House: A História III

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A terceira parte da publicação periódica no Rimas e Batidas dos capítulos do livro “House – A História” assinado por Rui Miguel Abreu e editado em 2006.

Revejam todos os capítulos da série aqui.

 


 

[DISCO 2: DO IT ‘TIL YOU’RE SATISFIED]

Ulf Poschardt, no seu livro “DJ Culture” (5), relembra uma entrevista de David Toop com Tom Moulton, um dos mais importantes nomes da época disco sound e o responsável pela “invenção” do mais importante recurso dos DJs – o maxi de vinil de doze polegadas.

Eu ia a algumas discotecas naquele tempo e a maneira das pessoas se relacionarem com a música chamou-me a atenção. Não era exactamente como eu esperava. Reparei como as pessoas estavam totalmente embrenhadas na música lá para o fim de um disco e subitamente isso perdia-se por alguma razão. Então começava outro disco ou dois discos eram tocados ao mesmo tempo. Meu Deus, pensei eu, se as pessoas podem ser assim desligadas da música então deve haver uma maneira de pegar nelas naquele ponto alto do fim de um disco e mantê-las lá e elevá-las para um nível superior.” A visão de Moulton garantiu-lhe imenso trabalho assim que as editoras perceberam que o marketing dirigido para os clubes garantia resultados praticamente imediatos. Na verdade, um logo com as palavras “A Tom Moulton Mix” passou a ser comum nas contracapas dos discos – uma mistura de Moulton parecia ser o preço para a credibilidade instantânea. As primeiras “remisturas” (na verdade, seria mais correcto definir o que Moulton fazia como “re-edits(6)) de Tom Moulton apareceram em 1972 para os Trammps (os mesmos do clássico “Disco Inferno” da banda sonora de “Saturday Night Fever”), mas foi com a sua versão para “Do It ‘Til You’re Satisfied” dos B.T. Express em 1974 que alcançou mais notoriedade. Reza a lenda (7) que o grupo odiou a transformação operada por Moulton que expandiu o tema de uns inofensivos três minutos para cinco minutos e 35 segundos de pura pressão rítmica. Algo deveria, no entanto, estar certo com o trabalho de Moulton pois o tema chegou ao número um da tabela de R&B da Billboard. O remisturador recorda a pedido de Bill Brewster um episódio curioso passado com os B.T. Express: Quando foram ao programa Soul Train e Don Cornelius os questionou sobre a duração do tema, eles responderam que simplesmente o tinham gravado assim. Fiquei furioso!”

 


https://www.youtube.com/watch?v=czMVnOD5GU8

 


Estas “remisturas” que Moulton e também Walter Gibbons produziam para algumas editoras independentes mais sintonizadas com a vibração dos clubes eram normalmente encaixadas nos lados B de singles de sete polegadas usados depois para promoção nas rádios e nos clubes. A palavra de novo a Bill Brewster e Tom Moulton (8): Quando eventualmente chegou, o doze polegadas já era uma necessidade, embora as pessoas não o soubessem ainda. E tudo aconteceu por acidente. Muitas coisas boas são criadas dessa maneira”, refere ironicamente Moulton. “É um erro, algo negativo que se transforma numa coisa positiva.” Moulton pediu ao seu engenheiro de som José Rodriguez um disco de referência de I’ll Be Holding On de Al Downing. Ele já não tinha acetatos virgens de sete polegadas e por isso “teve que me dar um de doze”, prossegue Moulton. “Eu disse, oh isso é ridículo’. O engenheiro respondeu: ‘já sei o que vamos fazer, espalho mais as espiras e o som fica mais alto’. Claro que quando ouvi o resultado final, quase morri.”

 


 


O single de doze polegadas era o formato perfeito para as discotecas que durante a década de 70 começaram a povoar a paisagem e o imaginário americanos (eram mais de dez mil no final da década!). Com capacidade para ter até 15 minutos de música impressa de cada lado e com espaço suficiente para dilatar as espiras de modo a tornar os graves bem presentes, o maxi transformou-se muito rapidamente no formato de eleição de DJs, produtores e promotores que sabiam ser essa a ferramenta ideal para transformar discos comuns em êxitos tremendos, caso as pistas de dança os aceitassem. E com os frequentadores de clubes a cifrarem-se na ordem das dezenas de milhar, perfeitamente sintonizados com o que os DJs debitavam a partir das suas cabines através de poderosos sistemas de som, esse era um mercado que as editoras já não podiam ignorar. Vince Aletti, jornalista da Rolling Stone que ganhou notoriedade por ter sido o primeiro a abordar o fenómeno disco na imprensa em 1973, recorda em entrevista com Bill Brewster (9) que aquela prestigiada revista aceitou publicar os seus artigos precisamente por estar intrigada com o sucesso nacional de Soul Makossa de Manu Dibango, um disco que viu as vendas dispararem depois dos DJs de Nova Iorque o terem começado a tocar incessantemente nos clubes. Esta era uma força que não podia ser ignorada muito mais tempo. Depois de Moulton ter descoberto o caminho a seguir, em 1975 a edição em doze polegadas de Ten Percent dos Double Exposure (na editora Salsoul) abriu as portas a um formato que ainda hoje resiste teimosamente como o veículo ideal da música dirigida aos DJs e aos clubes. A era moderna da música de dança tinha nascido e com ela uma série de recursos que haveriam de mudar para sempre a face da indústria musical. Como, por exemplo, a remistura.

 


 


O responsável pela versão longa de “Ten Percent” dos Double Exposure foi um DJ de nome Walter Gibbons, na época residente num clube chamado Galaxy 21 (onde um jovem de nome François Kevorkian deu início à sua carreira tocando bateria por cima dos discos escolhidos pelos DJs). Gibbons construiu uma reputação lendária graças à sua capacidade de identificar os excertos dos discos que causavam mais impacto numa pista de dança para depois os usar em re-edits privados que lhe reforçavam o estatuto: “eu pensava que era o melhor DJ do mundo até ter ouvido Walter Gibbons tocar”, disse, em 1983, Jellybean Benitez (10). Quando Ken Cayre, director da Salsoul, ouviu Walter Gibbons a transformar ao vivo o tema “Ten Percent” usando duas cópias do single promocional pediu-lhe que fizesse o mesmo em estúdio. O re-edit resultante dessa sessão foi impresso no primeiro maxi distribuído comercialmente. A relação das editoras com os DJs e dos DJs com o seu público foi profundamente alterada a partir desse momento. O maxi single de doze polegadas era o formato de eleição do disco e, sobretudo, uma espécie de monumento da indústria ao papel que o DJ tinha no processo de conquista do público que povoava a pista de dança.

Gibbons assinou mais uma série de remisturas para a Salsoul, nomeadamente para o clássico Hit and Run de Loleatta Holloway, supostamente o primeiro tema de sempre disponibilizado pista a pista a um remisturador. Mas no final da década de 70, Gibbons parece ter resolvido lidar com as questões da sua sexualidade (ele era gay) através da religião o que lhe causou severos problemas – de repente começou a recusar trabalho porque não se identificava com o conteúdo das letras das canções que lhe pediam para remisturar. O seu trabalho como DJ foi igualmente afectado pelas mesmas razões o que levou a que a travessia da década de 80 fosse longa e solitária. Gibbons faleceu em 1994, vítima de SIDA. A lenda, claro, perdura.

 

 


[NOTAS]

5 – “DJ Culture” (ed. Rogner & Bernhard, 1995). Poschardt cita “Lost in Music” de David Toop, um artigo em que abordou a figura de Tom Moulton.

6 – A diferença entre re-edit e remistura é simples: o remisturador tem acesso às pistas separadas de um tema, ao master portanto, e usa apenas as que lhe interessam; o autor de um re-edit usa a canção tal como é impressa num disco, com a mistura final, não tendo acesso aos elementos separados do tema.

7 – Esta história ou “lenda” é citada por Bill Brewster num artigo comemorativo dos 30 anos da Salsoul publicado no número 312 da revista Record Collector, em Julho de 2005.

8 – Ainda do mesmo artigo do número 312 da revista Record Collector.

9 – Entrevista disponível no site www.djhistory.com.

10 – Declaração de Jellybean Benitez à revista Collusion, em 1983, citada por Bill Brewster no artigo sobre os 30 anos da Salsoul, publicado na revista Record Collector.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu