House: A História IX

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

 

Capítulo nove da publicação periódica no Rimas e Batidas dos capítulos do livro “House – A História” assinado por Rui Miguel Abreu e editado em 2006.

Revejam todos os capítulos da série aqui.

 


 

[HOT MIX 5]

Nesta época, Chicago era um mundo à parte, muito menos estruturado em termos de indústria do que Nova Iorque, onde as editoras ditavam as regras e tinham muitos dos grandes DJs na sua lista de pagamentos (gente como Walter Gibbons ou Larry Levan fazia com alguma frequência remixes a pedido de algumas editoras). Pelo contrário, em Chicago os DJs dominavam absolutos sem nada que se parecesse com uma indústria para os atrapalhar. Frankie Knuckles no Warehouse, Ron Hardy no Music Box, Farley “Jackmaster” Funk no Playground. Depois, claro, havia o quinteto fantástico: o Hot Mix 5 era uma equipa de DJs de sonho liderada por Kenny Jason com Scott “Smokin” Silz, Farley “Jackmaster” Funk, Ralph Rosario e Mickey Oliver. Emitido na WBMX entre 1981 e 1986, o Hot Mix 5 ditava a lei em Chicago e lojas como a Imports Etc. publicavam mesmo as listas das músicas tocadas no programa para ajudar os fervorosos seguidores daquela cultura nas suas compras.

Marshall Jefferson tem algumas memórias daquela época e partilhou-as com Frank Broughton para um artigo de título “Chicago: Still Rockin’ Down the House(20): “Todos os DJs do Hot Mix 5 eram espantosos em termos técnicos. Tinham dois exemplares de todos os discos e por isso tudo era tocado com phasing. E eles faziam backspinning e outras coisas em todas as canções. De forma perfeita, sem erros, explosivo!”

O programa conduzido por estes “Fab Five” começou por ser emitido ao sábado à noite, obrigando lojas como a Imports Etc a estarem abertas ao domingo pois era certo que um disco tocado no sábado à noite ia vender-se como pãezinhos quentes no dia seguinte. Depressa o show foi estendido para as sextas à noite conquistando também um espaço à hora de almoço além de rubricas diárias de 15 minutos, com mini-mixes diferentes que toda a gente seguia religiosamente: “Toda a gente ouvia, especialmente quando o show começou a ser emitido à hora de almoço. Quando chegava ao meio-dia, já toda a gente estava colada à rádio e havia até quem faltasse às aulas para poder gravar o programa,” explicou Maurice Joshua (21).

O sucesso desta crew foi tal que lhes garantiu o estatuto de estrelas absolutas de Chicago. Além dos ordenados significativos que a equipa recebia na rádio, havia os sets que cada um tocava nos mais importantes clubes da cidade e festas especiais em que os cinco apareciam no cartaz. Claro que tudo isto surtiu efeitos ao nível dos egos individuais e com outras rádios a pressionarem alguns dos membros do Hot Mix 5 com convites em que o ordenado duplicava a equipa não podia ficar estanque durante muito mais tempo. O primeiro a sair foi Scott “Smokin” Silz, em 1984, seguido de Farley “Jackmaster” Funk atraído pela proposta lançada pela estação de rádio rival WGCI.

 


 

 


Nos anos seguintes, a situação do Hot Mix 5 – que depois das saídas de Scott e Farley tinha-se aberto à participação de pessoas como Steve “Silk” Hurley e até Frankie Knuckles – complicou-se com pequenas traições dos restantes membros originais e acusações públicas e privadas a resultarem em diversos solavancos que terminaram com transferências para a WGCI e processos judiciais lançados pela WBMX. Para a história, no entanto, fica o espírito aventureiro desta equipa que maximizou as experiências protagonizadas por gente como Frankie Knuckles ou Ron Hardy nos seus respectivos clubes, oferecendo às ondas de rádio a música e os conceitos que eram reverenciados nas pistas de dança de Chicago.

 

[A NOVA REALIDADE HOUSE]

Obviamente, o disco debitado por Nova Iorque continuava a ser uma forte inspiração para muitos dos jovens produtores que começaram a experimentar com a tecnologia e a colocar em vinil ou em cassete o resultado da sua procura, mas em meados dos anos 80 uma série de novos valores emergiram. E mais do que a música, era o som que ouviam debitado nos gigantescos sistemas de som dos clubes que frequentavam que eles procuravam referenciar nas suas obras. Mais do que o disco, era uma entidade mais abstracta, transfigurada em puro ritmo, que procuravam traduzir para os temas que construíam de forma exploratória em estúdio. Larry Heard e Marshall Jefferson eram dois desses produtores, apostados em limitar ao máximo o número de informação em cada faixa, em despir a música até aos seus elementos essenciais.

Entre 1984 e 1985, Marshall Jefferson produziu uma série de temas absolutamente revolucionários pois pareciam apontar exclusivamente para o futuro, sem referenciar o passado. Temas como “Go Wild Rhythm Track” (creditado a Virgo) e “I’ve Lost Control” (assinada por Sleezy D) colocaram Marshall Jefferson na vanguarda da produção. “I’ve Lost Control”, por exemplo, é uma sinfonia ao abandono na pista de dança dominada por um incessante e poderoso ritmo repetitivo sobre o qual evolui uma curtíssima frase da TB-303. Já “Go Wild Rhythm Track”, na sua toada quase electro, é dominada por um clap em overdrive e uma série de ruídos espaciais em cima. O resultado final em ambas é semelhante: alienação rítmica pura!

 


 

 


O mesmo apelo da tecnologia foi sentido por Larry Heard quando percebeu que tocar com outros músicos em bandas locais não lhe enchia as medidas. O tema “Beyond the Clouds”, por exemplo, exibe as suas intenções de transcendência logo no título. Com a ajuda de um sintetizador Jupiter 6 da Roland, Heard mostrava-se mais contido do que Jefferson, mas o seu propósito era semelhante – alcançar o espaço sideral interior através de uma música ritmicamente obsessiva e circular. Tal como o hip hop retirou do funk a libertação orgásmica do break, estes produtores também herdaram algo do disco – nomeadamente a intenção rítmica, o apelo da dança, a libertação das palavras de um sentido poético. Algo que o techno de Detroit liderado por gente como Juan Atkins procurava igualmente fazer, depositando na tecnologia todas as energias que permitiam ao produtor ser maestro e executante, músico e compositor, arranjador e técnico de estúdio. Os discos de Detroit deixaram igualmente uma marca em Chicago, nomeadamente no trabalho de um produtor como Larry Heard. É que desde 1985 que Atkins, como Model 500, explorava já o futuro em temas como “No UFOs” (exploração essa que, pode dizer-se, já vinha a ser anunciada desde os tempos dos Cybotron que lançaram em “Clear” sementes que os anos seguintes haveriam de reconhecer como techno).

Em Inglaterra, a sonoridade house também já tinha tomado conta de alguns clubes, como o lendário Haçienda de Manchester onde Mike Pickering era um dos DJs de serviço. E foi exactamente Pickering que ajudou a criar o primeiro hit britânico do género, “Cariño” de T-Coy. Entretanto, outros grupos como os Beatmasters ou os M/A/R/R/S deixavam a sua marca neste ano de 1987. Sobretudo os M/A/R/R/S, projecto de estúdio de músicos oriundos da zona do pop-rock independente, que viram o seu disco Pump Up The Volume chegar a número um do top britânico preparando assim o caminho para a explosão absoluta de 1988.

 

https://www.youtube.com/watch?v=LsL6W7Y5NFU

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu