House: A História II

[FOTO] Ricardo Miguel Vieira

 

A segunda parte da publicação periódica no Rimas e Batidas dos capítulos do livro “House – A História” assinado por Rui Miguel Abreu e editado em 2006.
Revejam todos os capítulos da série aqui.

 


 

[DISCO: A DILATAÇÃO DO GROOVE]

O regresso do Vietname, a popularização das drogas, o legado de amor livre da geração de 60 e, sobretudo, as conquistas ao nível da liberdade individual conseguidas no contexto do Civil Rights Movement deixaram marcas sérias na década seguinte. A paisagem urbana dos anos 70 começou a ser povoada por clubes e os clubes necessitavam, obviamente, de DJ’s. No livro “Last Night a DJ Saved My Life(4), Bill Brewster e Frank Broughton argumentam que o nova-iorquino Francis Grasso foi o primeiro DJ moderno. Grasso alcançou popularidade na primeira metade dos anos 70 e revelou capacidades que hoje são fundamentais para qualquer DJ – a mistura, claro, mas igualmente a sequenciação inteligente de discos capaz de transformar uma noite numa viagem ou numa narrativa que cativava a atenção dos dançarinos na pista de dança. Grasso teve, obviamente, visão, mas também foi – como tantas vezes acontece na História – o homem certo no lugar certo. O DJ no centro da revolução.

A partir do quartel-general da Motown, Norman Whitfield começou a ensaiar experiências que se haveriam de revelar revolucionárias. Whitfield ofereceu ao mundo uma versão muito curiosa do psicadelismo que passava, essencialmente, pela gestão rigorosa da banda residente dos estúdios da Motown (os míticos Funk Brothers), como se os seus arranjos fossem ordens dadas num sequenciador a vários teclados escravizados pelo poder do MIDI. Em “Automating The Beat”, Peter Shapiro citou uma frase do teórico Walter Hughes que indicava que o disco era uma forma de disciplina. Já antes, James Brown tinha angariado alguma notoriedade negativa por multar os músicos que, em concerto ou em estúdio, falhavam o ritmo que Stubblefield tinha que manter com precisão metronómica. O disco, de certa forma, representou o culminar dessa vertigem da precisão e repetição. O psicadelismo em Whitfield vinha então da dilatação no tempo do groove, do rigor hipnótico do ritmo e dos efeitos que mantinham os temas na estratosfera.

 


 


Em 1972, mais ou menos ao mesmo tempo que Whitfield ensaiava o futuro som do disco com “Girl You Need a Change of Mind” de Eddie Kendricks, em Filadélfia a dupla Kenneth Gamble & Leon Huff usava o álbum “360 Degrees” de Billy Paul para transformar o futuro. Para muitos, a versão de Paul para “Your Song” de Elton John representa o momento zero do disco sound nos seus seis minutos e meio de glória sofisticadamente sincopada. Na ficha técnica deste álbum há dois dados importantes: o disco foi gravado nos míticos estúdios da Sigma Sound e Vince Montana era um dos músicos de serviço. Na verdade a Philadelphia International Records (PIR) de Gamble & Huff foi moldada directamente a partir do exemplo da Motown até ao pormenor de ter uma banda residente para conferir aos diversos lançamentos uma identidade estética muito forte. A banda em questão, que haveria de gravar em nome próprio, respondia pela sigla MFSB (Mother Father Sister Brother) e era uma versão mais actualizada do colectivo Funk Cliff Nobles & Co que em 1967 obteve um enorme sucesso com o instrumental “The Horse”. O líder dos MFSB era, claro, Vince Montana, vibrafonista e arranjador de eleição.


https://www.youtube.com/watch?v=bsbO5NnuBlQ

 


Ainda em 1972, a dupla Gamble & Huff refinou as suas propostas no clássico “Back Stabbers” dos grandes O’Jays (os rivais de Filadélfia dos Temptations, claro…) e ao mesmo tempo que aprofundava o papel da secção rítmica media o pulso à nova década num hino feito de paranóia e auto afirmação. Em resposta, Whitfield editou em 1973 o épico “Law of the Land” dos Temptations (incluído no álbum Masterpieces). Apesar de não ser o mais longo tema do álbum (o tema título tem fôlego para chegar aos 13 minutos!), “Law of the Land” parece um esquema detalhado para muitos dos temas de disco orquestral que se seguiriam, com um crescendo sublinhado pela secção de cordas, quebras, breaks rítmicos e outros recursos de orquestração que rapidamente se tornariam comuns.


https://www.youtube.com/watch?v=Jcxz3jdSV3Q

 


De certa maneira, nesta época, os avanços protagonizados no estúdio pelos produtores e nos clubes pelos DJs complementaram-se. O ritmo puro e fluído era uma utopia construída noite após noite nos clubes. Produtores como Norman Whitfield e a dupla Gamble & Huff estavam, obviamente, cientes dessa actividade e o que ouviam nos clubes começou a afectar as suas produções que começaram a ter em conta a própria dinâmica das pistas de dança e os requisitos dos sistemas de som dos clubes. A secção rítmica ganhou ainda maior protagonismo.


[NOTAS]

4 – “Last Night A Dj Saved My Life” (ed. Headline, 1999). Francis Grasso é apresentado como o primeiro DJ moderno a partir da página 141.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu