Há 114 fábricas de vinil em funcionamento em todo o mundo…

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

O site brasileiro Universo do Vinil publicou recentemente um artigo em que dá conta do crescimento do número de fábricas de discos de vinil a operar em todo o mundo. São hoje, ao todo, 114, número extraordinário tendo em conta que há apenas três anos eram cerca de meia centena.

O Universo do Vinil explica que até 2016 todas as fábricas existentes dependiam da manutenção de tecnologia com décadas. De facto, as poucas novas fábricas abertas ou reabertas durante este milénio dependiam de maquinaria vintage recuperada, entre prensas e as preciosas máquinas de corte de acetato que produzem as matrizes a partir das quais se consegue o negativo que permite prensar as cópias em vinil que depois são distribuídas para o público.

A última fábrica nacional, da Valentim de Carvalho, deixou de operar em inícios dos anos 90 do século passado e hoje só parte da prensa se encontra, como motivo de decoração, na recepção dos escritórios da empresa, em Paço de Arcos, que ocupam, precisamente, o antigo edifício, contíguo aos estúdios, onde em tempos se prensou vinil. Explica-nos Francisco Vasconcelos, administrador da companhia, que a última máquina de corte, “uma Neumann”, foi vendida em meados dos anos 90 para Inglaterra, com outra, “mais antiga”, a ter sido negociada para Angola, em 1989, factos que atestam o cenário descrito pelo Universo do Vinil e que até recentemente imperou na indústria global de manufactura de discos de vinil. O popular programa de televisão Big Show Sic, revela ainda Francisco Vasconcelos, começou a ser gravado em Março de 1995 no estúdio que passou precisamente a ocupar a antiga sala das prensas no edifício da fábrica.

Os Estados Unidos lideram a lista de países que ainda dispõem de fábricas do mais popular suporte analógico de música, com 37 complexos. Segue-se a Alemanha, com 12. Há, neste momento, 17 países europeus com fábricas operacionais, com a França, Inglaterra, Itália ou Espanha a figurarem na lista ao lado da já referida Alemanha. Curiosamente, tendo em conta a explosão de interesse global em torno da música africana, não existe actualmente nenhuma fábrica funcional em África.

O Universo do Vinil refere que o aumento de mais de 100 por cento no número de complexos industriais de vinil nos últimos três anos se deve à chegada ao mercado internacional de nova maquinaria e tecnologia que dispensa os mais avultados investimentos de recuperação de prensas e outras máquinas das décadas de 70 ou 80, como sucedia na maior parte das fábricas em funcionamento até 2016. Manter fábricas operacionais, até essa altura, implicava dedicada e extremamente dispendiosa manutenção de maquinaria que já não se fabricava há décadas com um número muito reduzido de engenheiros e mecânicos em todo o mundo a ter as capacidades necessárias para intervenção e recuperação desses aparelhos.

Mas o cenário alterou-se radicalmente nestes últimos anos. A alemã Newbilt Machinery oferece uma linha completa de máquinas de prensagem construída segundo padrões actuais. A canadiana Viryl Technologies também colocou no mercado a linha Warmtone pensada, precisamente, para equipar modernos empreendimentos que procurem fazer face ao crescimento generalizado do mercado do vinil. As preciosas máquinas de corte – “lathe machines”, em inglês… – são ainda mais delicadas peças de engenharia que já poucos especialistas conseguem manter no mundo, como indicava recentemente o site Vinyl Factory. Mas também aí há uma revolução em marcha, com múltiplos projectos a serem desenvolvidos para suprimir essa escassez.



Com a aproximação de mais uma edição do Record Store Day — evento de proporções internacionais que nasceu com a intenção de celebrar a loja de discos numa época em que a sua existência se encontrava ameaçada, mas que entretanto evoluiu para um verdadeiro festim de novas edições em vinil em que participam tanto editoras de pequenas dimensões como as todas-poderosas majors — a realidade da expansão do mercado do vinil volta à ordem do dia.

Não seria de espantar que o número de 114 fábricas a operar em todo o planeta pudesse crescer nos próximos anos, agora que a existência de fornecedores modernos da tecnologia necessária ao fabrico é uma realidade dos dois lados do Atlântico.

Em Portugal este mercado também cresceu e, como Eduardo Morais recentemente deu conta aqui no Rimas e Batidas na sua resenha da história das lojas de discos na capital, até se tem assistido à criação de novos espaços de comércio de vinil. Mas todas as editoras que lançam trabalhos nesse formato – e são cada vez mais, desde as majors como a Sony (Capitão Fausto, Dead Combo), Universal (Boss AC, Sérgio Godinho, Valas), Warner (Madredeus) até às operações médias como a já referida Valentim de Carvalho (lançou recentemente neste formato a discografia de Samuel Úria, por exemplo) ou mais microscópicas como a Holozam (Telectu, Dwart), Groovie Records (Tony e Frankye, Les Grys-Grys, Rolando Bruno e Grupo Arevalo), ou Príncipe (Nídia, Niagara…) — são forçadas a importar o seu produto tendo em conta que não existe actualmente nenhuma fábrica activa no nosso país.

Na Península Ibérica existem duas fábricas operacionais, a Krakatoa e a Press Play. A primeira já opera no mercado do país vizinho há vários anos, mas a Press Play é um bom exemplo da recente explosão de fábricas, estando aberta e em funcionamento há apenas alguns meses, de acordo com informações fornecidas pela etiqueta espanhola Munster Records. Ambas têm, ainda de acordo com as consultas que efectuámos, sólidas reputações e ambas estão também muito ligadas ao mercado independente espanhol, que é bastante saudável. São, no entanto, operações de média ou pequena dimensão com capacidades de produção limitadas, facto que obriga muitos editores ibéricos a recorrerem a fornecedores mais longínquos, como a GZ na República Checa ou a Record Industry na Holanda, capazes de garantir prazos de entrega de produto mais céleres.

Edgar Raposo, bastante activo neste mercado tanto como editor quanto como lojista através da sua Groovie Records, explica que o panorama está mais competitivo. “As fábricas grandes são mais rápidas, mais eficientes e de qualidade superior. Pelo menos até ao momento, pois existem agora fornecedores de prensas industriais que possibilitam montares uma unidade de prensagem competitiva e tão boa como uma GZ. Como aconteceu com o Jack White”, explica-nos, referindo-se à fábrica que o patrão da Third Man abriu. “Mesmo que seja uma unidade pequena, com capacidade de prensar 5.000 discos ao dia, a tecnologia usada neste momento é mais pratica e mais rápida, melhor”. E se isso ajuda a explicar o aumento exponencial do número de fábricas também nos pode levar a especular sobre a eventual abertura de alguma destas unidades fabris no nosso país até porque, como sugere Edgar Raposo, “pelo preço de um T2 em Lisboa montas uma fábrica ‘chave na mão’.

Francisco Vasconcelos, no entanto, é mais céptico e explica que “o mercado português passou de inexistente a apenas muito reduzido” deixando claro que duvida “que se justifique uma fábrica no extremo sudoeste da Europa”. E elabora: “Relativamente à nova tecnologia não me parece que seja tão fácil de implementar como isso. Na base das máquinas está a estrutura desenvolvida pela Toolex Alpha, que é a mesma das nossas últimas prensas. A grande novidade parece ser a menor dimensão dos compressores, o que permitirá uma implantação da fábrica numa área mais reduzida que as primitivas. E um software que garante um melhor controle de temperatura, que pode ser benéfico para a qualidade do produto final. A capacidade de produção por prensa é igual à das prensas antigas. Com base nestes elementos não me parece que a inovação tecnológica possa ter reflexos assinaláveis no custo dos discos e não poria o meu dinheiro neste investimento. O vinil vai manter-se mas não irá crescer muito mais, será um nicho de mercado, que vai funcionar como merchandising mas não voltará a ser o veiculo principal de escuta de música. O digital já é o futuro há muito tempo e não vai beliscado pelo vinil”. Uma importante questão que o futuro próximo permitirá, certamente, esclarecer. Seja como for, não será difícil prever que no final do corrente ano será quase certo que o número avançado pelo Universo do Vinil crescerá, com ou sem a adição de Portugal ao mapa global das fábricas de vinil.

A lista de fábricas em todo o mundo levantada pelo Universo do Vinil:

América do Norte (México, EUA e Canadá)

Canadá – 7

Microforum Vinyl
Precision Record Pressing
Kaneshii Vinyl
Train Records
Moonshot Phonographs Inc.
Canadian Vinyl Records Inc
Clampdown Record Pressing Inc.

EUA – 37

Alpha Vinyl Record Pressing
A to Z Media
Archer Record Pressing
Brooklyn Vinyl Works
Blues Procket Pressing
Brooklyn Phono
Burlington Record Plant
Cascade Record Pressing
Capsule Labs
Crystal Clear CD
Disc Makers
Erika Records
Furnace Record Pressing
Gold Rush Vinyl
Gotta Groove Records
Groove House
Hand Drawn Pressing
Independent Record Pressing (IRP)
Josey Record MFG
Kindercore Vinyl
Lakeshore
Memphis Record Pressing
Musicol Recording
Noiseland Industries
New Orleans Record Press
Pallas USA
Palomino records
Pirates Press
Quality Record Pressings (QRP)Rainbo Records
RTI
Second Line Vinyl
Smashed Plastic Record PressingSofwax
Stereodisk
Sunpress Vinyl
Third Man RecordUnited Record Pressing
Vinyl Record Pressing LLC

México – 2
Vinyles Mexico
Rey Vinilo

[América do Sul]

Argentina – 2
Laser Disc
Hamilton Records

Brasil – 2
Polysom
Vinil Brasil

Chile – 1
Libre Records

[América Central]

Jamaica – 1
Tuff Gong

[Ásia]

China – 5
Guangzhou Yong Tong A&V Manufacture Ltd
China Record Corp
Pacific Audio Video e Co.
China Etech Co.,Limited
Yongtong-V

Coreia do Sul – 2
Machang Music & Pictures
Golden Noise

Hong Kong – 1
PrimeDisc International Ltd.

Japão – 2
Toyo Kasei
Sony DADC Japan

Taiwan – 2
Mobineko Audio Research
Deep Sound Inc.

Vietname – 1
Audiophile’s Only

[Europa]

Alemanha – 12
Intakt 
Modern Vinyl Pressing
Pallas GroupOptimal Media
MY45
Master Media Productions
Ameise

R.A.N.D. MUZIK
Celebrate Records
VRS – Vinyl-Record-Service
Flight 13
Handle with Care Manufacturing

Áustria – 2
Austrovinyl
Takt Direct

Bélgica – 1
Discomat

Dinamarca – 2
Nordsø Records
RPM Records

Espanha – 2
Krakatoa Records
Press Play Vinyl

Estónia – 1
Vinyl Plant LLC

França – 6
Records Press Manufacture
M Com Musique
MPO
SNA Disc
La Manufacture de Vinyles
Vinyl Records Makers

Holanda – 2
Record Industry
Deepgrooves

Irlanda – 2
Lunel Media
Dublin Vinyl

Itália – 3
Phono Press
Europress
Vinilificio

Letónia – 1
Semikols Record Pressing

Noruega – 1
Coastal Town Records AS

Polónia – 2
WMfono
Kuroneko Phonogram Manufacture

Reino Unido – 6
Disc Wizards
The Vinyl Factory
Invada
Vinyl Presents
Key Production
Sound Performance

Rússia – 1
Ультра Продакшн

República Checa – 1
GZ Media

Sérvia – 1
SoulPeddler GmbH

Suécia – 1
Tail Records Vinyl (fechou)
Spinroad Vinyl Factory

[Oceânia]

Austrália – 2
Zenith Records
Implant Media


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu