo, uma série de artistas que trabalhavam com a Trax começaram também a editar material na DJ International de Rocky Jones. Esses fluxos de artistas à procura do ambiente certo para a sua personalidade e sobretudo para os seus trabalhos acabaram por permitir que cada uma destas etiquetas construísse uma identidade: a Trax viu o seu nome ser associado aos temas instrumentais mais ácidos e a DJ International explorou temas vocais mais acessíveis. Ou seja, a Trax encontrava perfeito eco nas explorações maníacas de Ron Hardy no Music Box e a DJ International revia-se na aura de maior sofisticação do Power Plant de Knuckles. Não é por isso de surpreender que a DJ International tenha editado o primeiro tema de house a causar impacto fora de Chicago, “Love Can’t Turn Around” de Farley “Jackmaster” Funk, um tema menos hardcore e com a dose necessária de melodia para captar uma audiência mais vasta.

 


 

https://www.youtube.com/watch?v=Lr-OgG1A74c

 


Foi a DJ International que abriu primeiro a ponte com Inglaterra. Com a etiqueta London organizou a primeira compilação de acid house que, em 1986, possibilitou que uma série de nomes de Chicago fizessem uma digressão por clubes ingleses. Adonis, Marshall Jefferson, Fingers Inc (Larry Heard) e Kevin Irving funcionaram como embaixadores de um som que haveria de tomar o Reino Unido de assalto no ano seguinte. Farley “Jackmaster” Funk foi o primeiro a experimentar o sabor do sucesso em Inglaterra com um som que tinha origem nos ghettos de Chicago e que era praticamente ignorado no resto dos Estados Unidos. O já referido “Love Can’t Turn Around”, uma versão de um velho clássico de Isaac Hayes, chegou a número 10 da tabela de vendas britânica em Setembro de 1986. Não foi necessário esperar muito tempo até surgir um hit capaz de abraçar o primeiro lugar: em Janeiro de 1987 “Jack Your Body” de Jim Silk (Steve “Silk” Hurley) chegava a primeiro lugar do top inglês e a revolução que haveria de levar até à solarenga Ibiza um som criado na fria Chicago tinha início. De um dia para o outro a palavra “jack”, usada originalmente para descrever os movimentos descontrolados nas pistas de dança de Chicago, estava em todo o lado: “Jack The Groove”, “Jack The House”, “Jack The Box”: os ingleses não se fartavam. “Jack The Groove”, de Raze, um projecto de Washington de Vaughan Mason, foi o hit seguinte. O som acid estava definitivamente imposto e clubes como o Shoom e Spectrum tomavam a dianteira em Londres. E as drogas, claro, desempenharam o seu papel na mística desta nova sonoridade que aliás devia o seu nome aos ácidos colocados na água do Music Box de Ron Hardy.

 


https://www.youtube.com/watch?v=oB4RTn7NXf4

 


Mil novecentos e oitenta e oito foi, definitivamente, o ano um da invasão acid em Inglaterra e tal como em Chicago, com o Hot Mix 5, também aí a rádio haveria de se revelar fulcral para o apoio aos discos e artistas. No caso inglês, no entanto, tratava-se de um modo diferente de fazer rádio, com as famosas piratas a dominarem as ondas hertzianas e a servirem de rastilho para as festas ilegais movidas a ecstasy que haveriam de crescer ao ponto de fazer nascer toda a Rave Culture que tantos rios de tinta fez correr. Apoiada nas actividades de clubes recentes como o Shoom ou o Spectrum, esta sonoridade conquistou novos adeptos muito rapidamente. Em Fevereiro de 1988 ainda se registou uma fraca adesão a uma festa promovida pelo clube Delerium (com a presença em solo britânico de mais uma série de heróis de Chicago, como Fingers Inc, Marshall Jefferson ou Frankie Knuckles), mas, rezam as crónicas da época, praticamente todas as pessoas presentes acabariam por se transformar em protagonistas da explosão que se registou poucos meses depois.

 


 

[NOTAS]

22 – Discotecas onde a pista de dança era um enorme ringue de patinagem.

23 – Citação retirada de artigo disponível no site www.globaldarkness.com.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu