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Fotografia: Duarte Gameiro
Publicado a: 20/05/2026

Contas feitas.

Festival Profound Whatever’26 — dia 3: profundamente maravilhoso

Fotografia: Duarte Gameiro
Publicado a: 20/05/2026

A edição de 2026 do Festival Profound Whatever chegou ao fim no início da madrugada do último domingo, após uma longa maratona de cerca de 12 horas que arrancou logo após um belíssimo almoço (nada como uma boa feijoada antes de enfrentar uma maratona…) na tarde de sábado.

É importante deixar já aqui algumas considerações baseadas na experiência geral do festival, antes da passagem em revista dos concertos que o programa reservou para o derradeiro dia. Embora ainda não se possa falar de equidade no que ao género diz respeito, a verdade é que 7 dos 19 concertos programados (e “só” 18 aconteceram) contavam com mulheres. Elas — Catarina Silva, Margarida Azevedo, Júlia Miranda e Maria da Rocha, Vera Morais, Teresa Costa e Inês Lopes, Mariana Dionísio, Clara Lai e Bárbara Togander — foram uma presença determinante e contribuíram para que este Profound Whatever fosse mais aventureiro, equilibrado e desafiante. Uma boa base para o futuro, certamente.

O espírito familiar e íntimo deste evento, que funciona de portas abertas à comunidade, é, sinceramente, uma lufada de ar fresco num momento em que os festivais, mais do que momentos celebratórios de alguma coisa, se tornaram meros produtos de uma indústria voraz, quase sempre submetidos às agendas estratégicas de poderosas marcas. É ainda um festival com uma fasquia de qualidade na oferta musical invariavelmente alta, o que também é caso raro neste género de festivais mais exploratórios que, exactamente por assumirem uma dose de risco, quase sempre programam alguns artistas ou projectos que acabam por não cumprir expectativas.

O longo programa de sábado teve início no exterior, ao início da tarde, com a performance de Toupeira Guilhotina, um ensemble formado por Bernardo Rocha (voz, trompete e objectos), Gonçalo Alves (bateria), João Clemente (guitarra) e Nuno Jesus (baixo). O grupo tocou peças que foram trabalhadas juntamente com várias crianças de escolas locais, jovens compositores que desta forma foram envolvidos nesta coisa profunda. Tiveram direito a aplauso do público e tudo, quando foram chamados ao palco. E o que tocou o ensemble? Música livre, com apetência pelo ruído e pela atonalidade, com spoken word à mistura e solos rugosos e abrasivos pelo meio. Entre os objectos de que Bernardo Rocha se socorreu contaram-se um rolo de papel higiénico — que foi performativamente desenrolando, aí lendo palavras invisíveis —, enquanto manuseava também uma caixa de fósforos. Papel higiénico e fósforos: boas ferramentas para incendiar o tédio. “Está na hora de contrariar quem domina o sopro”, instou Rocha, antes de acender um fósforo. É bem capaz de ter razão, de facto.

O segundo momento da tarde talvez tenha sido também o mais emotivo de todo o festival. Miguel Calhaz trouxe o seu contrabaixo, a sua voz e um conjunto de canções muito particulares que ali ressoaram de forma especial. Canções da terra e do campo, canções de lugares geograficamente próximos, por vezes com ecos de tempos e culturas distantes, como quando ecoou numa certa melodia pedaços da nossa herança árabe. José Afonso deu-lhe duas das canções da apresentação, incluindo uma inevitável “Maio Maduro Maio” a fechar a sua irrepreensível performance. Uma canção que ali fez pleno sentido, num 16 de Maio solarengo, pontuado também pelo sorriso e presença de várias crianças. Num programa feito sobretudo de música livre, de muita improvisação (embora não só…), ainda há lugar para a canção, essa forma intemporal de comunicar e juntar. Foi muito bonito.



Seguiu-se, no mesmo espaço, Mané Fernandes. Com uma guitarra, um amplificador e uma generosa pedaleira, Mané fez o que só ele sabe fazer: trocou as voltas ao tempo com complexas equações rítmicas que faz sempre soar naturais e até inevitáveis. Confessava ele no final da sua prestação que, apesar de o vermos a dedilhar uma guitarra, na sua cabeça está, na verdade, a tocar bongós. James Brown também acreditava que na sua banda toda a gente deveria tocar bateria, incluindo teclistas, saxofonistas, trompetistas, guitarristas, baixistas e qualquer outro músico que consigo subisse ao palco ou entrasse em estúdio. A música de Mané Fernandes não se assemelha, aparentemente, à do homem de “Funky Drummer”: é densamente abstracta, mas também muito expressiva. E até dará para dançar, embora mais na cabeça do que numa pista. Ele é uma espécie de Jackson Pollock que, sobre a tela branca da nossa atenção, vai deixando cair pingos de génio, dispersos, aparentemente aleatórios… Mas, quando nos afastamos e vemos o quadro final, cuidadosamente trabalhado através das possibilidades electrónicas oferecidas pelos pedais, é impossível não nos maravilharmos com a força da sua arte.

Ainda no foyer, apresentou-se a dupla de Júlia Miranda (contrabaixo) e Maria da Rocha (violino), que ali levou a sua “Fonte das Corujas”, onde, uma vez mais, nos pudemos saciar. Música de câmara, com rigor erudito, mas capaz igualmente de remeter para ecos de tradição popular, com momentos atonais e outros profundamente melódicos que nos fizeram, de novo, regressar ao meio do campo e da natureza. À tal fonte onde bebem corujas e onde também nós podemos saciar a sede de verde e paz.



Seguiu-se, novamente no pátio, um encontro inédito entre João Valinho (bateria), Marcelo dos Reis (guitarra), Luís Vicente (trompete), João Lucas (baixo), João Mortágua (saxofone) e Luís Rocha (clarinete baixo). Explicava o programa que, em todas as suas edições, o festival Profound Whatever propõe um encontro inédito, desafiando músicos a tocarem juntos pela primeira vez. Isto é uma aplicação prática do mais literal ímpeto experimental: juntar elementos diferenciados em busca de uma nova fórmula. E, com o elevado calibre dos músicos convocados, todos líderes por direito próprio em diferentes ensembles, todos destemidos, mas também todos dotados de uma infinita capacidade de escutarem o outro, de encaixarem os desafios instantâneos com que são confrontados, o resultado foi um momento de liberdade absoluta, caótico e extático em simultâneo. A música certa para abrir o apetite para um jantar retemperador.

A noite começou no auditório com a apresentação do Valhacouto Ensemble, que tocou uma ambiciosa e complexa composição de João Clemente. Ao seu lado estiveram Bruno Ramos (narração dos textos, sobretudo da autoria do próprio João Clemente, mas também, a fechar, o “Poemacto I”, de Herberto Hélder), Duarte Fonseca (bateria), Gonçalo Alves (bateria), João Mortágua (saxofone), José Lencastre (saxofone), Nuno Jesus (baixo), Nuno Santos Dias (Waldorf) e Vasco Fazendeiro (percussão). Se a memória não nos falha, este foi o primeiro concerto em que os músicos seguiram pautas. Clemente desempenhou a dupla função de guitarrista e condutor do ensemble, usando para o efeito não apenas gestos, mas também uma série de instruções em cartazes que ia exibindo aos músicos: “Silêncio” ou “Melodia”, “Notas Longas” ou ainda “Cartoons” e “Paisagem”, por exemplo.

Sobre uma base pré-gravada com sons de cães e pássaros a ressoarem ao longe, Bruno Ramos começou por questionar: “É este o tempo das canções de guerra?”. A isso respondeu a banda com uma música complexa, carregada de nuances, bem executada por um ensemble sabedor das dinâmicas colectivas. Isso rendeu música permanentemente inquieta, sempre em busca de um espaço na nossa atenção, exigente, mas também muito livre. Uma espécie de banda sonora para um filme que foi sendo animado nas nossas imaginações pela leitura, de dicção perfeita, dos textos. A dada altura, uma surpresa absoluta: as portas da sala abriram-se e por elas entrou um grupo de bombos e acordeão, Os Fatelas, da aldeia vizinha de Fatela. Um interlúdio algo surreal, mas que funcionou perfeitamente a meio da peça “Ainda Cantam as Aves Pela Maré Cheia”, que este Valhacouto Ensemble ali executou de forma exímia.



De regresso ao foyer, deparámo-nos com a “parafernália” do trio Novelo Vago: flauta a sério e flautas de brincar, melódica e piano (impreparado) de brincar, mais sinos, objectos diversos, como escovas, por exemplo, pandeiretas e gongos, e até umas coisas compridas e reluzentes que vibravam discretamente… E microfones, pois claro. Durante o jantar, Vera Morais desafiou João Valinho a juntar-se a si, a Teresa Costa e a Inês Lopes num momento do concerto: “Vê lá que pequenos objectos consegues reunir e junta-te a nós”. E, com textos de carácter lúdico e poético de gente como Adília Lopes ou Alexandre O’Neill, muito improviso à mistura, com o arsenal de sons que a garganta de Vera é capaz de conjurar — gritos e gemidos, sons guturais e estalidos — e verdadeiras algazarras “aviárias” geradas pela conjugação de diferentes flautas, este novelo desenrolou música vívida, plena de imaginação, um “punk erudito”, como teve o cuidado de referir Vera, aludindo ao título do álbum de estreia que revelou estar para breve. Venha ele, que será bem recebido, certamente. Os instrumentos podem ser, muitos deles, de brincar, mas a música é muito séria e até inquietante por vezes. Como a vida.

O momento seguinte decorreu no espaço do museu d’A Moagem e foi protagonizado por Pedro Melo Alves, na bateria, e Mariana Dionísio, na voz. Mariana e Pedro conhecem-se bem, encontram-se em vários ensembles e contextos, pelo que o nível telepático de encaixe que exibiram não foi surpresa. Mas mesmo sabendo boa parte dos presentes que estes são dois músicos de excepção, o que ali apresentaram foi ainda assim surpreendente: a voz aproximou-se pontualmente de registos operáticos, sempre impecavelmente afinada, sempre super-expressiva, exibindo uma fluência técnica notável que até lhe permitiu ensaiar uma espécie de rap abstracto, sem palavras e super-rápido, sobre uma síncope rítmica pronunciada que fez pensar que Mariana seria uma óptima escolha para um convite de um/a rapper ou produtor/a de hip hop mais aventureiro/a. Em contraponto, Pedro Melo Alves soube dançar em torno da voz, umas vezes oferecendo-lhe contrapontos inesperados, outras encaixando-se na perfeição nos desenhos que Dionísio ensaiava a partir das suas dotadas cordas vocais. Facto curioso: o concerto pareceu decorrer num instante, como se a dupla tivesse provado ser possível parar o tempo.



O festival fechou, na realidade, com a performance no auditório de Bárbara Togander, Clara Lai e João Valinho. Bárbara usou os gira-discos com uma abordagem simplista e acessória, muito distante dos sofisticados tecnicismos a que os turntablists são capazes de recorrer. Mais interessante foi o seu recurso à voz, com um registo que por vezes se aproximava das personagens de desenhos animados, bastante abstracto e com evidente sofisticação técnica. A sua performance só não terá sido mais marcante por ter sucedido às prestações de Vera Morais e Mariana Dionísio. Clara Lai, por sua vez, foi incrível na tradução da cena glitch, com o seu Nord Lead, de que extraiu sempre sonoridades desafiantes e pertinentes para o som do ensemble. E Valinho esteve ao nível a que já há muito nos habituou, sempre inventivo na abordagem ao seu kit, de que extraiu um conjunto notável de figuras rítmicas densamente abstractas. Um ponto (quase…) final interessante num cartaz carregado de propostas de elevadíssima qualidade, com música que trilhou caminhos desconhecidos ou pouco explorados.

O final, já em tom de festa e descompressão, coube a Edgar Ferreira, Ektar, que se apresentou em modo one man band e com reportório de bar de covers, desalinhado com o espírito mais exploratório e experimental do festival, mas em sintonia perfeita com o tom familiar e inclusivo que a Profound Whatever imprime a tudo o que faz.

Um privilégio ter acompanhado de perto esta longa e intensa viagem.


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