FMM Sines’19 – 24 de Julho: do groove apurado de Nubya Garcia ao Club Funaná de Dino D’Santiago

[TEXTO] Pedro João Santos [FOTOS] Inês Sofia Pereira

Na introdução do seu colaborador Ammar Kalia, o diário britânico The Guardian serviu-se de uma expressão peculiar: “crítico de música global”.

Por outras palavras: o cargo cimeiro na secção que tipicamente designaríamos de world music — a música do mundo — a pegajosa etiqueta que o Ocidente atribui a toda a música de veio ancestral, polirrítmica, africana, maquinal, tribal, orgânica, delicada, hermética, fadística… A lista prolonga-se, sem um resquício de nexo contínuo, mas teríamos de ser cínicos para ignorar a transparência da “lógica”: estes são os sons incompatíveis com as caixas do Ocidente, definidos pelo Ocidente em função dessa resistência.  A tradição remonta a 1987, quando proprietários de lojas de discos se reuniram em Londres para perceber como vender uma arte exógena, complicada. O consenso produziu um rótulo (para nós que tanto gostamos de rótulos) e que, ironicamente, na sua acção redutora, deu uma plataforma de lucro — facilmente acessível  e uma lancha para a rápida travessia do… mundo. E se, em 2019, percebemos o que a ideia de uma categoria faz pela simplificação, pelo achatamento e pela guetização, continua a ser difícil contornar o seu poder estratégico.

Tal como o espaço de CD e vinil sob essa égide é uma constante nas lojas de discos, o Festival Músicas do Mundo reverbera ano após ano pelo Castelo e pelas artérias da cidade de Sines. Aqui, o peso infeliz da expressão é quase subvertido, dissolvendo-se na surpresa permanente e no dinamismo que transcende a categoria — e, deixando cair o holofote sobre autores de obras diversas, vozes divergentes, com projecção diferente, questiona radicalmente o princípio de fundir estas obras. O que é a “música do mundo” quando lhe vemos a cara, e é tão fragmentada e deliciosa? Em Sines, não encontramos respostas para os nossos dilemas, mas dançamo-los com afinco.

O sol repousa na rota pedestre do hotel até ao Castelo: ilumina o compósito de pele e suor, toalhas e motivos étnicos, pés descalços e vestes com aberturas generosas… A vista da praça adjacente convida ao mar e ao areal (também haverá tempo para tal). Autorizadas pelas cancelas, as gentes já confluem para o FMM — onde violinos, guitarras, coro e dançarinos vestem a camisola performática do Ethno Portugal. Dentro das muralhas, um crisol de olhares curiosos e despreocupação absoluta (sem a mancha de pessoal cirrótico), o aroma do rosmaninho e ervas várias.



Acinzenta-se o céu para vermos o dardo cair sobre a Bélgica e o seu avant-pop mais atmosférico. Os começos artísticos de Melanie De Biasio remetem para a dança clássica e a flauta, mas é o segundo elemento o único que realmente desponta na sua performance enquanto cantora. Com dois anos de vida, Lilies é o seu disco mais notável, monopolizando o alinhamento do concerto que ganha vida num início de noite tranquilo, perante um público a meio gás, sem que isto seja um ataque a alguma das partes.

O par acção-reacção é normal: de touca e indumentária discretas, emolduradas por um lenço de leopardo, de Biasio não zela pela segurança e conforto do espectador. Experimenta e toca, sente, ouve, que ela é do sussurro e do silêncio, e especialmente do tacto — os dedos em remoinho, a flauta sempre perto, o fio do microfone percorrido com paciência. Num minuto, parece encapsular o ritmo nas suas pálpebras fechadas, para imediatamente ser atraiçoada pelo divertimento de um piano sorrateiro. Para ser arrematada pelo pulso subcutâneo do baterista. Não há aviso à navegação, há até vacilações e terrores longos.

“Your Freedom is the End of Me” esbate as diferenças entre sensualidade e angústia. No final, avisa: “Ainda temos cinco minutos, e depois abandonar-vos-emos… e, depois, abandonar-vos-emos…” É, naturalmente, “I’m Gonna Leave You”: incerta na intimidade assoladora e no masoquismo fatal, e tão bem que captura este espectáculo tão viciante de trémulo que é, tão divisivo de difícil que é.

Se a primeira rifa global do Rimas e Batidas nos concedeu um desafio, a hora seguinte é uma aposta tranquilamente ganha. Ao leme, uma senhora mui popular que, entrando agora Sines para o cômputo, já pisou quatro palcos portugueses em 2019 — é este o tipo de relação obsessiva a que não nos negamos, dada a reciprocidade saudável da chama.



Nubya Garcia segue firme na crista da nova onda jazzística de Inglaterra, mas é uma proposição diferente na cena. Mais cortês e educada na sua toada; menos ostensiva no seu conjunto, feito de teclista, baterista e violoncelista, para somar ao seu saxofone. No movimento em que figura o cataclismo instrumental dos Sons of Kemet ou as impuras referências dos KOKOROKO!, a contribuição de Garcia é uma moldura fervente de sofisticação; a estratosfera (instrumental) em ligação à terra. Ficou em disco como Nubya’s 5ve, que tão elegantemente se transpõe para o palco, a partir do qual Garcia visiona com orgulho o movimento e a paixão da sua banda.

Após uma admiração de segundos aos colegas, Garcia deslinda todo o seu poderio nos comandos do saxofone: a âncora a que todos os modos e flutuações regressam, encabeçando a montra a que a jocosa Garcia tira com uma mão, deixando os seus conspiradores mostrarem o que valem a nadarem sozinhos, e devolve com a outra. O portentoso mote de “Lost Kingdoms” é um exemplo, o cabaré vestigial de “Red Sun” é outro — e, em qualquer momento, a banda atira-se com balanço para os braços e as palmas de um público seduzido, a quem uns chuviscos não assustam. “This is the first gig we’ve done in the rain — everything is wet!”, ria-se Garcia, incrédula com a permanência de Sines, ainda mais com a saída brusca que teria de fazer de Portugal, pelas três da manhã. “Isso foi cru!”

Depois de cruzamentos de reggae e neo soul com jazz vitaminado e cheio de classe, o momento de maior crueza vem na penúltima faixa. “Pace”, já ouvida no NOS Primavera Sound, é uma (nova) canção de Londres, “uma das cidades mais ocupadas do mundo”. Arranca com o dedilhar ominoso de um violoncelo que encontra a sua cadência, o seu ritmo. Depois de quatro minutos, a banda une esforços na procura do compasso certo, mas há algo de sombrio e perplexo na base. E é ordeira até o deixar de ser. No final, agradece, sentenciando que “isto significa o mundo para mim”. A “música do mundo” (alegadamente) que encontra noutros, e não na sua própria caixa, o seu significado…



Se ainda conseguirmos balbuciar novas palavras sobre Dino D’Santiago (um nome vincado na história do Rimas e Batidas), devemo-lo às maravilhas em que se continua a desdobrar — não incansável nem divinamente, que ele é humano; se não levasse a mão à testa transpirada, enganar-nos-ia. A sua prestação tem um sabor especial: o de uma meta cumprida. Ao dedicar “Nôs Tradison” a Carlos Seixas, relembra as palavras do director criativo do festival, que lhe disse: “Quando estiveres pronto, vais a Sines”.

Mais uma paragem por um palco — sineense, mas que poderia ser parisiense, ou de Cartagena, de algures na Malásia até outro ponto na Holanda. Mundu Nôbu oficializou Claudino Pereira como cidadão do mundo, pelo que é no mínimo interessante vê-lo como cabeça de cartaz no FMM. E arrumar este álbum absolutamente mastodôntico na caixa do “mundo” (situação literal, já avistada numa popular loja portuguesa…): será alguma justiça oblíqua ou algum grau de miopia?

Vejamos. O que significa este mundo para Dino é por ele balizado sem margem de dúvida: é a sua pátria e as suas raízes — “Sôdade”, versão do clássico de Cesária Évora, é o encerramento da actuação. É o sonho dos emigrantes ouvido em “Bô Eh Sabi”. É a vida dos seus “irmãos”, nunca a “herança de escravos”, mas os “filhos de reis e rainhas”; também o “one love” da Associação Cabo-verdiana de Sines e Santiago do Cacém. Tanto relevo adquire o mundo como compêndio de ritmos tradicionais e adulterados, os que infunde na sua discografia e amplifica ao vivo.

Nesta operação, Mundu Nôbu — com anexos de Eva, como a saudosa “Pensa na Oji”, e “Tudo Certo”, colaboração recente e muito celebrada com Branko — sacrifica alguma da espiritualidade mais estrita, ainda presente na entrega desarmante da faixa-título. Mas não há dança que não seja religião. “Sô Bô” é plenamente suplementada com o novo remix “atarraxado” de PEDRO, um modo que se arrasta para a futura clássica “Nova Lisboa” e a agora mais frenética “Fidju Poilon”; “Nôs Funana” regressa ao BPM original, sem amainar os milhares que seguem a palavra de Dino D’Santiago como ordem na sua discoteca pessoal. Quando desliza da terna, compassada “Como Seria” para a estridente “Apeshit” dos Carters — usando a letra “like Beyoncé and Jay-Z” —, dá-nos a prova de que ele existe verdadeiramente em ambos os mundos. Nos próximos dias por Sines, visitaremos tantos outros.


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