House: A História VIII

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

 

Capítulo oito da publicação periódica no Rimas e Batidas dos capítulos do livro “House – A História” assinado por Rui Miguel Abreu e editado em 2006.

Revejam todos os capítulos da série aqui.

 


[LET THERE BE HOUSE]

 

Em 1984, tudo estava pronto para o house poder nascer. Já há um bom par de anos que Ron Hardy explorava um som mais duro no Music Box, dando-se até ao trabalho de preparar edits caseiros que carregavam no lado rítmico só para poder contar com munições adicionais para incendiar a pista de dança. Por outro lado, os crescendos geridos por Frankie Knuckles, a que o público de Chicago estava habituado, exigiam faixas básicas de baixo e bateria para elevar a pressão na pista até ao ponto em que um disco com vozes significava o libertar de toda a tensão acumulada, levando a multidão ao delírio. E, como a história tão bem nos ensina, basta haver quem queira uma coisa para aparecer alguém a oferecê-la. Com a tecnologia a correr a favor dos tempos, estavam reunidas as condições para que os primeiros temas de house pudessem começar a aparecer. O nome já existia, o conceito já existia, o público já existia – faltava mesmo só a música.

É neste ponto que Jesse Saunders (na foto) entra na nossa história. Jesse era um dos mais populares DJs de Chicago, com uma residência no enorme clube Playground (com capacidade para duas mil pessoas) e um programa na estação de rádio WGCI. A dupla Brewster/Broughton refere em Last Night a DJ Saved My Life que Saunders não tinha o espírito rebelde de Ron Hardy ou a sofisticação de Knuckles mas garantia o estatuto ao tocar os sons mais mainstream disponíveis na época, como era o caso, por exemplo, dos hits dos B-52’s. Além disso, Saunders gostava também de carregar no lado rítmico da música (18): “Muitas vezes eu levava uma caixa de ritmos comigo, deixava-a a tocar o mesmo beat a noite inteira e ia misturando coisas por cima.” Havia um disco em particular que Saunders usava para tocar em conjunto com o que tinha programado previamente na caixa de ritmos. Editado numa obscura Remix Records e datado de 1980, esse maxi era creditado a Mach e tinha no lado A uma megamix de alguns temas populares da altura de título “Funky Mix” e, no lado B, a faixa “On and On”, a favorita de Saunders, talvez por ser tão despida – o disco começava com um apito e uma voz que dizia “Hey, welcome aboard the Funk Train” (retirada de um tema dos Munich Machine de Giorgio Moroder) aparecendo depois um ritmo repetitivo dominado por uma linha de baixo electrónica a que se adicionaram alguns ruídos típicos dos jogos de computador, uma buzina de automóvel mais adiante e, uns bons compassos depois, um loop das backing vocals de “Bad Girls” de Donna Summer com aquele famoso “beep beep” a marcar o ritmo (19). Jesse Saunders incorporou esse disco de tal forma no seu set que no dia em que lho roubaram ele prometeu a si mesmo refazê-lo, só para ter aquela música de novo à sua disposição.

 


 

 


Jesse Saunders tinha alguma educação musical, mas aparentemente nunca tinha pensado em utilizá-la de forma a produzir o tipo de música que sabia que poderia funcionar na sua pista. Mas o roubo da sua cabine de “On and On” foi o catalizador que necessitava para se atirar ao trabalho: com uma TR 808, um Korg Poly 61 e a máquina geradora de linhas de baixo TB 303, Saunders começou a gravar – com a ajuda de um gravador de cassetes de quatro pistas – os seus primeiros temas. Entre os primeiros trabalhos que gravou incluíam-se “Fantasy” e “On and on”, o tema em que prestava homenagem ao tal vinil roubado. Tratavam-se de faixas muito simples – “rhythm tracks” como eram referenciadas na altura –, mas que marcaram o início do house. Com a ajuda de Vince Lawrence, um amigo que tinha alguma ambição e que era filho do dono de uma pequena editora de blues, a Mitchbal, Jesse conseguiu colocar em vinil os seus primeiros trabalhos. Assim, em Janeiro de 1984 “On and On” tornou-se o primeiro tema de House impresso em vinil, seguindo-se “Fantasy” pouco tempo depois. “On and On” teve ainda o mérito de exercer um efeito semelhante ao dos Sex Pistols: rezam as crónicas que uma elevadíssima percentagem das poucas pessoas que assistiram aos primeiros concertos dos pioneiros do Punk em Inglaterra acabaram por formar bandas e com “On and On” passou-se algo de semelhante pois o tema era tão básico, tão simples, que qualquer um sentia ser capaz de fazer melhor. E praticamente todos fizeram.

Mais ou menos ao mesmo tempo, Jamie Principle (nome artístico de Byron Walton), um músico muito reservado que admirava a pop que chegava da Europa, criou os clássicos “Your Love” e “Waiting on Your Angel” que toda a gente recorda como sendo muito superiores a “On and On”, mas que durante cerca de um ano apenas circularam em cassete entre os DJs de Chicago. Apesar do entusiasmo revelado pela comunidade de DJs, a aceitação deste novo tipo de musica pelo público dos clubes não foi imediata. “Aqueles discos não motivavam muito as pessoas,” explicou Adonis a Phil Cheeseman da DJ Magazine. “O primeiro foi ‘Waiting on Your Angel’ de Jamie Principle. É que antes de haver discos já se podia contar com as cassetes e os temas que circulavam nesse formato eram a coisa mais excitante em Chicago. Esses temas de Principle eram tão incríveis que Jesse Saunders copiou-os até ao último pormenor, editando-os depois na etiqueta Precision. Os temas de Principle foram tão influentes que num curto espaço de tempo surgiram uns quatro ou cinco discos que aproveitavam aquele tipo de sons.”

 


 

 


De repente, parecia que toda a gente em Chicago estava em estúdio, a caminho de um estúdio ou a acabar de sair de um estúdio com um novo tema debaixo do braço, inspirado pelo novo som, mas também motivado pela aparente facilidade com que se podiam transpor ideias para vinil. Os primeiros temas eram espantosamente básicos, mas também incrivelmente funcionais. Farley Jackmaster Funk, um dos membros do colectivo de DJs de rádio Hot Mix 5, editou “Aw Shucks” em finais de 84, seguindo-se discos de produtores como Chip E e Adonis com o clássico “No Way Back” (recentemente revisto pelos portugueses Pop Dell’Arte). Ainda no artigo de Phil Cheeseman, Adonis dá conta de como uma noite no Music Box podia ser inspiradora: “O Music Box era underground. Podia ir-se lá no pico do Inverno e mesmo assim estava imenso calor e as pessoas passeavam-se em tronco nu. Ron Hardy era tão poderoso que as pessoas gritavam o seu nome enquanto ele estava a tocar. E eu tenho cassetes que provam isso. A diferença entre o Frankie e o Ronnie era muito simples – ainda ninguém estava a fazer estes discos de house quando o Frankie tocava no Warehouse embora todos os tipos que se tornariam nos próximos DJs estivessem lá a absorver tudo. Mas foi o Music Box que realmente inspirou as pessoas. Fui lá uma noite e no dia seguinte estava em estúdio a fazer o ‘No Way Back.”’

Nas notas incluídas na edição de “Acid – Can You Jack” da Soul Jazz pode ler-se a seguinte declaração de Lil’ Louis: “A razão pela qual o House era tão despido tinha a ver com o facto de ninguém se poder dar ao luxo de lidar com bandas em estúdio, além de que muitas dessas pessoas não tinham conhecimentos teóricos.” Isso foi de facto verdade num primeiro momento, mas o house depressa atraiu gente mais experimentada, como Larry Heard, que tinha no seu background o facto de ter pertencido a alguns grupos de funk e que trouxe para o house uma sensibilidade mais sofisticada que cedo se manifestou em temas como “Can You Feel It” e “Mystery of Love” gravados com a ajuda do vocalista Robert Owens e editados sob a designação Fingers Inc..

No artigo de 1986 da revista The Face, descrevia-se esta nova sonoridade como “o som de Chicago” e “canções disco com o estilo dos Anos 80” tentando também impôr-se a ideia de que esta nova cultura tinha tomado uma cidade inteira de assalto. E de certa maneira, a ideia estava correcta. Porque num curto espaço de tempo house deixou de ser apenas a banda sonora dos clubes, e passou também a ser um som que se disseminava por todo o Midwest através da rádio.

 

https://www.youtube.com/watch?v=-OpWOhSioxk

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu

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