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Fotografia: Inês Sofia Pereira

Um novo dia, as mesmas coordenadas.

FMM Sines’19 – 25 de Julho: bem-vindos à sala de estar dos KOKOROKO

Fotografia: Inês Sofia Pereira

Ontem, quando qualificámos a nova expressão do The Guardian — “global music” — para a infame e datada world music, talvez não devêssemos ter usado a palavra “peculiar”. “Estranho”, neste caso, parece uma escolha mais sã e poderá resultar melhor no futuro. Ou… então, não, porque são sinónimos exactos, e se o objectivo é a compreensão, o problema estará em algo interno e não numa palavra e seu sucedâneo.

Para quê tapar o sol com a peneira? Amella Omayeli Ideh acerta na mouche: “Chamar-lhe música global porque ‘a música marginalizada ainda precisa de ser apoiada e sinalizada no Ocidente’ é ridículo. Ao colocarem artistas nesta categoria, vocês estão a marginalizá-los”. A roupagem é transparente e não deixa de mostrar que o rei vai mesmo nu: do mundo ao globo, a gigante escala do sufoco é a mesma.

Enquanto o debate recebe novas contribuições e posições no ciberespaço, Sines respira. A cidade bronzeia-se, dança e cheira o rosmaninho dentro das muralhas que albergam o FMM, que se vive muito mais sentado no chão, transformando o empecilho dos molhos de ervas em bancos improvisados. Mas não deixamos de pensar.

Neste segundo dia, a nossa estação espacial faz-nos saltitar de mundo experimental em mundo fervilhante, e também de lugar incomensurável em lugar-comum. Passando rapidamente pela efusiva actuação dos Gipsy Kings, os ícones da rumba flamenca, entrosamo-nos no paradigma original da world music — conceito que o grupo define como “uma expressão universal sem significado, um atalho de marketing”, ao passo que reconhece ter sido instrumental na sua promoção e justificando “fazer música que passa todas as fronteiras”. É uma faca de dois gumes, mas talvez não caiba aos antigos enterrarem a adaga. São eles que sugerem o único resquício conservador no FMM, numa noite que será daqueles cujo coração pertence ao mundo e cuja música é um reflexo vital.

A plateia de Branko, abonado pelo êxito de um Nosso que também é deles, é impenetrável desde o intervalo anterior. Na sua crítica para o Rimas e Batidas, Manuel Rodrigues diz que o disco “traça a actualidade lisboeta convidando maioritariamente músicos internacionais” — o Cais do Sodré, em hora crepuscular, contado por enviados especiais de Paris ou do Rio de Janeiro. Isto é eminente nesta actuação dividida entre DJ e live set com convidados, ainda encostada à prática de um Atlas impactante, apoiada na sequenciação perfeita de vídeo e música, e a empatia sorridente de um Branko nas suas sete quintas.

A qualidade no manuseamento e na produção supre qualquer debilidade de composição musical, e haverá destaques em “On Top”, “Agua Con Sal” ou “Reserva Pra Dois” (se bem que não se pode comparar ao mimo que foi a sua estreia ao vivo, com presença de Mayra Andrade, no Mexefest de 2016) — e ainda na cortesia de Orlando Pantera e Lura que é “Na Ri Na”. Reputado pela sua energia incomensurável em palco, Pierre Kwenders amaina as coisas para suplementar Branko; vem adornado com um macacão vermelho e entra fluidamente para apresentar “Amours d’Été”.

Maior intempérie causará um repetente no palco: “Ouvi dizer que ele deu um concerto do caralho aqui ontem”, atira Branko, segundos antes de (redundantemente) pedir a ovação para Dino D’Santiago. É o segundo dia consecutivo em que ouvimos “Tudo Certo” e a energia conservou-se estável, desde o concerto que propiciou ao governador da “Nova Lisboa” “um dos momentos mais felizes da minha vida”. Transferem palavras de apreço um pelo outro: D’Santiago é “o messias desta merda toda”, Branko “alguém que tem levado a nossa cultura” a viajar “com muito fervor”. O consenso é de que, “por muito que gostemos de ir lá fora”, a recepção nacional é imbatível. O mundo também passa por aqui.

Disso têm a certeza os KOKOROKO, mas mais dúbias são as coordenadas específicas. “É a nossa primeira vez aqui no Brasil”, proclama a entusiástica líder e trompetista Sheila Maurice-Grey, antes de se corrigir num brusco trago de ar. “Queria dizer Portugal!” O faux pas (talvez do jet lag?) poderia ser fatal noutra hora e local, mas não interessa muito às relaxadíssimas gentes de Sines, muito menos à expansiva Maurice-Grey que tudo dissolve num riso histriónico.

Na sua estreia em palcos lusos, apresenta copiosamente a saxofonista Cassie Kinoshi e a trombonista Richie SeivWright, com quem se enquadra na fileira da frente, um trio de luxo que imortaliza uma imagem forte: a das mulheres no comando instrumental. Isto dentro de um ensemble mais extenso e igualmente rico, com Mutale Chashi no baixo, Oscar Jerome na guitarra, Yohan Kebede nos teclados, Onome Ighamre na percussão e Ayo Salawu na bateria.

No sangue de cada membro, parecem correr laivos de algo gloriosamente impuro e luminoso. Gingam e sopram e mexem o seu caprichoso preparado de sons e memórias, em que, dizia Rui Miguel Abreu, “o afrobeat é apenas moldura para um retrato que se quer diferente”. O inesperado êxito viral de “Abusey Junction” é reproduzido a meio do concerto, depois de uma “Colonial Mentality” em jeito de homenagem ao mestre Fela Kuti — a líder do grupo solta um ámen ao perceber que a genuflexão também se faz no público.

A reverência principal da noite faz-se, contudo, à promessa consumada dos KOKOROKO. Depois do bem-comportado brilharete de Nubya Garcia, o grupo oferece outro ponto de fuga para o lustroso caleidoscópio do novo jazz britânico — um lastro bem saliente no cartaz deste FMM. Há aqui, concretamente na derradeira “Adwa” e numa versão dos seus precursores Antibalas (que visitarão também este recinto), um swing abrasador que tão rápido faz uma escalada até ao máximo do sopro e percussão, como se remete à vibração de “Gyae Su”, um original de Pat Thomas & Kwashibu Area Band. E se a próxima noite alinhará artistas mais experientes, os KOKOROKO não têm nada de iniciante no seu talento


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